Cipó-titica é raiz aérea e só tem coleta sustentável se parte das raízes maduras fica na planta

Cipó titica cresce suspenso, abastece 2 usos e tem coleta sustentável apenas quando 1 regra deixa o pé intacto
Ilustração: Revista Amazônia

A fibra usada em cestaria e móveis vem das raízes aéreas de uma planta que cresce sobre as árvores e desce até o solo. A forma de cortar decide se ela sobrevive.

O cipó-titica (Heteropsis flexuosa) é uma planta da família das aráceas, típica da floresta amazônica de terra firme. O que chega às oficinas de cestaria e de móveis não é um caule trepador, e sim as raízes aéreas da planta, chamadas de fios, que descem das copas das árvores até o chão. A descrição consta em revisão publicada em 2012 na revista Ambiência por pesquisadores do Serviço Florestal Brasileiro, da Fundação Vitória Amazônica e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Uma planta que nasce no chão e sobe nas árvores

Segundo a revisão, o cipó-titica é uma hemiepífita. Começa a vida como plântula no solo, procura uma árvore hospedeira, chamada de forófito, e sobe pelo tronco com a ajuda de finas raízes de fixação. À medida que amadurece, a ligação original da planta com o solo se perde, e ela passa a depender das raízes alimentadoras que emite em direção ao chão. Quando alcançam o solo, essas raízes ficam grossas, lenhosas, resistentes e duráveis, e é nelas que está a fibra de valor comercial.

O gênero Heteropsis reúne 17 espécies, restritas à América tropical, e a maior diversidade no Brasil está na Amazônia. A mais explorada para fibra é a H. flexuosa, conhecida como cipó-titica. Uma espécie parente, a H. jenmanii, chamada de titicão ou timbó-açu, é usada principalmente na fabricação de vassouras. Segundo a Embrapa, o Amapá é hoje o principal fornecedor de cipó-titica da Amazônia.

Da raiz ao cesto e ao móvel

De acordo com a revisão da Ambiência, povos da floresta usam as raízes do titica em móveis, cestaria, armadilhas para peixes, vassouras e como material de amarração em casas, cercas e telhados. Mas a finalidade principal é a venda da fibra para outras regiões, onde ela vira móveis. As raízes são atraentes para essa indústria porque a casca escura e o córtex saem com facilidade, deixando uma fibra clara, resistente e flexível.

O mercado prefere trechos com poucos nós e comprimento mínimo de cerca de 1,5 metro, e os compradores costumam descartar fios menores. Em estudos citados na revisão, as raízes consideradas comerciais têm pelo menos 3,5 milímetros de diâmetro. O beneficiamento é em geral uma atividade familiar: o nó é cortado com facão, o fio é torcido para soltar a casca, que é retirada com as mãos, e a fibra é organizada em feixes. Depois de cinco dias da coleta, as raízes perdem cerca de metade do peso original, o que importa porque são vendidas por quilo.

Por que o corte precisa de regras

A revisão registra que a exploração sem manejo reduziu a disponibilidade do recurso e levou à diminuição, ou até à extinção regional, de plantas de cipó em áreas intensamente exploradas. Na época da publicação, apenas os estados do Amazonas e do Amapá tinham normas específicas para a atividade. A Lei 631, de 2001, do Amapá, foi a primeira a tratar da extração, do transporte e da comercialização desse tipo de fibra e a exigir licença ambiental.

Os números dos experimentos ajudam a entender o motivo. No Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, estudo de Durigan e Carvalho registrou 100% de mortalidade, em dois meses, nas plantas que tiveram todas as raízes retiradas, e 29,5% de mortalidade, após um ano, nas plantas que não perderam todas as raízes. As chances de sobrevivência aumentaram bastante quando até 60% das raízes eram deixadas intactas. Em pesquisa feita em Porto Grande, no Amapá, nenhuma planta apresentou dano aparente quando 25% das raízes maduras foram cortadas, mas, quando todas foram cortadas, 61% das plantas morreram.

O que as normas determinam

As regras estaduais partem de uma distinção entre fio maduro e fio verde. O fio maduro é aquele que já atingiu o chão da floresta, é lenhoso e estala quando dobrado. O fio verde ainda não se fixou no solo e é tenro. Tanto no Amazonas quanto no Amapá, não podem ser coletados os fios verdes ou imaturos nem os que abraçam de forma consistente o tronco da árvore hospedeira.

No Amapá, a resolução 013/2009 do Conselho Estadual do Meio Ambiente manda manter em cada planta um terço das raízes maduras, fixa a coleta entre maio e dezembro e estabelece um ciclo de corte de três anos. No Amazonas, a Instrução Normativa 01/2008 determina que não se colete de plantas com apenas um fio maduro e que se mantenham, por árvore, metade dos fios maduros quando houver menos de 20 fios, ou um terço quando houver mais de 20. O ciclo de corte também é de três anos.

Como cortar e quanto esperar

A revisão descreve que o método tradicional de coleta, por torção do fio, é prejudicial, porque pode desprender a planta da copa da árvore e causar sua morte. A recomendação é subir na árvore hospedeira e, com tesoura ou podão telescópico, cortar o fio perto da união da raiz com o caule da planta. Cada árvore coletada deve ser marcada, de preferência com placa numerada, e as informações sobre os fios retirados e os que ficaram devem ser registradas em ficha de campo, para permitir o monitoramento.

O tempo de espera entre as coletas tem base na biologia da planta. Em pesquisa no Amapá, as raízes que se regeneram cresceram em média 1,96 metro por ano, e seriam necessários cerca de 6,6 anos para uma raiz alcançar o solo na altura média das plantas-mãe da área, de 12,9 metros. O mesmo estudo apontou que cortes feitos no período mais seco do ano aumentaram a mortalidade e prejudicaram a regeneração das raízes. Carvalho e Queiroz, em publicação de 2010 citada na revisão, recomendam um pousio de quatro a cinco anos, mais longo que o mínimo de três anos previsto nas normas.

O que o objeto não mostra

Um cesto ou um móvel de cipó-titica reúne duas etapas que costumam ser observadas separadamente. De um lado está o trabalho de transformação da fibra em objeto. De outro está a decisão tomada na mata sobre quantas raízes retirar e quantas deixar. O produto acabado pode vir de um manejo que respeita esses limites ou de uma coleta que matou a planta, e a diferença não aparece na peça pronta. É por isso que o licenciamento, a marcação das árvores e o registro das coletas pesam tanto quanto a habilidade de quem trabalha a fibra.

Com informações da Embrapa e da revista Ambiência (Scipioni et al., 2012).

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