Navio que servia à indústria offshore vira laboratório e ajuda a revelar 57 espécies novas no fundo do Atlântico Sul

Navio que servia à indústria offshore vira laboratório e ajuda a revelar 57 espécies novas no fundo do Atlântico Sul
Foto: ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute. Pepino-do-mar Loki (Peniagone sp.), espécie nova filmada a 2.577 metros no cânion de Mar del Plata.

Um navio construído em 2011 para a indústria offshore, que trabalhou na montagem de parques eólicos no mar da Europa, virou laboratório flutuante e ajudou a revelar 57 espécies marinhas novas para a ciência no Atlântico Sul. As amostras foram coletadas em agosto de 2025 pelo navio de pesquisa Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, no cânion submarino de Mar del Plata, na Argentina, a mais de 3.500 metros de profundidade. A identificação foi feita em duas semanas, em julho de 2026, por 20 taxonomistas reunidos em Buenos Aires, segundo o instituto.

Entre as novidades estão um pepino-do-mar apelidado de Loki, 20 espécies de copépodes e cinco gêneros novos de corais, pepinos-do-mar e crustáceos.

De navio da indústria a laboratório no fundo do mar

Segundo o Schmidt Ocean Institute, o Falkor (too) foi comprado da empresa norueguesa GC Rieber Shipping com o nome de Polar Queen. Ele foi construído em 2011 como embarcação da indústria offshore e, antes da compra, estava sendo usado na construção de parques eólicos no mar da Europa. Rebatizado, o navio tem 363 pés, cerca de 110 metros, é classificado para navegar em gelo e é oferecido de graça a cientistas de todo o mundo.

É desse navio que desce o SuBastian, um robô submarino operado remotamente que filma e coleta animais no fundo do oceano.

Onde as espécies foram encontradas

A expedição Oásis Submarinos do Cânion de Mar del Plata, entre julho e agosto de 2025, foi liderada pelo pesquisador Daniel Lauretta, do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet) e do Museu Argentino de Ciências Naturais. O trabalho se concentrou na Confluência Brasil-Malvinas, região onde a corrente quente que desce pela costa brasileira encontra águas frias e ricas em nutrientes vindas da Antártida.

Segundo o instituto, o cânion tem quase o dobro da profundidade do Grand Canyon, nos Estados Unidos, e passa de 3.500 metros. A transmissão ao vivo das imagens do robô foi acompanhada por mais de 4 milhões de pessoas e mostrou recifes de corais de profundidade e campos de corais-cogumelo a 1.500 metros.

As 57 espécies novas

As amostras foram analisadas em um workshop de descoberta de espécies realizado de 13 a 24 de julho de 2026 na Universidade Maimónides, em Buenos Aires, organizado pelo programa Ocean Census, da Nippon Foundation e da Nekton, com o Schmidt Ocean Institute, o Conicet e o museu argentino. Segundo o instituto, o grupo identificou:

  • 20 espécies novas de copépodes, pequenos crustáceos;
  • 22 espécies de equinodermos, entre pepinos-do-mar e crinoides;
  • 14 espécies de cnidários, como octocorais, penas-do-mar e corais;
  • 1 espécie de escafópode, um molusco;
  • 5 gêneros novos de corais, pepinos-do-mar e crustáceos.

Nos copépodes, os taxonomistas examinaram apenas 10% das amostras coletadas, e todos os exemplares analisados eram de espécies novas para a ciência, segundo o instituto. Entre os corais, há dois possíveis gêneros novos e uma possível família nova, que ainda aguardam análise genética.

Loki, o pepino-do-mar com chifres

O destaque do trabalho foi um pepino-do-mar do gênero Peniagone, filmado a 2.577 metros de profundidade. Os pesquisadores o apelidaram de Loki por causa dos apêndices em forma de chifre, que lembram o deus da mitologia nórdica. Ele é uma de até 10 espécies novas de pepinos-do-mar encontradas no workshop.

Já a estrela-do-mar laranja que ficou famosa durante a transmissão ao vivo, comparada ao personagem Patrick Estrela, não foi considerada espécie nova. Segundo o instituto, ela foi deixada no fundo do mar, sem ser coletada.

Por que isso importa

“Descobrir 57 novas espécies e cinco novos gêneros em apenas duas semanas demonstra a velocidade e o poder da taxonomia colaborativa”, afirmou Michelle Taylor, chefe de ciência do Ocean Census. Segundo ela, o mar profundo abriga alguns dos ecossistemas menos compreendidos da Terra.

As descobertas foram registradas no Ocean Census NOVA, plataforma de acesso aberto para espécies marinhas recém-descobertas. Os exemplares ficarão em coleções científicas da Argentina, como a do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia.

Entenda

Taxonomista é o cientista que descreve e classifica espécies. Gênero é o grupo que reúne espécies aparentadas, acima da espécie na classificação dos seres vivos. Copépodes são crustáceos minúsculos que estão na base da cadeia alimentar do oceano. Cânion submarino é um vale profundo escavado no talude continental, a encosta que liga a plataforma ao fundo do mar.

Perguntas frequentes

Quantas espécies novas foram encontradas?

57 espécies e 5 gêneros novos, segundo o Schmidt Ocean Institute.

Onde fica o cânion de Mar del Plata?

No mar da Argentina, no Atlântico Sul, na região da Confluência Brasil-Malvinas.

O navio era usado para explorar petróleo?

Segundo o instituto, o navio foi construído em 2011 como embarcação da indústria offshore e era usado por último na construção de parques eólicos no mar da Europa.

O que é o pepino-do-mar Loki?

Uma espécie nova do gênero Peniagone, encontrada a 2.577 metros, apelidada assim pelos apêndices em forma de chifre.

Com informações do Schmidt Ocean Institute, do Ocean Census e do Conicet.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA