
Em 2017, Samara de Jesus, então com 24 anos, acordou com um desconforto na parte inferior do corpo. Ela descreveu a sensação como uma cãibra ou formigamento. Apesar de ter passado por uma cirurgia de apendicite, ela acreditava que os sintomas desapareceriam e foi trabalhar. No entanto, durante uma crise de estresse, seu estado piorou. “Eu caí no chão. Não conseguia me mover. Perdi o movimento das pernas por alguns segundos”.
Depois de algum tempo, Samara foi diagnosticada com neuromielite óptica, uma doença rara que afeta o sistema nervoso central, especificamente o nervo óptico e a medula espinhal. Os sintomas incluem fraqueza muscular, fadiga e dor, e podem resultar em sequelas como cegueira e incapacidade de andar. “Disseram que poderia ser lúpus, esclerose múltipla e outras doenças autoimunes”, disse Samara. Durante o tratamento, ela descobriu que estava grávida.
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Poraquê e as águas escuras do Rio Negro revelam um sistema de comunicação incrível através de pulsos elétricos“Eu tive que me afastar porque, depois de seis meses, tive um surto da doença, mesmo estando grávida. Fiquei internada por quase 20 dias, perdi o movimento das pernas, perdi o controle da bexiga e do intestino. Usei sonda enquanto estava grávida. Foi muito mais difícil para desinflamar a coluna e melhorar o quadro”, relatou. No total, foram quatro surtos até que a medicação correta fosse iniciada. Hoje, Samara recuperou o movimento das pernas, mas a fraqueza muscular continua. “Fiquei com essa sequela. O movimento não retornou completamente por causa dessa fraqueza. Depois do último surto, tenho mais cuidado para andar muito. Minha perna se cansa, começa a puxar. Ando com mais dificuldade, mas não ando com auxílio”. Atualmente, não há protocolo clínico ou diretrizes terapêuticas específicas para a neuromielite óptica no Sistema Único de Saúde (SUS), o que pode dificultar o diagnóstico e o acesso ao tratamento.
No Dia de Conscientização sobre a Neuromielite Óptica, comemorado nesta quarta-feira (27), o prédio do Congresso Nacional, em Brasília, recebe iluminação verde, que será mantida até o próximo domingo (31). O objetivo é chamar a atenção para a conscientização sobre a doença.
No Brasil, até agora, a única alternativa terapêutica aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a neuromielite óptica é o inebilizumabe, um anticorpo monoclonal aprovado para a redução do risco de surtos e diminuição da incapacidade em adultos diagnosticados. Para que esse medicamento seja oferecido no SUS, é necessária a demanda para análise pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
Em uma entrevista à Agência Brasil, o neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein, Herval Ribeiro Soares Neto, explicou que a doença, ainda pouco conhecida, afeta principalmente mulheres afrodescendentes e asiáticas entre os 30 e 40 anos.
“Nessa doença, o sistema imunológico do corpo ataca erroneamente e danifica as células saudáveis do sistema nervoso central, o que pode levar à inflamação e à desmielinização, um processo onde a camada protetora dos nervos, chamada mielina, é danificada.”
Especialista em doenças desmielinizantes, ele lembra que é importante procurar ajuda médica imediatamente caso o paciente experimente sintomas como perda de visão ou fraqueza súbita, pois o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno são cruciais para evitar danos permanentes.
“O diagnóstico de neuromielite óptica pode ser desafiador, principalmente porque os sintomas são semelhantes aos de outras doenças autoimunes e distúrbios do sistema nervoso central, como a esclerose múltipla. O diagnóstico geralmente envolve uma combinação de exames de sangue para detectar anticorpos específicos, como anti-aquaporina 4, ressonância magnética para visualizar lesões no nervo óptico e na medula espinhal e, às vezes, uma punção lombar.”
“Não há cura para a neuromielite óptica, mas hoje existem cuidados e tratamentos que podem ajudar a gerenciar os sintomas e reduzir a frequência dos surtos. O tratamento multidisciplinar, como a fisioterapia, pode ajudar a melhorar a função e a mobilidade.”
O manejo da neuromielite óptica, segundo o médico, exige uma abordagem multidisciplinar e acompanhamento contínuo por uma equipe de saúde especializada, incluindo neurologistas, oftalmologistas e fisioterapeutas, para adaptar os tratamentos às necessidades individuais do paciente e monitorar a progressão da doença.
De acordo com o Ministério da Saúde, a neuromielite óptica foi considerada, por muito tempo, como uma variante da esclerose múltipla. Os principais sinais e sintomas incluem inflamação do nervo óptico, déficits motores e sensoriais, episódio de soluços inexplicáveis ou náuseas e vômitos. Até o momento, não há um esquema de tratamento estabelecido para a doença nem mesmo em protocolos internacionais.
“Embora vários medicamentos sejam considerados eficazes, não há algoritmos de tratamento ou esquemas terapêuticos amplamente aceitos e suportados por altos níveis de evidência. Diferentes alternativas terapêuticas foram recentemente aprovadas para o tratamento no mundo, incluindo o rituximabe, o tocilizumabe, o eculizumabe e o inebilizumabe”, destacou a Conitec.















