Uma árvore indiana tomou as ruas do Sertão da Paraíba: é mais da metade das árvores em 10 cidades, e moradores dizem que nela não pousa passarinho

Uma árvore indiana tomou as ruas do Sertão da Paraíba: é mais da metade das árvores em 10 cidades, e moradores dizem que nela não pousa passarinho
Nim indiano (Azadirachta indica). Foto: Vinayaraj, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Em dez cidades do Semiárido da Paraíba, uma árvore vinda da Índia domina as calçadas. O nim (Azadirachta indica) representou sozinho 700 das 1.381 árvores de rua contadas por pesquisadores, mais da metade de toda a amostra. O resultado foi publicado na revista científica Biotropica por pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

O estudo analisou Alagoa Grande, Cajazeiras, Campina Grande, Esperança, Guarabira, Patos, Pombal, Queimadas, São Bento e Sousa.

Oito em cada dez árvores são estrangeiras

Os pesquisadores combinaram amostragem nas ruas e classificação por satélite. Encontraram 69 espécies, das quais 52 não são nativas. Cerca de 80% de todas as árvores eram exóticas, e 60% pertenciam a espécies classificadas como exóticas invasoras. A flora da Caatinga, adaptada ao clima da região, aparecia pouco.

Pelos critérios do estudo, metade dos municípios pode ser classificada como antagônica à biodiversidade, pela escassez de espécies locais e pelo predomínio de plantas de fora.

Estudos de arborização costumam se concentrar em capitais. Olhar para cidades pequenas e médias do interior revelou um quadro que passava despercebido.

Como o nim chegou

Segundo os pesquisadores, o nim foi introduzido no Brasil nos anos 1980, com incentivo do poder público, em parte por ser usado como defensivo agrícola natural. A árvore cresce rápido, tolera seca e dá sombra, o que explica por que se espalhou pelas ruas do Sertão.

O problema está justamente na química que a tornou útil. O nim tem compostos com ação inseticida, como a azadiractina. Estudos mostram que eles são tóxicos para insetos, inclusive abelhas, e podem inibir o desenvolvimento das larvas. Plantar nim em massa nas cidades pode reduzir a fauna de polinizadores e afetar aves e outros pequenos animais que dependem desses insetos.

Sem passarinho e com calçada quebrada

Os moradores percebem a diferença. Durante a coleta de dados, os pesquisadores ouviram relatos de que no nim não chega bicho: dá sombra, mas não se escuta passarinho. As análises biológicas confirmaram a impressão no caso das formigas, um grupo muito sensível à troca de árvores nativas por exóticas. As espécies nativas abrigam uma riqueza maior de formigas.

Também houve impacto na infraestrutura. Muitas exóticas invasoras danificam calçadas e pavimento com as raízes, enquanto as nativas da Caatinga, adaptadas ao solo seco, causam menos estrago. Os pesquisadores relatam casos de raízes de nim quebrando pisos e até aparecendo dentro de casas.

Uma escolha do poder público

Para os autores, o avanço das exóticas nas ruas é resultado de escolhas das prefeituras e dos órgãos responsáveis pela arborização. Isso significa que pode ser revertido com planejamento: substituir aos poucos as invasoras e priorizar árvores da Caatinga em novos plantios.

Árvores nativas para a cidade

A Caatinga tem espécies que dão boa sombra e convivem bem com o ambiente urbano, como o ipê-roxo, a craibeira, o juazeiro e a catingueira. Antes de plantar em calçada, a recomendação é consultar o órgão municipal responsável pela arborização para escolher espécie e local adequados.

Perguntas frequentes

O nim faz mal às abelhas?

Estudos indicam que compostos do nim, como a azadiractina, são tóxicos para insetos, inclusive abelhas, e podem afetar o desenvolvimento das larvas.

Por que o nim é tão plantado no Nordeste?

Porque cresce rápido, resiste à seca e dá sombra. Foi introduzido no Brasil nos anos 1980, com incentivo do poder público.

Com informações da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e do estudo publicado na Biotropica.

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