Nova perereca amplia mapa da biodiversidade no Cerrado

Foto: ZOOTAXA/Divulgação
Foto: ZOOTAXA/Divulgação

Uma perereca que nasce com o nome de um rio ameaçado

No coração do Cerrado mineiro, entre matas de galeria e riachos de águas rápidas, uma pequena perereca chamou a atenção da ciência. Descrita formalmente em fevereiro de 2026, Ololygon paracatu é uma espécie endêmica do município de Paracatu, no noroeste de Minas Gerais. Seu nome homenageia o Rio Paracatu, um dos principais afluentes do Rio São Francisco — e também simboliza um alerta sobre o estado de conservação da bacia.

Com pouco mais de dois centímetros no caso dos machos e até três centímetros e meio entre as fêmeas, a nova perereca pode parecer discreta à primeira vista. Mas sua descoberta lança luz sobre uma região ainda pouco explorada cientificamente e sob intensa pressão ambiental. Registrada em apenas duas localidades próximas, a espécie habita matas de galeria associadas a cursos d’água de leito rochoso, ambientes que vêm sofrendo com assoreamento, desmatamento e alterações no regime hídrico.

Ao associar o nome da espécie ao rio, os pesquisadores não apenas celebram uma identidade regional, mas também reforçam a urgência de proteger ecossistemas que sustentam tanto a biodiversidade quanto comunidades humanas. A descrição científica, nesse caso, assume papel político: registrar é também reivindicar conservação.

Cerrado ainda guarda segredos sob ameaça

A descoberta de Ololygon paracatu não é um evento isolado. Nos últimos anos, o Cerrado mineiro tem revelado novas espécies de anfíbios, desafiando a percepção de que se trata de um bioma já plenamente conhecido. Entre elas está Nyctimantis diadorim, descrita entre o final de 2024 e início de 2025, a primeira do gênero registrada no Cerrado.

Conhecida como perereca-de-capacete, Nyctimantis diadorim integra um grupo que apresenta hiperossificação no crânio — um reforço ósseo que, em algumas espécies, forma espículas capazes de perfurar a mucosa de predadores e inocular toxinas. Seu nome é uma homenagem à personagem Diadorim, da obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A escolha não é casual: assim como a personagem, a perereca é descrita como elusiva e resistente, vivendo em ambientes paludosos associados às veredas do Parque Nacional Grande Sertão Veredas.

Foto: Luciana tavares de paula
Foto: Luciana tavares de paula

O parque, localizado na divisa entre Minas Gerais e Bahia, é uma das principais áreas protegidas do bioma e abriga formações típicas do Cerrado, incluindo campos úmidos e matas de galeria. Ainda assim, mesmo áreas oficialmente protegidas enfrentam pressões externas, como rebaixamento do lençol freático e expansão agropecuária no entorno.

Outra espécie relevante é Aplastodiscus lutzorum, descrita em 2017 e considerada o primeiro anfíbio formalmente apresentado à ciência naquele ano. Endêmica do Cerrado, ela reforça a ideia de que o bioma funciona como um laboratório vivo de evolução, onde linhagens adaptadas a ambientes sazonais e extremos continuam a emergir.

Essas descobertas demonstram que o Cerrado não é apenas berço de nascentes e celeiro agrícola, mas também território de biodiversidade subestimada. Ao mesmo tempo, expõem uma contradição: novas espécies estão sendo descritas em áreas já degradadas ou fragmentadas, o que eleva o risco de desaparecimento antes mesmo de serem plenamente estudadas.

Refúgio urbano e alerta científico em Belo Horizonte

Enquanto novas espécies são reveladas no interior do estado, levantamentos em áreas urbanas também trazem surpresas. Na Estação Ecológica da UFMG, em Belo Horizonte, pesquisadores registraram 11 espécies de anfíbios, incluindo Ololygon berthae, considerada rara em Minas Gerais.

O registro na Estação Ecológica da UFMG marcou a primeira ocorrência formal da espécie no município. Antes disso, Ololygon berthae havia sido documentada apenas em Uberaba, em 2016. A confirmação ampliou sua distribuição conhecida em 58 quilômetros. Curiosamente, a identificação não veio de campo recente, mas de dados secundários analisados a partir de exemplares depositados no Centro de Coleções Taxonômicas da UFMG.

Apesar do achado, a espécie não foi reencontrada durante os levantamentos realizados entre 2023 e 2024. A ausência levanta uma hipótese inquietante: a possibilidade de extinção local. Em uma metrópole como Belo Horizonte, onde fragmentos de vegetação convivem com expansão urbana, a sobrevivência de anfíbios depende de micro-habitats específicos.

Na Estação, as espécies ocupam ambientes variados, desde alagados e poças temporárias até bordas de mata, bambuzais e até estradas internas. A pererequinha-do-brejo Dendropsophus minutus foi a mais frequente no levantamento, representando mais de 20% dos registros. Boana faber e Physalaemus cuvieri também tiveram presença expressiva, sobretudo em áreas alagadas.

A diversidade encontrada em um refúgio urbano reforça a importância de unidades de conservação dentro de grandes cidades. Elas funcionam como ilhas de biodiversidade, conectando populações e oferecendo abrigo a espécies sensíveis às mudanças ambientais.

Foto: Geísa Pereira de Souza
Foto: Geísa Pereira de Souza

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Ciência, conservação e urgência

A descrição de uma nova perereca pode parecer um acontecimento restrito ao universo acadêmico. Mas, no Cerrado mineiro, cada descoberta carrega implicações amplas. Anfíbios são considerados bioindicadores: sua pele permeável e ciclo de vida dependente de ambientes aquáticos os tornam particularmente sensíveis a poluição, mudanças climáticas e alterações no uso do solo.

Quando uma espécie como Ololygon paracatu é encontrada em apenas duas localidades, isso não significa necessariamente raridade absoluta, mas pode indicar distribuição restrita e vulnerabilidade. Em um bioma que já perdeu mais de metade de sua cobertura original, a combinação entre endemismo e degradação é motivo de alerta.

Além disso, o processo de descrição científica é essencial para viabilizar políticas públicas. Espécies formalmente reconhecidas podem ser incluídas em listas de conservação, planos de manejo e avaliações de impacto ambiental. Sem nome e sem registro, não há proteção legal possível.

O Cerrado mineiro, portanto, revela-se ao mesmo tempo exuberante e frágil. Entre veredas, matas de galeria e fragmentos urbanos, pequenas pererecas tornam-se símbolo de um dilema maior: como conciliar desenvolvimento econômico com preservação de um patrimônio biológico ainda parcialmente desconhecido.

A nova perereca não é apenas um acréscimo ao catálogo da herpetologia. É um lembrete de que a ciência continua a descobrir o que pode desaparecer silenciosamente. Em tempos de mudanças climáticas e pressão sobre recursos hídricos, ouvir o canto dessas pequenas habitantes do Cerrado pode ser também um chamado à responsabilidade coletiva.