Dentes de 25 mil anos na Indonésia revelam o uso de droga mais antigo já registrado: caçadores-coletores chupavam noz de areca e destruíram os próprios dentes

Dentes de 25 mil anos na Indonésia revelam o uso de droga mais antigo já registrado: caçadores-coletores chupavam noz de areca e destruíram os próprios dentes
Frutos da palmeira-de-areca (Areca catechu). Foto: Timothy A. Gonsalves, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Uma das ideias mais aceitas sobre a história das drogas é que o uso regular de substâncias que alteram a mente começou depois da agricultura, com bebidas fermentadas como a cerveja de cevada produzida há cerca de 13 mil anos no atual Israel. Um estudo da Universidade Griffith, na Austrália, mostra que caçadores-coletores da Indonésia já faziam isso muito antes: há até 25 mil anos.

A substância era a noz de areca, ingrediente principal do bétel, hábito de mascar que hoje é comum da Índia às ilhas do Pacífico. O trabalho foi publicado na revista científica Science Advances.

A quarta droga mais usada do mundo

Pouco conhecida no Ocidente, a noz de areca, semente da palmeira Areca catechu, é usada por centenas de milhões de pessoas, cerca de uma em cada dez no planeta. Segundo o arqueólogo Adam Brumm, que liderou o estudo, é a quarta substância psicoativa mais usada do mundo, atrás do álcool, da cafeína e da nicotina. Produz euforia leve e aumento do estado de alerta.

Hoje, a semente é preparada com cal, obtida de conchas queimadas e moídas, e outros ingredientes, formando um bolo que é mascado. A cal provoca uma reação química que libera mais rápido os compostos psicoativos, como a arecolina.

Pistas nos dentes

Sementes de areca quase nunca se preservam em sítios arqueológicos, o que tornava difícil saber quando o hábito começou. A equipe, com arqueólogos indonésios da Universidade Hasanuddin e da agência nacional de pesquisa BRIN, combinou evidências arqueológicas com testes bioquímicos em dentes antigos da ilha de Sulawesi.

Os resultados indicam que caçadores-coletores chupavam nozes de areca inteiras de forma habitual, por longos períodos. O efeito talvez fosse mais fraco que o do bétel moderno, mas frequente o bastante para deixar marcas profundas nos dentes.

Remédio que virou problema

Os antigos moradores de Sulawesi tinham, em geral, péssima saúde bucal. Como a arecolina também tem efeito analgésico, os pesquisadores suspeitam que algumas pessoas começaram a chupar a noz para aliviar dor de dente.

Com o tempo, porém, mastigar e chupar essas sementes duras e abrasivas desgastou tanto os dentes que, em alguns casos, a polpa interna ficou exposta. Isso causava dor intensa, dificuldade para comer e infecções crônicas. Segundo Brumm, o hábito que aliviava a dor acabou piorando a saúde bucal e criando um ciclo de uso contínuo.

Antes da agricultura

Para o pesquisador, o achado pode ser a evidência mais antiga de uso habitual de droga no mundo. Mostra que alguns comportamentos modernos de consumo de substâncias têm raízes profundas em tradições de caçadores-coletores, dezenas de milhares de anos antes do surgimento das lavouras.

Um hábito que preocupa médicos

Mascar bétel e noz de areca é associado a problemas de saúde sérios, incluindo doenças bucais e câncer de boca, e a Organização Mundial da Saúde classifica a noz de areca como cancerígena para humanos. O estudo mostra que, desde o início, o hábito já cobrava um preço dos dentes de quem o praticava.

Perguntas frequentes

O que é noz de areca?

É a semente da palmeira Areca catechu, mascada com cal e outros ingredientes no hábito do bétel, comum na Ásia e no Pacífico.

Qual a droga mais antiga já registrada?

Segundo o estudo, o uso habitual de noz de areca em Sulawesi, há até 25 mil anos, pode ser a evidência mais antiga.

Com informações da Universidade Griffith e do estudo publicado na Science Advances.

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