Onça-pintada Theodoro andou dezenas de quilômetros, desabou de cansaço na beira de uma rodovia em SP e só voltou à mata quando abriram a cerca

Onça-pintada Theodoro andou dezenas de quilômetros, desabou de cansaço na beira de uma rodovia em SP e só voltou à mata quando abriram a cerca
Foto: MonitoraBioSP/Fundação Florestal. Theodoro registrado por armadilha fotográfica no oeste paulista.

A onça-pintada Theodoro, macho de seis anos que pesa entre 100 e 120 quilos, foi encontrada exausta à beira da Rodovia Arlindo Bétio (SP-613), em Teodoro Sampaio, no extremo oeste de São Paulo, em 17 de setembro de 2026. Sem ferimentos, mas sem forças depois de percorrer dezenas de quilômetros, ela só voltou ao Parque Estadual Morro do Diabo depois que a equipe abriu uma passagem no alambrado ao lado da pista. Ninguém precisou sedar o animal.

Theodoro é acompanhado desde 2021 pela Fundação Florestal, órgão do governo paulista que administra o parque, e é uma das poucas onças-pintadas que ainda vivem livres no estado.

O que aconteceu na rodovia

O felino estava na altura do quilômetro 16. A primeira suspeita foi de atropelamento, descartada depois da avaliação dos especialistas. Segundo a Fundação Florestal, ele estava apenas muito cansado, algo comum em onças-pintadas, que andam longas distâncias em busca de território e de comida.

A ocorrência mobilizou a Fundação Florestal, a Polícia Militar, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e o Corpo de Bombeiros. A pista ficou totalmente interditada por cerca de 40 minutos. Os policiais controlaram o trânsito e ajudaram a direcionar o animal para a área protegida, usando as cercas e as passagens de fauna que existem no trecho.

O plano não saiu de primeira. No meio do caminho, Theodoro voltou a se deitar na beira da rodovia. A entrada mais próxima do parque ficava a cerca de dois quilômetros. Os bombeiros usaram água de um caminhão como estímulo para ele se mover, sem provocar estresse.

Uma passagem na cerca

Como a onça continuava sem energia, a equipe técnica decidiu abrir uma passagem no alambrado perto de onde ela estava. Com acesso direto à mata, Theodoro entrou no parque por conta própria.

A Fundação Florestal explicou por que não usou sedação: o procedimento poderia ser arriscado para um animal de grande porte já submetido a estresse e cansaço.

Como a equipe sabia que era Theodoro

Cada onça-pintada tem um desenho de rosetas na pelagem que funciona como impressão digital. É por esse padrão que o programa MonitoraBioSP, da Fundação Florestal, reconhece os animais nas imagens das armadilhas fotográficas, câmeras que disparam sozinhas quando algo passa na frente.

No Morro do Diabo, o programa mantém 40 pontos com câmeras que funcionam 24 horas por dia nos períodos de monitoramento, e cerca de dez onças-pintadas já foram identificadas. Em todo o estado, o MonitoraBioSP soma cerca de 1.540 registros da espécie. Os animais circulam por uma área extensa entre os rios Paranapanema e Paraná, usando corredores que ligam diferentes áreas de conservação.

Theodoro já aparecia no Guia de onças-pintadas do estado de São Paulo, lançado no fim de 2023 por especialistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Fundação Florestal e do Instituto de Pesquisas Ambientais. Na época, ele pesava 90 quilos e tinha sido flagrado em 2021 acasalando bem em frente a uma das câmeras. O guia retratou 51 onças identificadas no estado.

A rodovia é o maior perigo

O susto tem razão de ser. A mesma rodovia corta a região do parque, e o atropelamento é uma das principais causas de morte de onças-pintadas no oeste paulista. Uma fêmea chamada Lua foi atropelada e morta em julho de 2009 e hoje pode ser vista taxidermizada no museu do Morro do Diabo.

No Brasil, a onça-pintada já desapareceu do Pampa e de 96% dos fragmentos de Mata Atlântica com menos de 100 quilômetros quadrados, segundo os pesquisadores do guia. A maior parte da população do país, cerca de 80%, vive na Amazônia.

Entenda

O Parque Estadual Morro do Diabo tem quase 34 mil hectares de Mata Atlântica de interior, em Teodoro Sampaio. Criado como reserva em 1941 e transformado em parque em 1986, ele abriga também a maior população livre do mico-leão-preto, um dos primatas mais ameaçados do mundo.

Perguntas frequentes

Quem é Theodoro?

Um macho de onça-pintada de seis anos, monitorado desde 2021 pela Fundação Florestal no Parque Estadual Morro do Diabo.

Theodoro foi atropelado?

Não. A suspeita foi descartada. Ele estava exausto, sem ferimentos.

Por que não sedaram a onça?

Porque a sedação poderia ser arriscada para um animal grande, estressado e cansado, segundo a Fundação Florestal.

Quantas onças vivem no Morro do Diabo?

Cerca de dez já foram identificadas pelo monitoramento com armadilhas fotográficas.

O monitoramento continua, e cada novo registro de Theodoro nas câmeras do parque vai mostrar se ele segue usando a mesma área depois do susto.

Com informações da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, do Guia de onças-pintadas do estado de São Paulo e da revista Pesquisa FAPESP.

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