
O peixe-leão, um dos invasores marinhos mais temidos do mundo, chegou a Abrolhos, no sul da Bahia, o maior e mais rico conjunto de recifes de coral do Atlântico Sul. A presença foi confirmada por pesquisadores da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), e a reação começou pela pesca: desde agosto de 2026, a Prefeitura de Porto Seguro paga R$ 10 por exemplar capturado e entregue à colônia de pescadores Z-22.
Nas últimas semanas, os pescadores já retiraram ao menos 440 peixes-leão do mar na região de Porto Seguro. Os primeiros registros perto da cidade aconteceram em junho de 2026.
Um peixe bonito que não tem predador aqui
O peixe-leão (Pterois volitans) é nativo do Indo-Pacífico e do mar Vermelho. Tem listras vermelhas e brancas e nadadeiras que lembram uma juba, o que o tornou popular em aquários. No litoral brasileiro, porém, não encontra predadores naturais e se alimenta dos filhotes de espécies locais.
Segundo o biólogo Carlos Hackradt, coordenador do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da UFSB, quando o invasor come os juvenis de peixes explorados pela pesca, as populações desses peixes diminuem. O efeito se espalha: afeta o ecossistema, a renda dos pescadores e o turismo, que depende de recifes saudáveis.
O roteiro já é conhecido no Caribe e em outras áreas do Atlântico Norte, onde o peixe-leão causou danos aos recifes de coral depois de se estabelecer.
O que está em jogo em Abrolhos
Abrolhos abriga os chapeirões, estruturas de coral em forma de cogumelo que só existem nessa parte do litoral brasileiro. A região tem pelo menos 90 espécies de corais e 266 de peixes, entre elas o mero (Epinephelus itajara), classificado como criticamente ameaçado na lista nacional, e o budião-azul (Scarus coeruleus), considerado ameaçado. É também a principal área de reprodução e cria das baleias-jubarte no Atlântico Sul Ocidental.
A extensão da invasão ainda não foi medida. Segundo Hackradt, a chegada é muito recente, e a equipe está reunindo as primeiras informações no extremo sul do arquipélago para entender a gravidade do problema e indicar às autoridades quais medidas são viáveis. O pesquisador alerta que a espécie se reproduz muito rápido e pode seguir para o sul, alcançando águas de outros estados.
O que o estômago do invasor revela
Os peixes entregues pelos pescadores viram material de pesquisa. A equipe da UFSB já analisou o conteúdo estomacal de 430 exemplares para descobrir quais espécies nativas estão sendo devoradas e em que quantidade.
Os pesquisadores também estudam se o peixe-leão pode ir para a mesa com segurança. Em algumas regiões do mundo ele é considerado uma iguaria. O veneno fica em glândulas ligadas aos 18 espinhos do dorso e não chega à carne, mas o preparo exige cuidado para evitar acidentes na limpeza.
Por que pagar por peixe capturado
Erradicar o peixe-leão depois que ele se instala é considerado praticamente impossível em mar aberto. A estratégia adotada em vários países é a remoção contínua, que mantém a população sob controle em áreas prioritárias, como recifes de alto valor ecológico e turístico.
Em Porto Seguro, a parceria entre a Secretaria de Meio Ambiente do município e a colônia Z-22 transforma os pescadores na linha de frente do monitoramento. Cada peixe entregue rende dinheiro para quem pescou e informação para os cientistas.
O que fazer ao encontrar um peixe-leão
Banhistas e mergulhadores não devem tocar no animal. As picadas dos espinhos são muito dolorosas. A orientação geral das campanhas de controle no Brasil é registrar o local, tirar foto se possível e avisar órgãos ambientais ou pesquisadores, que usam esses registros para mapear o avanço da espécie.
Perguntas frequentes
O peixe-leão é venenoso?
Ele tem veneno nos espinhos do dorso, ligados a glândulas. A carne não é venenosa, mas a limpeza exige cuidado.
Quantos peixes-leão já foram retirados em Porto Seguro?
Ao menos 440 nas últimas semanas, segundo os registros da pesca paga pela prefeitura desde agosto de 2026.
Por que o peixe-leão é um problema?
Porque come filhotes de peixes nativos e não tem predadores naturais no litoral brasileiro, o que permite que se multiplique rapidamente.
Com informações da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e da Prefeitura de Porto Seguro.
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