
Obra independente de Kuhlmann organiza plantas pelas cores e épocas de floração e mostra como a perda da vegetação pode afetar as aves.
Dez anos entre flores e beija-flores
Uma bromélia florida e alaranjada, cercada por beija-flores na Chapada dos Veadeiros, levou o biólogo Kuhlmann a investigar com mais atenção as plantas que sustentam essas aves no Cerrado. O registro chamou sua atenção durante uma pesquisa e abriu um trabalho de dez anos de observação e imersão pelo bioma conhecido como berço das águas. Nesse período, o pesquisador identificou 41 espécies de beija-flores que ocorrem no Cerrado, entre representantes frequentes em diferentes áreas e espécies mais raras, encontradas apenas em locais específicos, como a Serra do Espinhaço.
O resultado foi reunido no livro Cerrado em Cores: Flores Atrativas para Beija-Flores, publicado de forma independente pela editora do próprio autor, a Biom Field Guides. A obra tem 750 páginas, capa dura e acabamento especial, e foi impressa com financiamento coletivo. A organização segue um critério diretamente ligado ao comportamento das aves: as plantas aparecem de acordo com as cores das flores e os períodos em que elas florescem. A divulgação do trabalho ocorreu em 13 de abril de 2025, data do Dia do Beijo, quando a imagem romântica associada a esses animais contrastou com a pressão que atinge seu ambiente.
Um bioma com 41 espécies registradas
As 41 espécies identificadas no Cerrado correspondem a parte das 89 espécies de beija-flores já encontradas no Brasil. A distribuição não é uniforme. Algumas aves aparecem com maior frequência e ocupam diferentes regiões do bioma, enquanto outras têm ocorrência localizada. Essa diferença torna importante observar não apenas a presença dos beija-flores, mas também a continuidade dos ambientes onde encontram alimento e abrigo. O trabalho de Kuhlmann começou justamente com esse objetivo: descobrir quais espécies vivem no Cerrado e quais flores atraem cada uma delas.
Os registros também ajudaram a ampliar a percepção sobre os sinais usados pelas aves para localizar recursos. Beija-flores têm visão de cores muito desenvolvida e conseguem enxergar até a faixa ultravioleta, formando um espectro visual mais amplo que o humano. Flores coloridas e chamativas podem atrair esses animais, mas a pesquisa encontrou também plantas pequenas e discretas visitadas por beija-flores. A aparência visível para as pessoas, portanto, não explica sozinha a relação entre ave e planta. A observação prolongada revelou uma rede de encontros que muda conforme a espécie vegetal floresce e conforme os recursos ficam disponíveis.
Quando a oferta de flores fica ameaçada
Para Kuhlmann, o desmatamento é a principal ameaça ao Cerrado, sobretudo quando a retirada da vegetação está ligada à expansão do agronegócio. O pesquisador afirma que o país perdeu mais da metade da vegetação nativa do bioma nos últimos 70 anos. Em suas viagens, ele relata longos trechos ocupados por monoculturas de soja e milho, com poucas permanências de vegetação nativa. A mudança reduz a diversidade de ambientes e coloca em risco a biodiversidade, incluindo as plantas que fornecem néctar aos beija-flores.
A preocupação não se limita à quantidade de flores existentes, mas também à distribuição delas ao longo do ano. Cada espécie vegetal tem um período próprio de floração, e a manutenção de uma população de polinizadores depende da existência de recursos em diferentes épocas. As mudanças climáticas podem alterar o calendário das plantas e, com isso, modificar o comportamento das aves. Kuhlmann defende o acompanhamento desses efeitos para entender como os beija-flores responderão a mudanças na oferta de alimento. Se as flores deixarem de aparecer em sequência, podem surgir intervalos sem recursos suficientes para manter a atividade dos polinizadores.
O ritmo diário das aves e a função das flores
Beija-flores são animais diurnos e permanecem ativos durante o dia, especialmente nos períodos mais frios. A quentura das horas mais intensas pode afetar a atividade das aves e também a disputa por recursos florais com outros animais, como as abelhas. Esse detalhe ajuda a explicar por que a observação das flores precisa considerar o horário em que cada visitante aparece. A planta não funciona apenas como cenário: sua floração oferece alimento em um determinado momento, e a disponibilidade desse recurso influencia as interações entre diferentes polinizadores.
O livro transforma dez anos de flagrantes e observações em um guia organizado pela combinação entre cor, floração e presença de beija-flores. A consequência mais ampla do trabalho é tornar visível uma dependência que costuma passar despercebida: a permanência das aves está ligada à continuidade da vegetação nativa e à existência de flores durante todo o ano. A pesquisa não apresenta as cores como simples ornamento, mas como parte de uma relação biológica que inclui visão, alimentação, competição e polinização. Em um Cerrado cada vez mais fragmentado, acompanhar quando e onde as flores surgem também é uma forma de acompanhar o futuro das aves que delas dependem.
Com informações da Agência Brasil.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














