
Bárbara Borum-Kren relaciona conhecimentos acumulados por gerações, restauração ambiental e revitalização cultural em territórios indígenas
Uma área degradada pode ser analisada não apenas pelo que perdeu, mas também pelo vínculo que os povos originários mantiveram com ela ao longo de gerações. Essa é a perspectiva defendida pela pesquisadora Bárbara Flores Borum-Kren, que propõe a reocupação indígena como parte das estratégias de recuperação ambiental e de revitalização cultural.
Atualmente em um pós-doutorado na Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, Bárbara investiga territórios dos povos Ute, Walatowa, Navajo, Lakota, Odibwe e Yurok em cinco estados norte-americanos. O trabalho busca aproximar conhecimentos indígenas e práticas de restauração ecológica, em uma pesquisa que também dialoga com o movimento land back, expressão usada para descrever a retomada de terras por seus povos originários. A divulgação do trabalho ocorreu em 9 de agosto de 2025.
Uma pesquisa entre territórios e memórias
A trajetória atual da pesquisadora foi viabilizada pelo Programa Beatriz Nascimento para Mulheres na Ciência, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq. Bárbara também foi contemplada por um edital de apoio a cientistas negros e indígenas do Instituto Serrapilheira. Nos Estados Unidos, ela procura conhecer experiências de povos que estão restaurando a memória biocultural ou que já passaram por esse processo.
A troca de conhecimentos é uma parte central do estudo. Em vez de tratar a restauração como uma intervenção separada da história local, a proposta considera os povos indígenas como participantes da definição do que deve ser recuperado, onde a ação deve ocorrer e quais espécies têm importância para o território. A pesquisadora afirma que a profecia se cumpre quando os povos atravessam fronteiras geográficas impostas para construir coletivamente o bem viver.
O que significa memória biocultural
O conceito de memória biocultural reúne as relações construídas entre comunidades, espécies, paisagens e práticas culturais ao longo de muitas gerações. Na interpretação apresentada por Bárbara, esse vínculo pode alcançar milhares de anos e estabelecer uma relação de parentesco com o território. Por isso, ela usa a imagem de uma floresta genealógica, em que os aspectos biológicos e culturais estão ligados.
Na prática, essa abordagem começa pelo levantamento das plantas culturalmente importantes para cada povo, incluindo os locais onde estavam distribuídas e a quantidade existente. O mesmo diagnóstico pode ser feito para os animais considerados relevantes. Com essas informações, a comunidade consegue identificar as áreas que precisam de intervenção e orientar ações de recuperação de acordo com a história e as necessidades daquele território.
Como surgem as cascatas socioecológicas
A pesquisadora também trabalha com o conceito de cascatas socioecológicas. A ideia descreve processos em cadeia nos quais uma ação produz efeitos ambientais e sociais relacionados. Quando espécies importantes são recuperadas e práticas culturais voltam a fazer parte da vida comunitária, a restauração pode alcançar simultaneamente a paisagem, os conhecimentos tradicionais e a identidade dos povos.
Essa proposta não significa apenas replantar espécies isoladas ou reconstruir uma cobertura vegetal sem considerar o uso histórico da área. O diagnóstico cultural ajuda a definir prioridades e a reconhecer quais plantas e animais têm funções específicas para a comunidade. A recuperação, nesse caso, é pensada como uma combinação de ações ecológicas e culturais, capaz de formar socioecossistemas resilientes e prósperos, segundo a pesquisadora.
Experiências dos Estados Unidos e conexão com o Brasil
Bárbara cita projetos realizados no Colorado e na Califórnia em parceria com povos indígenas para orientar restaurações ecológicas em áreas degradadas. Também menciona iniciativas de gestão pública de parques naturais e áreas verdes conduzidas em conjunto com os povos que vivem nesses territórios. Essas experiências são apresentadas como possíveis referências para o Brasil, sem transformar modelos de um país em solução automática para outro.
A aplicação da proposta depende do conhecimento específico de cada povo, de cada paisagem e de cada história de ocupação. Por isso, o levantamento das espécies culturalmente importantes e de sua distribuição é uma etapa necessária antes das intervenções. A própria lógica da pesquisa indica que a recuperação não deve ser separada da participação indígena, nem reduzida a uma técnica única. Quando a memória de um território volta a orientar suas decisões, restaurar a paisagem passa a significar também reconstruir relações interrompidas.
Com informações da Agência Brasil.
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