
A Amazônia vive dois movimentos de energia ao mesmo tempo. No mar, a mais de 2,8 quilômetros de profundidade, a Petrobras perfura poços na costa do Amapá e já encontrou petróleo. Em terra, milhares de famílias de comunidades isoladas ainda vivem sem energia elétrica ou dependem de geradores a diesel, e um programa federal tenta levar até elas painéis solares. Entenda o que está em jogo.
O petróleo na Foz do Amazonas
A Bacia da Foz do Amazonas é uma área de exploração no litoral do Amapá e do Pará, considerada uma nova fronteira do petróleo brasileiro. Depois de anos de disputa, o Ibama concedeu em outubro de 2025 a licença para a Petrobras perfurar um poço exploratório no bloco FZA-M-59.
No poço Morpho, nesse bloco, a empresa anunciou uma descoberta em agosto de 2026 e, em 2 de outubro, um novo intervalo com petróleo em camadas mais profundas, em lâmina d’água de 2.886 metros. Segundo a Petrobras, as análises do primeiro intervalo indicaram petróleo de boa qualidade.
Encontrar petróleo num poço exploratório, porém, não significa que haverá produção. Ainda é preciso medir o tamanho das reservas, a qualidade do óleo e a viabilidade técnica e econômica. Se houver produção, ela depende de novas licenças e leva anos para começar.
As preocupações
Ambientalistas e parte da comunidade científica alertam para o risco de vazamentos numa região de correntes fortes, perto do sistema de recifes descoberto na foz do Amazonas em 2016 e de manguezais extensos no litoral do Amapá e do Pará. Também lembram que abrir uma nova fronteira de petróleo vai na direção contrária à redução das emissões de gases de efeito estufa.
Os argumentos a favor
Defensores da exploração, incluindo governos da região, apostam em royalties, empregos e investimentos para estados com indicadores sociais baixos. A Petrobras afirma que segue os protocolos exigidos pelo licenciamento e que a pesquisa é necessária para conhecer o potencial da área.
A luz que ainda não chegou
Do outro lado está um problema antigo. Muitas comunidades ribeirinhas, indígenas e extrativistas da Amazônia ficam longe da rede elétrica. Algumas dependem de geradores a diesel, caros e poluentes, e outras simplesmente não têm energia.
Para atender essas famílias, o governo federal criou em 2020 o programa Mais Luz para a Amazônia, voltado a levar energia renovável, principalmente solar, às regiões remotas da Amazônia Legal. Na época, o Ministério de Minas e Energia estimou atender cerca de 82 mil famílias e mais de 350 mil pessoas, com custo acima de R$ 3 bilhões. Depois, a Agência Nacional de Energia Elétrica ampliou a meta para cerca de 219 mil famílias. Organizações de defesa do consumidor criticam o ritmo das instalações, abaixo da demanda.
O que muda com a energia solar
Com painéis e baterias, uma comunidade pode ter geladeira para conservar peixe e açaí, luz para estudar à noite, bomba de água, internet e equipamentos de saúde. Também reduz o gasto com diesel, que precisa ser levado de barco por dias. Iniciativas de organizações e cooperativas já mostram comunidades produzindo e vendendo mais depois da chegada da energia.
Não é uma escolha simples
Os dois caminhos não se excluem no papel, mas disputam prioridade, investimento e a imagem do Brasil como país que lidera o debate climático. A decisão sobre o petróleo na foz deve seguir nos próximos anos, enquanto a energia limpa nas comunidades depende de execução e dinheiro.
Perguntas frequentes
A Petrobras já produz petróleo na foz do Amazonas?
Não. Ela perfurou um poço exploratório e encontrou petróleo, mas a produção depende de novas avaliações e licenças.
O que é o Mais Luz para a Amazônia?
Um programa federal criado em 2020 para levar energia renovável, principalmente solar, a comunidades isoladas da Amazônia Legal.
Com informações da Petrobras, do Ministério de Minas e Energia e da Aneel.
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