Planeta caminha para 2,8 °C, diz a ONU às vésperas da COP31: para voltar a 1,5 °C, emissões têm de cair 45% até 2035

Planeta caminha para 2,8 °C, diz a ONU às vésperas da COP31: para voltar a 1,5 °C, emissões têm de cair 45% até 2035
Foto: Samuel Faber/Pixabay. Usina solar em área rural; imagem usada pelo Pnuma na divulgação do relatório.

Às vésperas da COP31, a ONU fez as contas e o resultado não é bom. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2026, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado em 21 de outubro com o título “O ponto de retorno”, calcula que as políticas climáticas em vigor levam o planeta a um aquecimento de 2,8 °C neste século. Se todos os países cumprirem suas metas, as chamadas NDCs, o aquecimento ficaria em 2,6 °C; no cenário mais otimista, com as metas de neutralidade de carbono, em 2,1 °C. Para voltar a 1,5 °C até o fim do século, as emissões teriam de cair 18% até 2030 e 45% até 2035, em relação a 2025.

Os três cenários

Cenário Aquecimento neste século
Políticas atuais 2,8 °C
Metas dos países (NDCs) cumpridas 2,6 °C
Metas e compromissos de neutralidade de carbono 2,1 °C

Segundo o Pnuma, as projeções pioraram em relação ao relatório do ano passado por causa da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e da revisão das estimativas de emissões históricas. As novas metas apresentadas pelos países fizeram uma diferença “desprezível”.

O caminho de volta a 1,5 °C

O relatório desenha um cenário em que o aquecimento passa de 1,5 °C, chega a 1,7 °C ou 1,8 °C por volta de meados do século e volta a 1,5 °C ou menos até 2100, com cerca de 50% de chance. Para isso, as emissões teriam de cair:

  • 18% até 2030;
  • 45% até 2035;
  • 69% até 2040, sempre em relação a 2025.

Isso equivale a cortar 5,7% por ano entre 2025 e 2035. Se cumpridas integralmente, as metas atuais dos países cortariam só de 5% a 8% até 2030 e de 11% a 15% até 2035. O relatório também calcula que cada cinco anos de emissões de CO2 no nível atual acrescentam cerca de 0,1 °C ao pico de aquecimento, e que seria preciso remover cerca de 320 bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera neste século.

“Cada fração adicional de grau e cada ano a mais de aquecimento acima de 1,5 °C aumentam os impactos e os riscos do clima, como as enchentes, ondas de calor e incêndios mortais que atingiram tantas nações neste ano”, afirmou Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma. “Por isso, temos de fazer todo o possível para minimizar o pico de aquecimento e voltar a 1,5 °C até o fim do século. Isso é possível.”

A boa notícia: energia limpa avança mais rápido

Segundo o relatório, a capacidade de energia renovável cresceu três vezes mais rápido do que o previsto, e a solar, sete vezes. Para o caminho de 1,5 °C, a participação dos combustíveis fósseis no suprimento de energia teria de cair até 2035, em relação a 2025, 55% no carvão, 15% no petróleo e 5% no gás. A geração de eletricidade a carvão teria de cair 75% até 2035 e acabar até 2040, e as emissões de metano, cair 25% até 2035.

E a Amazônia?

Florestas tropicais em pé são parte da conta: elas retiram carbono da atmosfera, e o desmatamento faz o contrário. O Brasil chega à COP31 com o menor desmatamento da história na Amazônia, 3.335 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, segundo o Inpe, e com o fundo de florestas TFFF, que soma US$ 7,8 bilhões em promessas. Mas o relatório deixa claro que nenhuma meta de 1,5 °C se sustenta sem cortes profundos na queima de combustíveis fósseis em todo o mundo.

“Ultrapassar não é se render”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. “Ainda podemos manter essa ultrapassagem a menor e mais curta possível e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 grau até o fim do século.”

Entenda

  • O que é: o Relatório sobre a Lacuna de Emissões, publicado todo ano pelo Pnuma antes da COP.
  • Rumo atual: 2,8 °C com as políticas em vigor.
  • Para voltar a 1,5 °C: cortar 18% até 2030 e 45% até 2035.
  • Metas atuais: entregam só de 11% a 15% de corte até 2035.

Com informações do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da ONU.

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