O Tesouro no Lixo: O Bilionário Desperdício Brasileiro
O solo brasileiro esconde uma riqueza que o país insiste em enterrar. Enquanto o mundo caminha a passos largos para a consolidação da economia circular, o Brasil patina em práticas arcaicas que custam caro ao bolso e ao meio ambiente. Anualmente, o descarte incorreto de materiais que deveriam estar retornando às fábricas drena 14 bilhões de reais da economia nacional. Esse montante não é apenas um número abstrato em planilhas de sustentabilidade, ele representa o valor de mercado de plásticos, papéis e metais que são jogados em lixões a céu aberto, em vez de serem convertidos em renda para famílias e matéria-prima para a indústria.

O cenário é de um contraste gritante. O país produz anualmente mais de 81 milhões de toneladas de resíduos, mas a taxa de reciclagem é de ínfimos 4 por cento. Enquanto nações com perfis econômicos similares conseguem reaproveitar cerca de 16 por cento do que produzem, o Brasil opta pelo desperdício sistêmico. Essa ineficiência gera uma crise de valorização que asfixia quem está na ponta do processo. O papelão, por exemplo, viu seu valor de mercado despencar de dois reais para sessenta centavos o quilo, obrigando empresas do setor a venderem patrimônio para não fechar as portas.
O Gargalo da Logística e a Sobrevivência do Retrocesso
A persistência dos lixões é o maior símbolo do atraso na gestão de resíduos. Apesar de o Novo Marco Legal do Saneamento ter estabelecido agosto de 2024 como o prazo final para o encerramento dessas áreas, cerca de 3.000 lixões ainda operam no território nacional. A maioria está localizada em municípios pequenos, com menos de 50 mil habitantes, onde a falta de saúde financeira das prefeituras impede o investimento em aterros sanitários ou unidades de triagem. A ausência de coleta seletiva em quase 1.500 cidades não apenas sobrecarrega o sistema de destinação final, mas acelera a extração predatória de recursos naturais que já se aproximam do esgotamento.
Para romper esse ciclo, a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente sugere uma solução logística imediata: a regra dos 100 quilômetros. A ideia é simples e eficaz. Como o Brasil já possui uma rede de aterros sanitários operacionais, bastaria transferir o descarte das cidades que estão em um raio de até 100 quilômetros dessas unidades. Resolver a questão passaria a ser menos um desafio de engenharia e mais uma questão de vontade política e organização regional. A formação de consórcios intermunicipais surge como a saída para que cidades pequenas ganhem escala, dividam custos e atraiam os investimentos necessários para transformar o lixo em ativo.

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Biometano: A Energia que Literalmente Evapora
Além das perdas em materiais sólidos, o Brasil desperdiça uma fonte de energia limpa e poderosa que emana dos detritos orgânicos. A decomposição do lixo em locais inadequados libera metano diretamente na atmosfera, um gás com potencial de aquecimento global muito superior ao gás carbônico. Se o país redirecionasse os resíduos de cidades com mais de 320 mil habitantes para aterros equipados com plantas de biometano, a produção diária poderia atingir 2,86 milhões de metros cúbicos normais. Esse volume é cinco vezes maior do que a capacidade autorizada atualmente no país e seria suficiente para abastecer uma cidade de quase meio milhão de pessoas.
A transformação desse passivo ambiental em biometano é uma peça chave para a segurança energética e para o cumprimento de metas climáticas. O setor trabalha com a expectativa de dobrar a mistura obrigatória desse combustível ao gás natural já em 2026. Ao capturar esse gás, o país deixa de poluir e passa a gerar uma alternativa financeiramente viável para a matriz de transportes e para a indústria. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos projeta que, em duas décadas, metade de todo o lixo gerado no Brasil seja valorizado através de processos como a biodigestão e a recuperação energética, integrando definitivamente o lixo à lógica da economia de baixo carbono.

O Resgate da Dignidade e o Compromisso Industrial
No centro dessa engrenagem estão os catadores, figura central que sofre as consequências diretas da desvalorização dos recicláveis. Projetos como a Estação Preço de Fábrica demonstram que é possível remunerar com dignidade, chegando a pagar até seis vezes mais que o mercado tradicional por materiais como o vidro. O setor vidreiro, inclusive, vive um paradoxo: falta caco de vidro para a reciclagem, obrigando indústrias a usar matéria-prima virgem, o que consome muito mais energia. Para corrigir essa distorção, novos decretos federais estabeleceram metas para que a reciclagem de vidro alcance 40 por cento até 2032.
O setor privado também começou a se movimentar com metas de logística reversa. O Grupo Boticário comprometeu-se a reduzir a intensidade de resíduos e reciclar quase metade de suas embalagens até 2030, enquanto a Coca-Cola planeja recolher a totalidade de suas embalagens no mesmo período. Somado a isso, mecanismos como a Lei de Incentivo à Reciclagem, que permite o aporte de parte do Imposto de Renda em projetos do setor, e o programa Recicla+, que gera créditos de reciclagem, oferecem o oxigênio financeiro necessário para que o Brasil pare de queimar dinheiro e passe a cultivar sustentabilidade.












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