Saberes da floresta: 10 povos indígenas que preservam a Amazônia

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Resposta direta: a Amazônia abriga mais de 170 povos indígenas, que atuam como guardiões da floresta e respondem pela proteção de grande parte da biodiversidade brasileira. Entre os dez povos destacados nesta reportagem — Yanomami, Kayapó, Tikuna, Ashaninka, Waiãpi, Huni Kuin, Baniwa, Kayapó Xikrin, Munduruku e Suruí — estão etnias que somam dezenas de milhares de pessoas e territórios que vão do Acre ao Amapá. Em novembro de 2025, durante a COP30 em Belém, o governo brasileiro homologou novas Terras Indígenas e anunciou o maior avanço em demarcações em quase 20 anos.

A Amazônia não é apenas uma floresta de árvores gigantes e rios caudalosos; é também o lar de uma enorme diversidade de povos indígenas, cada um com sua própria língua, cultura e tradições únicas. Esses grupos, que vivem em profunda conexão com o ambiente, atuam como guardiões da floresta. Eles utilizam os recursos de forma sustentável, transmitindo saberes ancestrais de geração em geração. A sua existência e resistência são fundamentais para a preservação da biodiversidade e para a manutenção de um patrimônio cultural que enriquece a identidade do Brasil e do mundo. Conheça dez comunidades indígenas que representam a riqueza e a resiliência da Amazônia.

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Yanomami

Os Yanomami vivem em uma das áreas mais remotas da floresta, entre o Brasil e a Venezuela. Sua cultura é rica em rituais de cura, onde os xamãs utilizam plantas medicinais para restabelecer o equilíbrio e a saúde. A organização social é baseada em grandes moradias coletivas, as malocas, que abrigam diversas famílias e reforçam o senso de comunidade. A subsistência Yanomami depende da caça, pesca e de uma agricultura itinerante que respeita os ciclos da floresta.

Kayapó

Localizados principalmente no Pará e Mato Grosso, os Kayapó são famosos por sua histórica e contundente luta pela preservação da Amazônia. Eles dominam técnicas de manejo florestal que mantêm a floresta em pé e são mestres no artesanato de cerâmica, trançado e em pinturas corporais vibrantes, que simbolizam a hierarquia social e a relação com a natureza. Suas danças, músicas e rituais são formas de resistência e de transmissão de histórias e ensinamentos ancestrais.

Tikuna

Os Tikuna, que habitam regiões próximas ao alto Rio Solimões, são a etnia mais numerosa da Amazônia brasileira. Eles se destacam pelo uso sofisticado da cerâmica, com máscaras e figuras rituais, e por sua língua própria, uma das mais faladas na região. Realizam festas tradicionais, como a festa da moça nova, ou Kuarup, que, embora seja uma celebração de passagem, também homenageia os mortos e fortalece a coesão social e cultural da comunidade.

Ashaninka

Presentes principalmente no Acre e na fronteira com o Peru, os Ashaninka são um exemplo de resistência e de conexão com o meio ambiente. Eles são conhecidos por serem habilidosos em artesanato de palha e cerâmica, além de praticarem uma agricultura de roça itinerante, que evita o esgotamento do solo. Suas práticas culturais incluem rituais de iniciação e celebrações ligadas à natureza, que reafirmam seu compromisso com a floresta e seus recursos.

Waiãpi

Distribuídos no Amapá e na Guiana Francesa, os Waiãpi são um povo que valoriza as pinturas corporais e faciais feitas com o urucum. Eles vivem em pequenas aldeias e mantêm uma relação próxima com rios e florestas, utilizando as plantas para alimentação, remédios e rituais sagrados. Sua cultura é marcada por uma rica mitologia e por um profundo conhecimento sobre a fauna e a flora local.

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Huni Kuin (Kaxinawá)

Localizados no Acre e Amazonas, os Huni Kuin são conhecidos por suas artes plásticas, como os grafismos do kenê, e por um vasto conhecimento de plantas medicinais e rituais xamânicos. Suas cerimônias envolvem cantos, danças e o uso de substâncias naturais que fortalecem a ligação espiritual com a floresta. Eles são um dos povos que mais cresce na região, e sua cultura é um símbolo de resistência e vitalidade.

Baniwa

Os Baniwa vivem nas margens de rios como o Negro e o Içana e são exímios pescadores e artesãos. Eles produzem cestos e utensílios a partir de fibras naturais, utilizando técnicas de trançado complexas e únicas. Também mantêm uma rica tradição de narrativas orais, com mitos de criação e histórias que celebram a vida comunitária e a conexão com o rio, o seu principal provedor.

Kayapó Xikrin

Um subgrupo dos Kayapó, os Xikrin preservam rituais de iniciação masculina e feminina, artesanato de contas e cerâmica, e técnicas de manejo de roça e caça. Sua luta pela preservação de territórios é uma referência no combate ao desmatamento e na defesa dos direitos indígenas. Sua coragem e determinação são um exemplo para todo o movimento de conservação.

Munduruku

Habitantes da bacia do Rio Tapajós, os Munduruku são conhecidos por sua resistência cultural diante de invasões de garimpeiros e madeireiros. Eles detêm um vasto conhecimento sobre o rio e a floresta, o que lhes permite viver em harmonia com o ambiente. Realizam festas de iniciação e usam pinturas corporais, cantos e danças para marcar momentos importantes da comunidade e reafirmar sua identidade.

Suruí

Localizados no Acre, os Suruí valorizam o reflorestamento e o manejo sustentável da floresta. Eles desenvolveram projetos de educação ambiental e preservação de tradições, servindo de exemplo de integração entre cultura e conservação. A sua luta contra o desmatamento e o uso de tecnologias para monitorar a floresta mostram como a tradição pode se aliar à modernidade para proteger o futuro.

 

Atualização 2026: COP30 e a retomada das demarcações

A agenda dos povos indígenas da Amazônia mudou de patamar político em novembro de 2025, quando Belém sediou a COP30, primeira Conferência do Clima da ONU realizada dentro da floresta. Durante o Dia dos Povos Indígenas da conferência, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, assinou portarias declaratórias de dez Terras Indígenas, somando pouco mais de 285 mil hectares, ocupadas por povos como Mura, Munduruku, Pataxó, Tupinambá de Olivença, Guarani-Kaiowá, Guarani-Mbya e Pankará. Na mesma ocasião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva homologou mais quatro Terras Indígenas, chegando a 20 territórios homologados desde 2023, totalizando cerca de 2,5 milhões de hectares.

No balanço anunciado pela ministra Sônia Guajajara, o conjunto de medidas representa o maior avanço nas demarcações em quase duas décadas, com 38 Terras Indígenas em diferentes fases do processo, cerca de 7 milhões de hectares e mais de 40 povos beneficiados em todas as regiões do Brasil. Para os Munduruku, que vivem na bacia do Tapajós e enfrentam pressão de garimpeiros ilegais, e para os Yanomami, em Roraima, a retomada das homologações é apontada como instrumento central para conter invasões e reduzir o risco sanitário que devastou a saúde indígena nos últimos anos.

A participação indígena na COP30 também bateu recorde: cerca de 2,5 mil representantes estiveram em Belém, o maior número já registrado em uma Conferência do Clima da ONU. Ainda assim, apenas 14% — cerca de 360 pessoas — obtiveram credenciamento para a Zona Azul, onde ocorrem as negociações oficiais, o que manteve a pauta da ampliação do acesso indígena às decisões climáticas no centro do debate.

Os desafios para 2026 persistem: na Amazônia Legal, 57 Terras Indígenas ainda aguardam demarcação, e quase metade dos processos depende de declaração do Ministério da Justiça. Segundo levantamento de abril de 2026, quatro meses após a COP30 apenas cinco avançaram para a fase de delimitação e seis seguem paradas. A conexão entre demarcação, proteção florestal e financiamento climático — via Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) — tornou-se a nova espinha dorsal da pauta indígena amazônica.

Perguntas frequentes

Quantos povos indígenas vivem na Amazônia brasileira?

A Amazônia brasileira abriga mais de 170 povos indígenas, segundo levantamentos da Funai e do Instituto Socioambiental, incluindo grupos em isolamento voluntário. Os Tikuna, no alto Solimões, são a etnia mais numerosa da região.

Quantas Terras Indígenas foram demarcadas durante a COP30?

Durante a COP30 de Belém, em novembro de 2025, o Ministério da Justiça declarou dez Terras Indígenas e o presidente Lula homologou outras quatro, consolidando 20 homologações desde 2023 e cerca de 2,5 milhões de hectares protegidos.

Por que a demarcação de terras é considerada “justiça climática”?

Porque territórios indígenas demarcados apresentam as menores taxas de desmatamento da Amazônia e funcionam como barreira contra grilagem, garimpo ilegal e avanço do agronegócio sobre a floresta. Por isso a frase “demarcar é fazer justiça climática”, defendida pela ministra Sônia Guajajara na COP30, ganhou força como síntese da pauta indígena.

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