
Em Mamirauá, quem decide quantos jacarés-açu podem ser retirados do rio é uma conta, e não uma vontade: a cota anual nunca passa de 15% dos animais contados naquele ano, e onde há ninho não se captura nenhum. Segundo o Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, essa regra sustenta o manejo do maior jacaré das Américas (Melanosuchus niger) desde 2000. O plano, porém, só vale se o Ibama o autorizar.
É essa cadeia de decisões, da contagem à autorização, que separa o manejo da caça escondida que quase extinguiu a espécie no século passado.
A contagem que vem antes do abate
Todo ano, as equipes do instituto monitoram os ninhos e contam os jacarés nas áreas de manejo. As visitas aos ninhos acontecem na seca e ajudam a estimar quantas fêmeas estão se reproduzindo. Em 2020, o instituto informou que ribeirinhos foram treinados para participar da contagem.
Com os números em mãos, o instituto e a associação dos manejadores montam o plano de manejo: a cota proposta para o ano e os dados da estrutura onde o abate vai ocorrer. Quem avalia o documento é o Ibama. Em julho de 2024, o superintendente do órgão no Amazonas, Joel Araújo, afirmou que a autorização é proporcional à contagem de indivíduos na natureza.
Três formas de manejar um jacaré
O Instituto Mamirauá descreve três modelos. No intensivo, o animal é criado em cativeiro. No semi-intensivo, ovos ou filhotes são coletados na natureza e criados em cativeiro. No extensivo, o jacaré é retirado direto do rio.
É o extensivo que funciona em Mamirauá, e ele só pode ser praticado por comunidades tradicionais de reservas de desenvolvimento sustentável, reservas extrativistas e florestas nacionais.
Quando o jacaré só virava carne seca
Entre as décadas de 1950 e 1970, o mercado ilegal de couro colocou o jacaré-açu sob risco de extinção na região do Médio Solimões, no Amazonas, de acordo com o instituto. A caça foi proibida em 1967, e a criação de unidades de conservação ajudou a população a se recuperar.
A proibição não encerrou a caça de carne. Pesquisadores do Centro de Estudos Superiores de Tefé, da Universidade do Estado do Amazonas, acompanharam duas comunidades do rio Copeá, em Maraã, em novembro de 2014. Em 12 caçadas, os moradores capturaram 35 jacarés-açu e 6 jacarés-tinga. A carne era vendida salgada e seca, a R$ 2,50 o quilo, para o mercado do Pará.
Os caçadores contaram aos autores que caçam porque, depois da safra do pirarucu, essa é a única renda que resta. O manejo tenta preencher esse vazio com uma atividade regulada, que só dá certo se o jacaré continuar vivo e abundante.
O abatedouro que flutua
Para a carne ser vendida, o animal precisa ser abatido em estabelecimento licenciado. Em Mamirauá, essa função é da Planta de Abate Remoto, a Plantar, uma estrutura flutuante de metal com 112 metros quadrados, na comunidade São Raimundo do Jarauá, em Uarini.
No abate experimental de 4 a 6 de março de 2020, cada jacaré foi medido, pesado e sexado. Um veterinário da Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Amazonas examinou o animal ainda vivo. Seguiram-se a lavagem, a insensibilização com pistola pneumática, a sangria, a retirada do couro e a evisceração. A carne foi embalada e levada até Tefé em barco frigorífico.
O que o dinheiro mostra
Em 7 de março de 2020, a primeira Feira do Jacaré Manejado, em Tefé, vendeu a carne de 28 animais, quase 600 quilos, a preços de R$ 6 a R$ 15 o quilo, conforme o corte. O pescador Jorge Souza Carvalho, morador do Jarauá, disse na ocasião: “O manejo do jacaré é uma grande alegria porque a gente vai ter mais uma renda.”
Em 21 de novembro de 2025, o Governo do Amazonas entregou a dispensa de licenciamento ambiental da estrutura flutuante. No setor Jarauá, a cota máxima é de 500 jacarés por ano, com potencial de R$ 230 mil a R$ 240 mil anuais para cerca de 40 famílias, segundo o governo. O instituto assessora ainda o setor Aranapu, e seis comunidades participam do trabalho.
Em Rondônia, na Reserva Extrativista Lago do Cuniã, o manejo abateu 730 jacarés entre 11 de outubro e 28 de novembro de 2016, com 3.227 quilos de carne e receita bruta de R$ 175.192, números de relatório do ICMBio citados em estudo apresentado no EcoInovar. Só machos de 1,60 metro a 2,80 metros podem ser abatidos, e o abate começa depois de agosto, para não coincidir com a reprodução.
Em novembro de 2025, a CoopCuniã vendia o couro inteiro a R$ 1.600 e fazia linguiça e kibe com a carne. Em agosto de 2026, o Sebrae em Rondônia informou que o frigorífico da cooperativa recebeu Licença de Operação do Ibama e que trabalha na estruturação de uma Indicação Geográfica para a carne.
Os limites do modelo
O Instituto Mamirauá trata o manejo como uma alternativa que “pode se tornar” viável, e não como renda garantida. Abates experimentais autorizados pelo Ibama ocorreram em 2004, 2006, 2008 e 2010. Só em 2020 houve um abate com plano de manejo e abatedouro licenciado, e o instituto relata que entraves burocráticos atrasaram o projeto por anos.
A renda também é sazonal. O estudo sobre o Cuniã, com dados de junho a setembro de 2020, concluiu que o manejo sozinho não sustenta as famílias, porque a atividade dura cerca de três meses e elas continuam na pesca, no pirarucu e na agricultura.
O coordenador do Programa de Manejo da Fauna do instituto, Diogo de Lima Franco, afirmou que “pequenas falhas ou dificuldades de interpretação de normas, leis ou dados coletados podem gerar gargalos sérios no desenvolvimento da atividade”. Ele diz esperar que o manejo reduza também a oferta e a demanda do produto ilegal.
Entenda
Manejo extensivo é a retirada de animais da natureza dentro de uma cota calculada a partir da contagem anual, em época e tamanho definidos. Cota é o número máximo de animais que o plano permite abater. O Ibama precisa autorizar o plano antes de qualquer captura.
O que vem a seguir
Em 25 de novembro de 2025, o Instituto Mamirauá informou que o novo plano de manejo aguardava a autorização final do Ibama, com início das atividades previsto para 2026. Se for aprovado, o Jarauá terá um novo ciclo de manejo. No Cuniã, o Sebrae trabalha pelo reconhecimento da origem da carne.
Com informações de Instituto Mamirauá, ICMBio, Sebrae em Rondônia, Governo do Amazonas e Universidade do Estado do Amazonas.
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