Estações de reciclagem em Belém batem recordes de coleta na COP30


Ouro no Lixo: A Revolução Digital que Tenta Salvar a Reciclagem Brasileira

O Brasil vive um paradoxo ambiental que desafia tanto a lógica econômica quanto a gestão pública. Enquanto a tecnologia avança a passos largos em direção à rastreabilidade total de insumos, o país ainda mantém cerca de três mil lixões ativos, verdadeiras feridas abertas que engolem R$ 14 bilhões anuais em materiais que deveriam retornar ao ciclo produtivo. No entanto, em meio ao cenário de estagnação onde apenas 4% do lixo é efetivamente reciclado, surge uma nova dinâmica impulsionada pela convergência entre legislação moderna e inovação tecnológica. Iniciativas como o projeto Estações Preço de Fábrica, fruto de uma parceria estratégica entre o Grupo Boticário e a startup Green Mining, estão reescrevendo a lógica da logística reversa. Ao eliminar os atravessadores e utilizar o sistema de pagamentos instantâneos para remunerar diretamente quem está na ponta da coleta, o programa não apenas recolhe resíduos, mas reconstrói a dignidade de uma categoria historicamente invisibilizada.

Foto: Green Mining

A espinha dorsal dessa transformação é a Lei de Incentivo à Reciclagem (LIR), um marco regulatório que permite a empresas tributadas pelo lucro real destinarem uma fatia do Imposto de Renda para projetos que fortalecem a economia circular. Trata-se de uma tentativa de injetar oxigênio financeiro em um setor sufocado pela queda de preços das commodities recicladas. Durante a pandemia, o quilo do papelão chegou a ser negociado por valores atraentes, mas hoje despencou para patamares que mal cobrem o custo do transporte. Esse cenário de desvalorização econômica é o maior inimigo do catador autônomo. Quando o mercado tradicional oferece centavos pelo vidro — um material de manuseio perigoso e logística pesada —, o descarte irregular torna-se quase inevitável. É aqui que o modelo de preço de usina faz a diferença, chegando a pagar valores seis vezes superiores aos praticados pelo mercado comum, garantindo que o vidro deixe de ser um passivo ambiental para se tornar uma fonte de renda viável.

 Foto: Green Mining
Foto: Green Mining

A Tecnologia como Ferramenta de Dignidade e Transparência

O funcionamento das estações de coleta é um exemplo de como a desburocratização pode acelerar processos ambientais. O processo começa no smartphone do cidadão ou do catador, que utiliza o aplicativo da startup para gerenciar suas entregas. O diferencial não está apenas no ato de receber o material, mas na forma como o valor é transferido. Através do sistema de pagamentos Pix, os participantes recebem o saldo acumulado diretamente em suas contas bancárias, sem as perdas financeiras impostas por intermediários. Essa rastreabilidade, monitorada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, assegura que cada tonelada de plástico, papel ou vidro tenha um destino certificado. Em cidades como Belém, onde a coleta seletiva ainda engatinha, o impacto foi imediato: a meta de arrecadação de um mês foi batida em apenas quarenta e oito horas, evidenciando que existe uma demanda reprimida da sociedade por pontos de descarte que realmente funcionem.

Além do aspecto financeiro, há uma mudança profunda na percepção social do trabalho de reciclagem. As unidades, operadas por empresas como a Electrolux em algumas frentes de eletrodomésticos, transformam o ponto de entrega em um local de atendimento profissionalizado. A utilização de dados precisos via sistema SINIR+ permite que o governo e as empresas entendam onde estão os gargalos da logística reversa. O uso de tecnologia de geocodificação e blockchain para garantir a origem do resíduo cria um selo de confiança que atrai mais investimentos. O projeto, que nasceu em São Paulo, já se ramificou por estados como Bahia, Minas Gerais e Tocantins, provando que o modelo de preço de fábrica é escalável e capaz de adaptar sua tipologia de resíduos conforme a necessidade regional, aceitando desde garrafas de perfume até grandes eletrodomésticos que antes seriam abandonados em rios e terrenos baldios.

Estação de reciclagem - Foto: Green Mining
Foto: Green Mining

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O Custo da Inércia e a Disputa pelos Tributos

Apesar do otimismo trazido por esses projetos, o Brasil ainda caminha sobre ovos quando o assunto é a viabilidade econômica da reciclagem em larga escala. A indústria do material reciclado enfrenta uma concorrência desleal com a matéria-prima virgem. Em muitos casos, é mais barato extrair areia para produzir vidro novo do que processar o caco recolhido, devido aos altos custos de energia e logística. Somado a isso, o setor convive com uma insegurança tributária constante. A discussão sobre a incidência de PIS e Cofins sobre a venda de materiais reciclados é um fantasma que assombra as cooperativas e empresas do setor. Enquanto países europeus oferecem subsídios e isenções pesadas para quem utiliza insumos reciclados, o sistema brasileiro muitas vezes pune quem tenta reinserir o resíduo na cadeia produtiva, gerando uma bitributação que encarece o produto final e desencoraja o investimento privado.

Essa barreira fiscal é o que torna a Lei de Incentivo à Reciclagem tão vital. Ela funciona como uma ponte sobre o abismo financeiro, permitindo que o capital privado flua para onde o Estado não consegue chegar com eficiência. Sem esses incentivos, o Brasil dificilmente conseguirá cumprir as metas da Política Nacional de Resíduos Sólidos. O custo da inércia é alto: além da perda financeira direta com o enterro de materiais valiosos, há um gasto bilionário com saúde pública e remediação ambiental decorrente dos lixões ativos. A transição para uma economia circular exige que o resíduo deixe de ser visto como uma sujeira indesejada para ser tratado como um ativo estratégico. Programas que garantem o pagamento direto são a prova de que o mercado só se move quando a conta fecha para todos, especialmente para quem carrega o fardo da coleta nas costas.

Educação e o Futuro do Consumo Consciente

O sucesso de qualquer política de resíduos sólidos depende, em última instância, do elo mais volátil da corrente: o consumidor. A falta de engajamento da população na separação primária do lixo doméstico ainda é um dos maiores obstáculos para o aumento dos índices de reciclagem. Materiais que chegam às unidades de triagem contaminados por resíduos orgânicos perdem seu valor de mercado ou tornam-se impossíveis de processar. O esforço educativo precisa ser tão robusto quanto o investimento em infraestrutura. Projetos como as estações preço de fábrica cumprem um papel pedagógico ao oferecer um incentivo tangível. Quando o cidadão percebe que o vidro separado por cor gera dinheiro na conta via Pix, a percepção sobre o lixo muda instantaneamente. O descarte deixa de ser um ato de livrar-se de algo e passa a ser uma transação comercial com propósito ambiental.

O desafio para os próximos anos, especialmente com o olhar do mundo voltado para o Brasil em eventos como a COP30, é a integração dessas ilhas de eficiência em um sistema nacional coeso. A desigualdade regional na gestão de resíduos é gritante; enquanto o Sudeste avança em aterros sanitários, o Norte e Nordeste ainda lutam com deficiências básicas de coleta. A universalização da logística reversa, amparada pela digitalização e por leis de incentivo, é o único caminho para que o Brasil deixe de ser o país dos lixões para se tornar uma referência em economia circular. O futuro da reciclagem brasileira não será escrito apenas com boas intenções, mas com códigos de barras, chaves Pix e uma rede de proteção social que garanta que nenhum catador seja deixado para trás na corrida pela sustentabilidade.