
O coral é um animal que fabrica pedra e vive em sociedade com algas. Nas Maldivas, pesquisadores da Universidade de Washington vão filmar como os peixes desse bairro submarino avisam uns aos outros sobre o perigo, e se a saúde do recife muda a conversa.
Fotos: Paul Asman e Jill Lenoble, Diego Delso, Matt Kieffer e Matt McIntosh/NOAA
Os recifes de coral ocupam menos de 1% do oceano, mas abrigam quase um quarto de todas as espécies marinhas, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Caranguejos, moreias, polvos, lagostas, esponjas, cavalos-marinhos, tartarugas e uma infinidade de peixes dividem esse espaço apertado, o que rendeu aos recifes o apelido de florestas tropicais do mar.
Como em toda cidade movimentada, há perigo na esquina e é preciso saber quando correr. É isso que Jj Milan, doutorando do Departamento de Biologia da Universidade de Washington (UW), nos Estados Unidos, quer entender. Neste segundo semestre, ele e o pesquisador Bob Oxborrow, também da UW, seguem para o Centro de Pesquisa Marinha e Ensino Superior (MaRHE Center), na ilha de Magoodhoo, nas Maldivas, para filmar a rotina de um peixinho listrado de preto e branco, a donzela-de-três-listras (Dascyllus aruanus), espécie que vive em cardumes e é comum nos recifes do arquipélago.

Quem olha um coral vê uma planta ou uma pedra. Ele não é nenhuma das duas coisas. O coral é um animal, parente das águas-vivas. A NOAA resume com uma imagem: pense numa pequena água-viva colada dentro de uma caverninha de pedra.
Essa água-viva é o pólipo, um corpo mole com uma boca rodeada de tentáculos. A caverna é obra dele. O pólipo retira da água os ingredientes para fabricar um esqueleto de carbonato de cálcio, do mesmo jeito que um marisco constrói a própria concha. Muitos pólipos iguais formam uma colônia, e muitas colônias, somadas ao longo do tempo, erguem o recife.

É uma obra lenta. Uma colônia cresce de 0,2 a 3 milímetros por ano, e recifes maduros podem ter milhares de anos. Os corais existem na Terra há pelo menos 400 milhões de anos.
Uma sociedade com algas
O segredo do coral mora dentro dele. No tecido de cada pólipo vivem algas microscópicas de uma única célula, as zooxantelas. Como as plantas, elas têm clorofila e transformam a luz do sol em açúcar. Esse alimento e o oxigênio produzido pela fotossíntese vão para o pólipo, que em troca oferece à alga uma casa protegida.
Essa parceria explica onde os recifes rasos aparecem. Eles precisam de água limpa, quente e bem iluminada, típica dos mares tropicais e subtropicais. Sem luz, a alga não trabalha; sem a alga, o coral passa fome.

Alarme verdadeiro ou falso
Num recife, o perigo pode vir de qualquer lado, mas nem toda sombra é um predador. Fugir a cada susto gasta energia; demorar a reagir pode custar a vida. “Estudo como os peixes em cardumes conseguem comunicar com precisão a diferença entre uma ameaça real e um alarme falso inofensivo”, explicou Milan. “E, depois que a ameaça passa, quero entender como eles coordenam a volta ao comportamento normal.”
Para isso, a dupla vai mergulhar e instalar câmeras GoPro e tablets em volta de cabeças de coral escolhidas. As câmeras são sincronizadas, e um sistema de rastreamento automático acompanha cada peixe nas imagens. Os mergulhos serão rasos, porque as filmagens dependem de luz natural suficiente. Os parceiros locais do MaRHE Center já confirmaram que o recife em volta da estação é raso e cheio de vida. Milan também pretende ouvir moradores da ilha sobre o comportamento habitual dos peixes e a atividade dos predadores na região.

“Espero conseguir reconstruir como a resposta a uma ameaça percorre o cardume em tempo real, do primeiro peixe que reage até o grupo voltar ao normal”, disse o pesquisador. Ele também vai reconstruir em três dimensões a estrutura do coral, para saber se um coral mais complexo, cheio de galhos e frestas, muda a rapidez e a coordenação dessa resposta.
A pergunta tem pano de fundo. Os recifes estão ameaçados pelo aquecimento do mar e pela acidificação dos oceanos, e os cientistas querem saber como a saúde do recife afeta a comunicação entre os peixes que dependem dele. Se a arquitetura do coral influencia o alarme, a perda dessa arquitetura pode mexer também na forma como os moradores se protegem. É o que o estudo quer medir.
Para Milan, a viagem tem sabor especial. Ele mergulha desde 2019, e esta será sua primeira vez em águas quentes. “Gosto de como este trabalho junta o meu amor pela vida marinha, o meu hobby de mergulhar e a minha paixão pela pesquisa, tudo em um só”, contou.
Muito mais que cartão-postal
A NOAA lista os serviços que os recifes prestam de graça. Eles sustentam a pesca de espécies como garoupas, pargos e lagostas, que encontram ali comida e abrigo. Atraem milhões de turistas por ano. Funcionam como quebra-mar natural, amortecendo ondas e tempestades antes que cheguem à costa, o que reduz inundações e erosão. E guardam uma farmácia ainda pouco explorada: dos ecossistemas de coral já saíram novos medicamentos, como remédios contra o câncer desenvolvidos a partir de algas marinhas e analgésicos obtidos do muco de caramujos do gênero Conus.
A parceria com as algas é também o ponto fraco do coral. Quando a água esquenta demais, o pólipo expulsa as zooxantelas do seu tecido. Sem elas, o coral fica pálido ou totalmente branco, porque o esqueleto de calcário passa a aparecer, e perde sua principal fonte de alimento. É o branqueamento, e o aumento da temperatura do oceano provocado pelas mudanças climáticas é hoje a principal causa do fenômeno, segundo a NOAA.

Branqueado, porém, não quer dizer morto. Se o estresse não for severo, o coral pode se recuperar e voltar a abrigar as algas. Se a falta delas se prolonga, ele morre.

O calor não é a única ameaça. O gás carbônico absorvido pelo mar deixa a água mais ácida, o que dissolve estruturas de calcário e atrasa a reconstrução dos corais. Esgoto, sedimentos e nutrientes que descem da terra sufocam os pólipos. Espécies invasoras, âncoras, encalhes de navios, pesca excessiva, doenças, lixo e vazamentos de óleo completam a lista. No Caribe, as populações dos corais chifre-de-alce e chifre-de-veado caíram mais de 90% em 25 anos, de acordo com a agência americana. Há também quem plante coral. Nos Estados Unidos, equipes cultivam fragmentos em berçários submarinos, estruturas que lembram varais ou árvores, e depois os fixam de volta no recife. O programa Missão Recifes Icônicos, em Florida Keys, tem como meta elevar a cobertura de coral em sete áreas de 2% para uma média de 25%. A restauração inclui ainda o controle de espécies invasoras, a redução da poluição que escorre da terra e equipes de resposta rápida para encalhes de embarcações.

E a Amazônia com isso
O Brasil tem uma surpresa nessa história. Em 2016, uma equipe liderada por Rodrigo Moura e Fabiano Thompson, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), descreveu na revista científica Science Advances um sistema de recifes de cerca de 9.500 quilômetros quadrados na foz do rio Amazonas. Ele se estende por aproximadamente mil quilômetros, da fronteira da Guiana Francesa até o Maranhão, entre 25 e 120 metros de profundidade.
É um recife diferente dos cartões-postais. Fica sob a pluma de água barrenta que o rio lança no mar, com pouca luz e pouco oxigênio. Por isso, é dominado por esponjas, com 61 espécies registradas, e por bancos de rodolitos, nódulos formados por algas calcárias. Os pesquisadores contaram ainda 12 espécies de corais construtores e 73 espécies de peixes recifais.
Das Maldivas à costa amazônica, a lição é a mesma que Milan quer transformar em números. A saúde da casa define a vida de quem mora nela, e conhecer como funciona um recife é o primeiro passo para cuidar dele.
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