A ciência do relevo diante da pressão humana
O relevo brasileiro, muitas vezes percebido como pano de fundo imóvel da paisagem, está longe de ser estático. Pesquisas recentes em geomorfologia deixam claro que montes, encostas, planícies e vales respondem de forma direta e sensível às escolhas feitas pela sociedade. Um artigo publicado na Revista Brasileira de Geomorfologia reforça essa leitura ao analisar como a expansão urbana, a agricultura intensiva, o desmatamento e grandes obras de infraestrutura têm alterado profundamente a dinâmica natural do relevo em diferentes regiões do país.

Segundo o estudo, processos como erosão, transporte de sedimentos e estabilidade de encostas passam a operar em ritmos acelerados quando o uso do solo ignora as limitações ambientais. O resultado é um território mais vulnerável, onde fenômenos como assoreamento de rios, deslizamentos de terra e inundações deixam de ser exceção e passam a integrar o cotidiano de milhares de comunidades.
Os autores defendem que compreender o relevo como um sistema vivo e em permanente transformação é condição básica para enfrentar os desafios ambientais do Brasil contemporâneo, marcado tanto pela pressão econômica sobre a terra quanto pelos efeitos crescentes das mudanças climáticas.
Uso do solo e riscos que não são naturais
O artigo desmonta a ideia de que eventos extremos são apenas consequência de forças naturais incontroláveis. Ao contrário, demonstra que boa parte dos chamados “desastres naturais” tem origem em decisões humanas mal planejadas. A ocupação de encostas instáveis, a retirada da cobertura vegetal, o cultivo sem práticas conservacionistas e a impermeabilização do solo urbano criam um ambiente propício ao colapso geomorfológico.
A erosão acelerada, por exemplo, não apenas remove solos férteis, como compromete reservatórios hídricos e reduz a capacidade de infiltração da água da chuva. Já o assoreamento encurta a vida útil de rios e lagos, aumenta o risco de enchentes e afeta diretamente o abastecimento de água e a produção de energia.
Nesse contexto, a geomorfologia aplicada surge como uma ponte entre ciência e gestão pública. O conhecimento técnico sobre formas de relevo, tipos de solo e processos erosivos pode orientar políticas de zoneamento urbano, licenciamento ambiental e definição de áreas de preservação, reduzindo riscos e evitando prejuízos humanos e econômicos.

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Mapear a erosão para antecipar o problema
É nesse mesmo espírito de prevenção que o MapBiomas iniciou, em 2025, um mapeamento inédito de ravinas e voçorocas em todo o território nacional. Essas feições erosivas profundas representam uma das faces mais visíveis da degradação do solo e, em muitos casos, são o estágio avançado de processos que começaram de forma silenciosa anos antes.
O objetivo da iniciativa é identificar onde essas áreas estão, como se expandem ao longo do tempo e quais contextos ambientais e de uso do solo favorecem sua formação. Para isso, o MapBiomas está construindo uma base nacional de dados que reúne registros de qualquer época e localidade, desde simples pontos georreferenciados até mapas detalhados das áreas degradadas.
Os dados coletados serão organizados e disponibilizados no SoilData, um repositório público e colaborativo que concentra informações sobre solos brasileiros. Cada conjunto de dados receberá um identificador digital (DOI), garantindo rastreabilidade científica e estimulando o reuso por pesquisadores, gestores públicos e instituições de planejamento territorial.
Planejamento, políticas públicas e o custo da omissão
Tanto o artigo científico quanto a iniciativa do MapBiomas convergem em uma mensagem central: prevenir é mais eficiente — e mais barato — do que remediar. Investir em estudos geomorfológicos, mapeamentos detalhados e bases de dados abertas permite antecipar problemas antes que eles se convertam em tragédias.
Os pesquisadores defendem que políticas públicas eficazes precisam incorporar de forma sistemática o conhecimento científico sobre o relevo. Isso significa integrar universidades, órgãos ambientais e gestores públicos em processos decisórios baseados em evidências. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, ignorar a dinâmica do território equivale a aceitar riscos desnecessários.
Ao evidenciar a conexão entre geomorfologia, uso do solo e planejamento, o debate ganha ainda mais relevância em um cenário de mudanças climáticas, no qual eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos. Conhecer o relevo, mapear a erosão e planejar o uso da terra não são apenas ações técnicas, mas escolhas estratégicas para proteger vidas, garantir desenvolvimento sustentável e reduzir desigualdades socioambientais.












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