
Litoral fluminense (RJ) diante de um novo regime climático
A costa do estado do Rio de Janeiro está entrando em uma fase decisiva de sua história ambiental. Um estudo desenvolvido na Universidade Federal Fluminense (UFF) revela que cerca de 60% do litoral fluminense apresenta níveis médios a elevados de vulnerabilidade às mudanças climáticas. O dado não é apenas estatístico: ele traduz riscos concretos de inundações, erosão costeira, perda de ecossistemas e impactos diretos sobre populações que vivem e trabalham à beira-mar.
Com aproximadamente 1.160 quilômetros de extensão, a zona costeira do Rio de Janeiro abriga 33 municípios e concentra cerca de 83% da população do estado. É nessa faixa estreita entre o continente e o oceano que se encontram importantes polos turísticos, áreas urbanas densamente ocupadas, portos, indústrias, comunidades tradicionais e ecossistemas estratégicos. O avanço das mudanças climáticas transforma essa região em uma linha de frente onde os efeitos do aquecimento global já não pertencem ao futuro, mas ao presente.
Onde o risco é maior e por que ele cresce
A pesquisa, conduzida pelo doutorando Igor Rodrigues Henud no Programa de Pós-Graduação em Dinâmica dos Oceanos e da Terra da UFF, com orientação do professor Abílio Soares, identifica duas regiões como particularmente expostas: o Norte Fluminense e as Baixadas Litorâneas, conhecidas como Região dos Lagos. Nessas áreas, fatores naturais e humanos se sobrepõem de forma preocupante.
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Drones brasileiros revolucionam manejo comunitário de pirarucus com contagem aérea de alta precisão na AmazôniaVentos intensos, ondas mais energéticas e características do relevo costeiro se combinam à fragmentação de habitats naturais, como restingas e manguezais, que historicamente funcionavam como barreiras naturais contra a força do mar. A retirada dessas formações vegetais, muitas vezes para dar lugar a empreendimentos urbanos ou turísticos, reduziu drasticamente a capacidade de amortecimento da costa.
Eventos extremos, como ressacas cada vez mais frequentes, tempestades intensas e a elevação gradual do nível do mar, já vêm sendo observados no litoral fluminense. Episódios recentes, como ondas gigantes provocadas por ciclones extratropicais, deixam claro que o padrão climático mudou. O estudo aponta que, sem ações preventivas, esses fenômenos tendem a se intensificar, ampliando o risco de desastres de maior magnitude.

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A natureza como aliada na adaptação climática
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de soluções baseadas na natureza, conhecidas internacionalmente como NbS (Nature-based Solutions). Em vez de apostar exclusivamente em grandes obras de engenharia, a proposta é recuperar e fortalecer os próprios sistemas naturais que historicamente protegeram o litoral.
Dunas, restingas, manguezais e remanescentes de Mata Atlântica exercem papel fundamental na dissipação da energia das ondas, na retenção de sedimentos e na redução da erosão. Quando uma onda atinge uma área com vegetação preservada, ela perde força antes de alcançar áreas urbanizadas. Esse efeito, simples e poderoso, demonstra como a conservação ambiental também é uma estratégia de proteção civil.
Além da redução de riscos, as soluções baseadas na natureza oferecem benefícios adicionais. Elas contribuem para a melhoria da qualidade da água, ajudam a mitigar poluentes atmosféricos, favorecem a biodiversidade e aumentam a resiliência das comunidades frente a eventos extremos. Segundo Henud, essas soluções são ecologicamente sensíveis, economicamente viáveis e sustentáveis no longo prazo, diferentemente de muitas infraestruturas convencionais que exigem manutenção constante e podem gerar impactos ambientais colaterais.
Soluções cinzas, soluções verdes e escolhas de futuro
O estudo também diferencia as chamadas soluções cinzas das soluções verdes. As soluções cinzas envolvem estruturas como muros de concreto, enrocamentos de pedra, sacos de areia, blocos de cimento e recifes artificiais. Embora possam oferecer proteção pontual, essas intervenções tendem a alterar a dinâmica costeira e, em alguns casos, transferir o problema para áreas vizinhas.
Já as soluções verdes priorizam o reflorestamento, a recuperação de ecossistemas e o manejo adaptativo do território. Elas partem do princípio de que é impossível alterar a força das ondas ou a dinâmica natural do oceano, mas é possível decidir onde e como as populações humanas se instalam. Planejar o uso do solo, evitar ocupações em áreas de alto risco e restaurar habitats naturais são escolhas estratégicas que definem o grau de vulnerabilidade futura.
Para os pesquisadores, a supressão contínua de habitats costeiros amplia a exposição do estado do Rio de Janeiro a eventos extremos e compromete sua capacidade de resposta. Proteger áreas que hoje estão fora do escopo oficial de conservação, mas que desempenham papel ecológico relevante, é visto como um passo essencial para aumentar a resiliência climática.
O litoral fluminense, ao mesmo tempo em que sustenta grande parte da economia e da vida social do estado, revela-se um território frágil diante das mudanças climáticas. A pesquisa da Universidade Federal Fluminense lança um alerta claro: preservar a natureza não é apenas uma questão ambiental, mas uma estratégia de sobrevivência, planejamento urbano e justiça social. O futuro da costa do Rio de Janeiro dependerá das escolhas feitas agora — entre o concreto e a vegetação, entre o curto prazo e a adaptação duradoura.
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