
Por séculos, o rio Araguari, no Amapá, terminou no oceano Atlântico, onde formava uma das pororocas mais famosas do Brasil, a onda que sobe o rio na maré cheia e atraía até surfistas. Hoje, o rio não chega mais ao mar. Em cerca de 15 anos, ele foi desviado para o rio Amazonas, e o trecho final, perto da antiga foz, secou. Para o Ministério Público Federal, o ICMBio e o plano de recursos hídricos do Governo do Amapá, a criação de búfalos dentro e em volta de uma reserva biológica é o principal acelerador da mudança.
Um rio desviado
Segundo imagens reunidas pelo Ministério Público Federal, a antiga foz do Araguari virou um leito assoreado de cerca de 173 quilômetros quadrados. A água que antes seguia para o Atlântico passou a correr por um canal, o Urucurituba, em direção ao Amazonas.
A última pororoca do Araguari no trajeto tradicional foi registrada no fim de 2013. Moradores relatam que a onda chegava a arrastar galinhas e porcos nas margens. Sem a ligação direta com o mar, a dinâmica do rio mudou, e a água ficou mais salgada em alguns trechos.
As valas dos búfalos
Os búfalos chegaram à região há décadas, trazidos da Ilha de Marajó, no Pará, em balsas. Eram cerca de 600 animais. Hoje, o Amapá tem um rebanho estimado em 312 mil búfalos, e cerca de 25 mil vivem dentro da Reserva Biológica do Lago Piratuba, uma unidade de conservação federal onde a criação de gado não é permitida. Cerca de 40 fazendas operam dentro e em volta da reserva.
Os búfalos andam em fila pelas áreas alagadas e, com o tempo, o pisoteio abre valas que viram canais. Em alguns pontos, essas valas passam de um quilômetro de largura. Fazendeiros também abriram canais para levar água às áreas de criação. Somados, os caminhos abertos ajudaram a água do Araguari a encontrar um atalho para o Amazonas.
As hidrelétricas
A explicação não tem um culpado só. O Araguari tem três hidrelétricas, e duas entraram em operação justamente no período em que a pororoca desapareceu. Representantes da pecuária do Amapá afirmam que as usinas alteraram a vazão e a retenção de sedimentos em toda a bacia e seriam as principais responsáveis. Pesquisadores e órgãos ambientais tratam os búfalos como o acelerador de um processo que tem várias causas.
Casas engolidas pelo rio
As mudanças têm efeito direto sobre quem mora na beira do rio. Em Pracuúba, a erosão das margens já levou casas, uma igreja, um campo de futebol, uma escola e um posto de saúde. Uma pista de pouso de 800 metros também está sendo perdida. Em Cutias, a 140 quilômetros de Macapá, moradores antigos dizem que nunca imaginaram ver a boca do Araguari fechar.
Retirada dos rebanhos
O Ministério Público Federal tem firmado acordos com produtores para a retirada dos búfalos da reserva e levou à Justiça os casos de quem resistiu. Em maio, a Justiça Federal determinou que um dos grandes criadores retire seus animais da Rebio em até um ano. O ICMBio também aplicou multas e embargos dentro da unidade.
A Reserva do Lago Piratuba
Criada em 1980, a Reserva Biológica do Lago Piratuba protege lagos, campos alagados, manguezais e a costa do Amapá, um mosaico de ambientes que abriga peixes-boi, aves aquáticas e uma grande variedade de peixes. Por ser uma reserva biológica, é uma das categorias mais restritivas de proteção, voltada à preservação integral da natureza.
Perguntas frequentes
O rio Araguari ainda deságua no mar?
Não. Ele foi desviado para o rio Amazonas pelo canal do Urucurituba, e o trecho da antiga foz no Atlântico secou.
A pororoca do Araguari acabou?
No trajeto tradicional, a última foi registrada no fim de 2013.
Por que os búfalos mudam o curso de um rio?
O pisoteio constante em áreas alagadas abre valas que viram canais e criam novos caminhos para a água.
Com informações do Ministério Público Federal e do ICMBio.
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