Chuva recorde abriu 853 cicatrizes na Mata Atlântica de São Sebastião; três anos e 134 milhões de sementes depois, 80% das encostas voltaram a ter floresta

Chuva recorde abriu 853 cicatrizes na Mata Atlântica de São Sebastião; três anos e 134 milhões de sementes depois, 80% das encostas voltaram a ter floresta
Área atingida por deslizamento na Rio-Santos, em São Sebastião (SP), em fevereiro de 2023. Foto: Vinicius Freitas/Governo do Estado de São Paulo, via Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.

Em fevereiro de 2023, São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, recebeu 683 milímetros de chuva em 24 horas, o maior volume já registrado nesse intervalo no Brasil, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Inundações e deslizamentos mataram 64 pessoas, entre elas 23 crianças, e deixaram milhares de desabrigados.

A tragédia também deixou marcas na floresta. Mais de 200 hectares de Mata Atlântica foram destruídos, e os deslizamentos abriram 853 cicatrizes nas encostas. Três anos depois, mais de 80% dessas áreas já voltaram a ter cobertura florestal.

Sementes lançadas do céu

A recuperação é resultado do Restaura Litoral, projeto do Instituto Conservação Costeira (ICC), organização que atuava na região havia mais de dez anos antes do desastre. Em três anos, 134 milhões de sementes de espécies nativas foram dispersas sobre as cicatrizes com a ajuda de drones. Muitas das áreas são íngremes e de acesso difícil ou perigoso, o que tornaria o plantio manual lento e arriscado.

O projeto está na fase final. Segundo o coordenador, o engenheiro agrônomo André Motta Waetge, a equipe trabalhou em um dos contínuos florestais mais importantes da Mata Atlântica no país e sabia que a natureza se regeneraria sozinha com o tempo. A proposta não era substituir esse processo, mas acelerá-lo.

Por que a pressa

Depois de um deslizamento, o solo exposto fica ainda mais vulnerável à erosão. Sem raízes e sem cobertura, cada nova chuva arrasta mais terra, alarga as cicatrizes e aumenta o risco para quem vive abaixo. Recolocar vegetação rapidamente ajuda a segurar o terreno e a reduzir a perda de solo.

O Restaura Litoral já recebeu prêmios no Brasil e no exterior e é apontado como possível modelo para outros municípios. A necessidade é grande: segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o país tem quase 18 mil áreas de risco, onde vivem 4,6 milhões de pessoas.

Árvore ajuda, mas não basta

Especialistas fazem uma ressalva importante. Segundo Julio Pedrassoli, professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de mapeamento urbano do MapBiomas, o plantio precisa vir junto com a recuperação da drenagem, o controle da erosão e, quando necessário, obras de engenharia e regras de ocupação do território.

O alerta pesa mais com a mudança do clima, que pode alterar o regime de chuvas e tornar eventos extremos mais frequentes em algumas regiões. Há ainda uma dimensão social: nas cidades brasileiras, as famílias de menor renda costumam ocupar justamente os terrenos mais suscetíveis a deslizamentos.

A diretora-executiva do ICC, Fernanda Carbonelli, lembra que estudos anteriores já indicavam o risco de tragédia na região, e que o poder público nas três esferas sabia do perigo.

A noite que mudou o litoral norte

A chuva caiu no fim de semana de Carnaval de 2023, entre 18 e 19 de fevereiro, quando a cidade estava cheia de turistas. A Vila do Sahy, comunidade na costa sul do município, concentrou a maior parte das mortes. Trechos da rodovia Rio-Santos ficaram interditados por lama e troncos, isolando bairros inteiros por dias.

O que é uma cicatriz de deslizamento

É a faixa de terreno exposto que fica na encosta depois que a terra e a vegetação escorregam morro abaixo. Vista do alto, parece um rasgo marrom no meio do verde. Enquanto não é recoberta, segue instável e pode voltar a ceder em chuvas fortes.

Perguntas frequentes

Quanto choveu em São Sebastião em 2023?

683 milímetros em 24 horas, o maior volume já registrado nesse intervalo no Brasil, segundo o Cemaden.

Plantar árvores evita deslizamentos?

A vegetação ajuda a segurar o solo e reduzir a erosão, mas não resolve sozinha. Drenagem, obras de contenção e ocupação segura das encostas são essenciais.

Com informações do Instituto Conservação Costeira (ICC), do Cemaden e do Serviço Geológico do Brasil.

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