A quatro anos de 2030, com só 35% das metas da ONU no rumo certo, empresas ouvem em Nova York que chegou a hora de provar resultados

A quatro anos de 2030, com só 35% das metas da ONU no rumo certo, empresas ouvem em Nova York que chegou a hora de provar resultados
Ilustração: Revista Amazônia

Evento do Pacto Global da ONU na sede das Nações Unidas colocou crime organizado, clima, água e IA no centro do risco corporativo.

Uma empresa que investe mais de R$ 500 milhões para reparar rodovias destruídas por eventos climáticos extremos já não pode tratar sustentabilidade como agenda paralela. Foi esse tipo de conta que dominou a 5ª edição do SDGs in Brazil 2026, realizada nesta sexta-feira (18) pelo Pacto Global da ONU, Rede Brasil, na sede das Nações Unidas, em Nova York, sob o tema “Toward 2030: Time to Prove It”.

O encontro reuniu lideranças empresariais, autoridades e especialistas. O pano de fundo é o calendário: faltam quatro anos para o prazo final da Agenda 2030, e apenas 35% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estão no caminho certo. A mensagem central foi que a fase de construção de consensos deu lugar à exigência de comprovar resultados com dados, indicadores e rastreabilidade.

Quando o prejuízo climático aparece no balanço

Juliana Silva, diretora da Motiva, citou o caso das rodovias do Rio Grande do Sul para mostrar como eventos extremos pesam nas contas das companhias. A empresa precisou investir mais de R$ 500 milhões em reparos de danos.

Para quem vive na Amazônia, o raciocínio é familiar. Estiagens que afetam a navegação fluvial e cheias que atingem estradas e comunidades são riscos que também chegam às operações de empresas que atuam na região.

Crime organizado dentro da cadeia produtiva

Eugênio Ricas, diretor da Interpol, afirmou que o crime organizado deixou de usar empresas apenas para lavar dinheiro e passou a se apropriar de etapas inteiras de cadeias produtivas, como no setor de combustíveis.

Por isso, defendeu que a due diligence deixe de ser um simples “checkbox” e passe a mapear todo o ecossistema de fornecedores e parceiros, como ferramenta estratégica de gestão de risco. Em cadeias longas, como as de commodities que partem da região amazônica, a rastreabilidade de quem fornece e de quem intermedeia é parte desse mapeamento.

Água e inteligência artificial no mesmo alerta

Kaveh Madani, diretor da UNU-INWEH, alertou para a “falência hídrica global”. Segundo ele, a escassez e a contaminação da água já representam risco direto para a continuidade de indústrias e cadeias de suprimentos.

Dr. Calvin Lawrence, CEO da IntegrityFirst.AI, ligou o tema à tecnologia. Para ele, a IA sem salvaguardas virou questão de direitos humanos, por causa do viés algorítmico, e ainda pressiona a infraestrutura hídrica, já que data centers consomem muita água para resfriamento.

Erika George, da Boston University, reforçou que diversidade e inclusão não são modismos de gestão, mas imperativos de direitos humanos e governança.

Do projeto-piloto à escala

Representantes de grandes corporações defenderam a passagem de pilotos para ações em grande escala. O Itaú Unibanco destacou operações bilionárias voltadas à biodiversidade e ao saneamento. O Bradesco reforçou a ligação da sustentabilidade com a estratégia de negócios e com a remuneração de lideranças. A Nestlé apresentou resultados de seu programa de agricultura regenerativa, que já alcança 28 mil hectares.

“2030 não é uma linha de chegada”

No encerramento, Rodrigo Favetta, diretor executivo interino do Pacto Global, Rede Brasil, retomou a distância entre assumir compromissos e demonstrar resultados. Segundo ele, metas e ambições seguem importantes, mas empresas enfrentam cobrança crescente de mercados, reguladores e sociedade por evidências.

“2030 não é uma linha de chegada. É um marco do caminho, um ponto de checagem que nos obriga a fazer a pergunta mais desconfortável e mais necessária: onde avançamos na velocidade certa e onde não avançamos?”

Favetta defendeu que a sustentabilidade faça parte das decisões de estratégia, investimento e operação.

“As empresas que vão liderar a próxima década não são as que têm um relatório de sustentabilidade mais bonito; são as que conseguem provar, com dado, com resultados, que sustentabilidade e performance de negócios estão na mesma equação”, disse.

Quem está por trás da rede

Segundo o Pacto Global da ONU, a iniciativa foi lançada em 2000 e reúne mais de 20 mil participantes em 70 redes que cobrem 100 países, sendo a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo. A Rede Brasil, criada em 2003, é a segunda maior rede local do planeta e conduz mais de 60 projetos, em temas como água, oceano, resíduos, agricultura, florestas, clima, direitos humanos e anticorrupção.

O SDGs in Brazil 2026 teve patrocínio master da AEGEA, patrocínio de Itaú, Nestlé e Motiva e apoio do Bradesco. Quem quiser acompanhar o tema pode consultar as publicações do Pacto Global Rede Brasil. Com o prazo de 2030 se aproximando, a expectativa é que as empresas apresentem cada vez mais indicadores verificáveis de suas metas.

Com informações de Pacto Global da ONU, Rede Brasil.

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