Sítios arqueológicos brasileiros têm entorno de 100 metros cada vez mais marcado por usos humanos e agropecuária assume maior parcela após 40 anos

Sítios arqueológicos brasileiros têm entorno de 100 metros cada vez mais marcado por usos humanos e agropecuária assume maior parcela após 40 anos
Ilustração: Revista Amazônia

Análise do MapBiomas com dados georreferenciados do Iphan mostra a mudança na cobertura do solo perto de locais que preservam vestígios da ocupação humana no país.

O entorno dos sítios mudou em quatro décadas

Ao redor de sítios arqueológicos brasileiros, a paisagem que predominava em 1985 já não ocupa a mesma posição em 2023. Em um raio de 100 metros desses locais, as áreas de vegetação nativa perderam espaço para usos humanos, como pastagens, agricultura e áreas urbanas. O levantamento do Projeto MapBiomas mostra que essa mudança ocorreu durante um período de 40 anos e atingiu locais associados à presença humana em diferentes momentos da história do país.

Em 1985, 41,5% dos entornos analisados já eram formados por áreas desmatadas e ocupadas por atividades humanas. Em 2023, esse percentual chegou a 49,6%. A variação representa uma mudança na composição da paisagem próxima aos sítios e aumenta as preocupações relacionadas à preservação e à conservação desses espaços de memória. O levantamento não trata apenas da existência dos sítios, mas também das transformações recentes ocorridas nas áreas imediatamente ao redor deles.

A agropecuária passou a ocupar a maior parcela

As florestas eram predominantes no entorno dos sítios arqueológicos há quatro décadas. Em 1985, elas representavam 43,2% da área analisada, dentro de um conjunto que também incluía savanas e campos naturais. A vegetação nativa, somada a essas formações, correspondia à maior parte da cobertura registrada nas proximidades dos locais arqueológicos naquele período.

Em 2023, a agropecuária passou a representar a maior parcela do uso do solo ao redor dos sítios, com 43,1%. A mudança não significa que todos os locais estejam submetidos ao mesmo tipo de ocupação, mas revela uma tendência nacional identificada pela comparação entre os mapas. Pastagens e áreas agrícolas aparecem entre os usos humanos que substituíram parte da cobertura nativa próxima aos sítios, alterando o ambiente em que esses vestígios estão inseridos.

Dados do Iphan permitem localizar os pontos de atenção

O projeto reuniu informações cadastradas e georreferenciadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, e tornou esse conjunto de dados público e gratuito. O cruzamento com mapas de cobertura e uso da terra do MapBiomas permite observar onde os sítios estão localizados e se os seus entornos apresentam sinais de atividades humanas recentes.

Para Thiago Berlanga Trindade, chefe do Serviço de Registro e Cadastro de Dados do Iphan, a abertura dessas informações ajuda a identificar regiões onde as atividades antrópicas aumentaram e a medir a extensão dessa mudança. Esse tipo de diagnóstico também pode indicar áreas que precisam receber atenção prioritária. Quando um sítio está em uma área antropizada, a preservação e a conservação exigem cuidados diante das transformações que ocorrem no entorno.

Amazônia concentra a maior quantidade de sítios

Em números absolutos, a Amazônia reúne a maior quantidade de sítios arqueológicos registrados no país, com 10.197 locais, mais de um terço do total nacional. A Caatinga aparece em seguida, com 7.004 pontos que guardam vestígios da presença humana em outras épocas. Cerrado e Mata Atlântica também têm forte presença nesse cadastro, com 4.914 e 4.832 sítios, respectivamente.

Pampa e Pantanal apresentam números menores no registro, com 904 e 123 sítios. A proporção de áreas antropizadas, porém, varia entre os biomas. A Mata Atlântica teve o maior percentual de sítios em áreas ocupadas por usos humanos, com 63%. Na Amazônia, 47,5% desses locais estavam em áreas antropizadas em 2023, contra 19% em 1985. A diferença mostra que a concentração de sítios em um bioma não determina sozinha o nível de pressão sobre seus entornos.

A própria ocupação pode revelar vestígios antigos

As relações entre atividade humana e arqueologia não se limitam aos impactos recentes. De acordo com Julia Shimbo, coordenadora científica do MapBiomas, muitas vezes foram atividades humanas que ajudaram a revelar a presença de sítios arqueológicos. Pesquisas, obras de infraestrutura e desmatamentos podem expor vestígios que permaneciam ocultos na paisagem e levar à identificação de novos locais.

Depois que um sítio é reconhecido, a análise das mudanças no seu entorno permite separar a ocupação histórica, ligada às sociedades que produziram os vestígios, da ocupação recente, associada a usos atuais da terra. Essa distinção é importante porque os mesmos locais que ajudam a conhecer o passado também podem ficar sujeitos a alterações no presente. O estudo oferece uma visão ampla da distribuição dos sítios e das mudanças próximas a eles, mas seus percentuais descrevem o conjunto analisado, não o estado individual de cada ponto.

O mapa transforma mudança em prioridade de preservação

A principal consequência do levantamento é indicar onde a ocupação recente merece ser observada com maior atenção. O aumento de áreas antropizadas próximo aos sítios não apaga automaticamente os vestígios, mas amplia a necessidade de considerar a cobertura do solo e o uso da terra nas ações de preservação. A paisagem de 100 metros ao redor de cada local passa a ser uma referência para acompanhar transformações que podem afetar áreas de memória arqueológica.

O material foi divulgado em 29 de abril de 2025 pelo Projeto MapBiomas, com base na série histórica de 1985 a 2023 e nos registros do Iphan. A Amazônia aparece como o bioma com mais sítios, enquanto a Mata Atlântica registra a maior proporção deles em áreas antropizadas. Ao tornar visível essa mudança, os mapas aproximam o passado do planejamento atual: preservar um sítio também depende de observar o que acontece ao seu redor antes que a paisagem transforme a leitura que ele ainda pode oferecer.

Com informações da Agência Brasil.

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