Socó-boi caça de tocaia em águas rasas e fica imóvel por longos períodos à espera de peixes

Soco-boi aponta o bico para cima e imita talo de junco para escapar de predadores
Ilustração: Revista Amazônia

Garça solitária, de hábitos crepusculares, o socó-boi depende de margens de rios, brejos e áreas alagadas

O socó-boi (Tigrisoma lineatum) é uma garça de porte médio que vive junto à água e caça de tocaia. Em vez de perseguir a presa, fica parado, curvado, em poças rasas ou em áreas úmidas de mata, até que algo passe ao alcance do bico. A descrição aparece em obras de referência como The Herons Handbook, de Hancock e Kushlan (2010), e nas avaliações da BirdLife International, que subsidiam a lista vermelha da IUCN.

O nome popular gera confusão. No Brasil, socó-boi designa o Tigrisoma lineatum, mas o socó-boi-baio é outra espécie, o Botaurus pinnatus, de hábitos noturnos e ligado a taboais e juncais. Esta reportagem trata da primeira.

Tamanho, distribuição e habitat

O socó-boi mede de 66 a 76 centímetros e pesa de cerca de 630 a 980 gramas, e machos e fêmeas têm aparência semelhante. Ocorre em áreas úmidas da América Central e de grande parte da América do Sul. No Brasil, uma subespécie (T. l. lineatum) vive na Amazônia, e outra (T. l. marmoratum) ocorre do sul do país ao norte da Argentina.

Em geral é encontrado abaixo de 500 metros de altitude e sempre perto da água: margens de rios, brejos, igarapés e alagados com vegetação. Os registros de campo o descrevem como ave solitária, discreta e principalmente crepuscular, isto é, mais ativa ao amanhecer e ao entardecer.

Caça à espera

A estratégia de caça é a espera. A ave permanece imóvel por longos períodos e só ataca quando a presa se aproxima. Essa técnica poupa energia, já que a ave não gasta forças em perseguições, e a imobilidade em locais com cobertura vegetal pode ajudar a ocultá-la.

A dieta inclui peixes, crustáceos, besouros aquáticos e larvas de libélula, além de libélulas adultas e gafanhotos, segundo Hancock e Kushlan (2010). Outras compilações listam também anfíbios e répteis. É um predador generalista, que aproveita o que o ambiente oferece perto da água.

A postura com o bico apontado para cima entre as plantas é associada, nas descrições consultadas, aos socós do gênero Botaurus, como o socó-boi-baio (Botaurus pinnatus), que, quando assustado, se agacha e levanta a cabeça na vertical. Para o Tigrisoma lineatum, as obras consultadas destacam a postura curvada de espera e a imobilidade.

A voz que entrega a ave

Apesar de discreto, o socó-boi tem voz marcante. O principal chamado é um pio grave e duplo, muitas vezes ouvido à noite. A espécie também emite uma série rápida de notas agudas, que diminuem de volume e de velocidade, e um pio longo que sobe no final. Em países vizinhos, o nome popular reflete o som: em espanhol, a ave é chamada de hocó.

Ninhos, ovos e filhotes

Um estudo sobre a reprodução da espécie feito na Argentina por Sovrano, Regner e Beltzer (2020), publicado na revista Cotinga, acompanhou três estações reprodutivas na Reserva Ecológica da Universidade Nacional do Litoral, em Santa Fe. Os ninhos ficavam a cerca de 204 centímetros acima do solo ou da água. A ninhada foi de dois ovos, com sucesso de eclosão de 80%.

Os ovos pesaram em média 58 gramas, e os filhotes permaneceram no ninho por cerca de 40 dias. A dieta dos filhotes foi dominada por peixes, em especial o muçum (Synbranchus marmoratus). Cerca de um terço das falhas de nidificação foi provavelmente causada por predação. A altura do ninho varia de região para região: uma nota publicada na revista Ornitología Neotropical descreveu um ninho a 7 ou 8 metros do chão, em um galho sobre a água, no Panamá.

Situação de conservação

A BirdLife International e a IUCN classificam o socó-boi como Pouco Preocupante. O tamanho e a tendência da população não foram quantificados, mas a distribuição é ampla. A permanência da espécie depende de áreas úmidas com vegetação marginal, que fornecem abrigo, alimento e locais de nidificação.

A ligação com as áreas úmidas explica por que a espécie é sensível a mudanças nesses ambientes. A drenagem de brejos e a retirada da vegetação das margens reduzem o espaço de caça e de nidificação, e, como os ninhos ficam a poucos metros da água ou do solo nas populações estudadas, alterações no nível da água podem afetar a reprodução. Esse tipo de pressão é difícil de medir em uma ave discreta e solitária, o que reforça a necessidade de estudos regionais.

Preservar brejos, margens de rios e alagados significa manter o cenário em que o socó-boi caça: águas rasas, cobertura de plantas e uma abundância de peixes e anfíbios. A imobilidade da ave só rende alimento se esse ambiente continuar existindo.

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