Estudo detecta substâncias que alteram hormônios na água potável e médico pede testes antes de alarmar

Estudo detecta substâncias que alteram hormônios na água potável e médico pede testes antes de alarmar
Foto: Divulgação

Pesquisa da Universidade de Otago encontrou compostos em água de torneira, engarrafada e de tanques na Nova Zelândia.

A presença de substâncias que podem interferir no funcionamento dos hormônios foi identificada em parte das amostras de água analisadas por pesquisadores da Universidade de Otago, na Nova Zelândia. O estudo examinou água de torneira, água engarrafada e água armazenada em tanques. O resultado reacendeu a discussão sobre a necessidade de testar não apenas microrganismos, mas também compostos químicos associados à saúde reprodutiva.

O alerta, porém, não equivale a uma confirmação de que a população esteja adoecendo por beber essa água. Em entrevista à rádio Newstalk ZB, o médico Andrew Murray, diretor médico da Fertility Associates, recomendou cautela. Para ele, o principal desdobramento da pesquisa deve ser a ampliação da vigilância, não uma reação de pânico.

O que foi encontrado nas amostras

Os compostos mencionados no estudo são chamados de desreguladores endócrinos. O sistema endócrino é a rede de órgãos e glândulas que produz hormônios, mensageiros químicos responsáveis por regular funções como crescimento, metabolismo e reprodução. Uma substância desreguladora pode imitar, bloquear ou alterar a ação desses mensageiros.

A pesquisa encontrou níveis detectáveis de compostos com atividade estrogênica em alguns tipos de água. Estrogênio é um hormônio relacionado, entre outras funções, ao sistema reprodutivo. A expressão “atividade estrogênica” indica que uma substância apresentou capacidade de interagir com mecanismos semelhantes aos acionados por esse hormônio, mas não informa, sozinha, qual será o efeito no organismo humano.

Essa distinção é importante. Detectar um composto não significa automaticamente que ele esteja presente em concentração capaz de causar doença. Para avaliar um risco, os pesquisadores precisam considerar a dose, o tempo de exposição, a combinação entre substâncias e a vulnerabilidade de cada grupo, como crianças, gestantes e pessoas em tratamento de fertilidade.

Por que o médico pediu mais monitoramento

Na avaliação de Murray, o caminho mais seguro é criar uma rotina de análise mais ampla. Hoje, os controles de água costumam dar atenção especial a contaminantes microbiológicos, como bactérias, porque eles podem provocar doenças infecciosas em curto prazo. A proposta apresentada pelo médico é que a investigação também acompanhe compostos com possível ação hormonal.

A diferença entre os dois tipos de controle pode ser entendida pela própria lógica do risco. Uma bactéria patogênica pode representar uma ameaça imediata e ser detectada por testes específicos. Já uma substância química pode aparecer em concentração muito baixa, permanecer no ambiente e exigir métodos laboratoriais mais sensíveis e acompanhamento ao longo do tempo.

Segundo a Universidade de Otago, o estudo identificou compostos com atividade estrogênica em amostras de água de torneira, engarrafada e de tanques na Nova Zelândia, em 25 de setembro de 2026.

O vínculo com fertilidade ainda exige cuidado

A pesquisa relaciona a presença desses compostos a efeitos descritos na literatura científica sobre ecossistemas e saúde humana. Entre os temas citados estão alterações reprodutivas e o declínio da fertilidade. Essa associação, contudo, não deve ser transformada em uma relação direta entre a água analisada e um diagnóstico individual.

Fertilidade é influenciada por vários fatores. Idade, genética, doenças, hábitos de vida, exposição a outras substâncias, condições de trabalho e acesso a atendimento médico também podem ter peso. Por isso, um resultado ambiental precisa ser interpretado junto com estudos epidemiológicos e avaliações de exposição real.

O alerta também não significa que toda água engarrafada seja mais segura do que a água tratada da rede pública. Como o estudo avaliou diferentes fontes, a conclusão mais prudente é que a origem da água, o tratamento, o armazenamento e a qualidade do recipiente precisam ser considerados caso a caso.

O que isso significa para a Amazônia

Para os estados da Amazônia, a discussão é especialmente relevante por causa da diversidade dos sistemas de abastecimento. Grandes cidades dependem de redes públicas e captações superficiais ou subterrâneas. Em áreas rurais e comunidades afastadas, o consumo pode envolver poços, rios, nascentes, água de chuva e tanques de armazenamento.

Essa variedade não permite concluir que os mesmos compostos tenham sido encontrados na água consumida no Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima ou Tocantins. O estudo citado foi realizado na Nova Zelândia e o material disponível não apresenta resultados equivalentes para esses estados. A conexão está na necessidade de monitoramento adaptado às realidades locais.

Na prática, analisar somente a presença de microrganismos pode não responder a todas as perguntas sobre a qualidade da água. Resíduos de medicamentos, produtos de higiene, defensivos agrícolas e materiais industriais são exemplos de grupos químicos que, dependendo do local e da concentração, podem exigir investigação específica. Isso não significa que estejam presentes em determinada cidade, mas explica por que a vigilância ambiental precisa acompanhar mudanças no uso do solo e nos padrões de consumo.

O que ainda falta esclarecer

O material divulgado sobre a pesquisa não apresenta as concentrações encontradas, o número de amostras nem uma lista completa dos compostos identificados. Sem esses dados, não é possível comparar a intensidade do achado entre água de torneira, água engarrafada e água de tanques, nem estimar o risco para uma pessoa que consuma uma dessas fontes.

Também é necessário separar três etapas diferentes: encontrar uma substância, demonstrar que ela está biologicamente ativa e provar que a exposição provoca um efeito na população. Estudos de laboratório podem indicar mecanismos possíveis. Estudos ambientais mostram onde há ocorrência. Pesquisas de saúde pública ajudam a avaliar se existe impacto mensurável nas pessoas.

O próximo passo defendido pelo médico é fortalecer os testes de rotina para que autoridades possam acompanhar a presença desses compostos e identificar eventuais mudanças ao longo do tempo. A recomendação é que a discussão avance com dados comparáveis, métodos transparentes e comunicação que informe sem transformar uma descoberta inicial em diagnóstico coletivo.

Com informações da Universidade de Otago.

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