A crise climática deixou de ser apenas uma questão ambiental para se revelar, cada vez mais, como um retrato brutal das desigualdades globais. Um novo relatório da Oxfam Internacional expõe essa assimetria de forma contundente: o 1% mais rico da população mundial consumiu, em apenas dez dias de 2026, toda a sua cota anual “justa” de emissões de carbono — o limite compatível com a meta de manter o aquecimento global em até 1,5°C. Entre o grupo ainda mais restrito do 0,1% mais rico, esse limite foi ultrapassado já no terceiro dia do ano.

Batizada de “Dia dos Ricos Poluidores”, a marca simbólica evidencia como o consumo e os investimentos de uma pequena elite estão no centro da emergência climática, enquanto os impactos recaem de forma desproporcional sobre populações que pouco contribuíram para o problema.
Quando poucos consomem o futuro de muitos
O conceito de “cota justa” de carbono parte de uma divisão igualitária do orçamento global de emissões. Segundo o Relatório da Lacuna de Emissões 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma/UNEP), o volume máximo de emissões compatível com o limite de 1,5°C em 2030 é de cerca de 17,8 gigatoneladas de CO₂ por ano. Dividido por uma população global estimada em 8,5 bilhões de pessoas, isso equivale a aproximadamente 2,1 toneladas de CO₂ por pessoa ao ano.
Na prática, porém, essa média esconde um abismo. A Oxfam calcula que cada pessoa pertencente ao 1% mais rico emite, em média, mais de 75 toneladas de CO₂ por ano — mais de 35 vezes o valor considerado sustentável. Já a metade mais pobre da população mundial emite cerca de 0,7 tonelada anual, o que significa que levaria quase três anos para alcançar o mesmo nível de emissões que os super-ricos produzem em poucos dias.
Essa disparidade não é apenas estatística. Ela se traduz em consequências concretas: ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, perdas agrícolas e eventos climáticos extremos que afetam sobretudo países de baixa e média-baixa renda.
Mortes, prejuízos e racismo ambiental
De acordo com a Oxfam, as emissões geradas pelo 1% mais rico em apenas um ano podem estar associadas a cerca de 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor extremo até o fim do século. Os danos econômicos também são expressivos: países mais pobres acumulam perdas estimadas em US$ 44 trilhões entre 1990 e 2050, valor muito superior ao financiamento climático prometido pelas nações ricas.
Esse cenário reforça o que especialistas definem como racismo ambiental. Comunidades indígenas, mulheres, crianças e populações periféricas — especialmente no Sul Global — enfrentam os piores impactos da crise climática, apesar de terem contribuído minimamente para o aquecimento global.
Enquanto isso, os super-ricos contam com infraestrutura, seguros, mobilidade e influência política que os protegem dos efeitos mais imediatos do colapso ambiental.

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O poder invisível dos investimentos e da política
O relatório chama atenção para um fator frequentemente ignorado no debate público: o peso dos investimentos financeiros na pegada de carbono dos mais ricos. Em média, cada bilionário mantém uma carteira associada à emissão de cerca de 1,9 milhão de toneladas de CO₂ por ano, principalmente em setores como petróleo, gás e carvão.
Essa lógica é aprofundada por estudos do World Inequality Lab (WIL), que analisam emissões não apenas pelo consumo individual, mas pela propriedade do capital. Sob essa ótica, o 1% mais rico pode ser responsável por até 41% das emissões globais associadas à posse de ativos poluentes.
Além de poluir mais, essa elite também exerce influência política desproporcional. Na última conferência do clima da ONU, realizada no Brasil, o número de lobistas ligados à indústria de combustíveis fósseis superou o de quase todas as delegações nacionais. Para a Oxfam, esse poder de pressão tem sido decisivo para atrasar acordos, suavizar metas e enfraquecer regulações ambientais.
Caminhos para uma transição climática mais justa
Diante desse quadro, a Oxfam defende que enfrentar a crise climática exige ir além de mudanças individuais de consumo. A organização propõe focar diretamente nos grandes poluidores, com um conjunto de medidas estruturais: tributação progressiva sobre renda e riqueza extremas, impostos sobre lucros excessivos de empresas de petróleo, gás e carvão, e restrições severas a bens de luxo de alta intensidade de carbono, como jatos particulares e superiates.
Segundo estimativas da entidade, apenas a taxação de lucros extraordinários do setor fóssil poderia gerar até US$ 400 bilhões em um único ano, recursos que poderiam ser destinados à adaptação climática, à transição energética e à reparação de perdas e danos em países vulneráveis.
O debate também passa pela forma como a transição energética será financiada. Relatórios do WIL alertam que, se o processo for dominado pelo capital privado, há o risco de reproduzir — ou até ampliar — as desigualdades atuais, concentrando os benefícios da economia verde nas mãos de poucos.
Especialistas defendem um papel mais ativo do setor público, com investimentos diretos em infraestrutura sustentável, maior transparência financeira e cooperação internacional para criar sistemas tributários globais capazes de financiar justiça climática.
Um teste moral para o século XXI
A constatação de que uma pequena elite consome, em dias, o que deveria sustentar toda a humanidade por um ano expõe o caráter ético da crise climática. Não se trata apenas de tecnologia ou eficiência energética, mas de escolhas políticas sobre quem deve reduzir, quem deve pagar e quem deve ser protegido.
Como resume a Oxfam, conter a imprudência climática dos super-ricos não é apenas uma questão de justiça social, mas uma condição indispensável para manter o planeta habitável. O desafio do século XXI, portanto, não é apenas descarbonizar a economia, mas redistribuir responsabilidades, poder e oportunidades em um mundo que já sente os limites do desequilíbrio ambiental.











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