Tamanduás-bandeiras resgatados adoecem em cativeiro com dieta difícil de reproduzir, e estudo usa ecocardiografia para medir o coração

Tamanduás-bandeiras resgatados adoecem em cativeiro com dieta difícil de reproduzir, e estudo usa ecocardiografia para medir o coração
Ilustração: Revista Amazônia

Pesquisa da UFMT e da UFRRJ estabelece referências para avaliar doenças cardíacas em animais mantidos sob cuidados humanos

Animais resgatados começaram a apresentar insuficiência cardíaca

Em um hospital veterinário de Mato Grosso, tamanduás-bandeiras encaminhados após viverem em zoológico ou em outras condições de cativeiro passaram a apresentar sinais compatíveis com doenças cardíacas. Alguns desenvolveram insuficiência cardíaca ao longo do tempo, enquanto exames indicaram aumento das cavidades do coração. A situação levou pesquisadores a investigar se a contração do órgão estava reduzida ou se as imagens representavam uma característica própria da espécie.

O estudo foi conduzido pela Universidade Federal de Mato Grosso, com participação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e teve como foco a saúde cardiovascular dos tamanduás-bandeiras. O trabalho avaliou exames ecocardiográficos, técnica que utiliza ondas de ultrassom para produzir imagens do coração. A pesquisa também incluiu animais de vida livre encaminhados ao hospital sem alterações cardíacas, pressão normal e outros parâmetros preservados. Eles serviram como referência para a comparação com indivíduos que apresentavam alterações.

A alimentação tornou-se um desafio fora da vida livre

O principal responsável pelo estudo, Pedro Eduardo Brandini Néspoli, do Hospital Veterinário da UFMT, explicou que a predisposição da espécie a doenças cardíacas pode ganhar um risco maior quando os animais são mantidos em cativeiro. O problema está relacionado à dificuldade de reproduzir a alimentação natural. Tamanduás-bandeiras consomem formigas, cupins e outros insetos, mas a captura diária desses recursos não é viável em estruturas de atendimento, zoológicos ou criadouros.

Nessas condições, os responsáveis precisam oferecer uma ração balanceada. A formulação busca substituir uma dieta baseada em insetos, mas a adaptação exige cuidados para manter o animal em boas condições. Na região atendida pela UFMT, a ausência de um Centro de Triagem de Animais Silvestres bem estruturado fazia com que o hospital universitário recebesse muitos animais encaminhados pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura de Mato Grosso. Entre eles estavam indivíduos que haviam vivido em um zoológico posteriormente transformado em Cetas.

Ecocardiografia ajudou a separar doença de característica da espécie

Quando os primeiros tamanduás apresentaram sinais de insuficiência cardíaca, a equipe recorreu à ecocardiografia para observar o tamanho das cavidades e o funcionamento do coração. Os exames mostraram aumento dessas cavidades, uma alteração que poderia estar relacionada à redução da capacidade de contração. Sem referências próprias para a espécie, porém, os pesquisadores não tinham segurança para definir se determinada medida indicava doença ou apenas uma variação normal do tamanduá-bandeira.

Para resolver esse problema, foram selecionados animais de vida livre que chegaram ao hospital sem alterações cardíacas. Os indivíduos considerados saudáveis apresentavam condições normais nas avaliações de pressão e em outros exames, permitindo uma comparação com os animais mantidos sob cuidados humanos. A partir desse conjunto, o estudo estabeleceu parâmetros ecocardiográficos próprios e confiáveis para a espécie. Esses valores ajudam o veterinário a interpretar o exame com mais precisão e a reconhecer mudanças no coração que podem exigir acompanhamento ou tratamento.

Referências podem acelerar o cuidado e apoiar a conservação

Para Sávio Amado da Silva, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da UFRRJ, a definição desses parâmetros é um primeiro passo para melhorar o diagnóstico de doenças cardíacas em tamanduás-bandeiras. A cardiomegalia e outras alterações podem ser frequentes na espécie e levar à morte dos animais. Com uma referência adequada, a equipe consegue avaliar com mais segurança a contratilidade cardíaca e identificar quando o funcionamento do órgão está comprometido.

A consequência esperada é uma resposta mais eficiente para animais resgatados, mantidos em cativeiro ou destinados à reprodução. Um diagnóstico melhor definido pode reduzir o tempo até o tratamento e aumentar as possibilidades de recuperação, contribuindo para a manutenção de populações sob cuidados humanos e na vida livre. O trabalho foi divulgado em 6 de abril de 2025 e publicado no periódico Journal of Zoo and Wildlife Medicine. Ao mostrar que cuidar de um tamanduá também exige medir com precisão aquilo que não aparece à primeira vista, a pesquisa aproxima a medicina veterinária das necessidades concretas da conservação.

Com informações da Agência Brasil.

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