
Coelho nativo das Américas, o tapiti vive sozinho, sai sobretudo ao entardecer e à noite e, quando perseguido, foge em zigue-zague. A ciência ainda discute quantas espécies existem sob esse nome.
O tapiti (Sylvilagus brasiliensis), também chamado de coelho-do-mato, é um coelho selvagem de florestas e bordas de mata do Neotrópico. Segundo o Animal Diversity Web, da Universidade de Michigan, é um animal de porte médio, que pesa de 0,7 a 1 quilo, tem pelagem amarronzada, barriga esbranquiçada e uma mancha ruiva na nuca. Em grande parte da área de ocorrência, é a única espécie de coelho presente, de acordo com Emmons e Feer, autores do guia Neotropical Rainforest Mammals (1997).
Um nome que reúne mais de uma espécie
Descrito por Lineu em 1758 a partir de material de Pernambuco, o tapiti foi por muito tempo tratado como uma espécie de distribuição enorme, do México ao norte da Argentina. O Mammal Species of the World (2005) reconheceu 21 subespécies, de 37 já descritas. Estudos recentes separaram várias dessas populações em espécies próprias, como Sylvilagus andinus, S. gabbi, S. sanctaemartae e S. tapetillus.
Em artigo de 2019 no Journal of Mammalogy, Luis Ruedas e colegas confirmaram a validade de S. andinus, separaram S. apollinaris e S. fulvescens de S. brasiliensis e defenderam que outras espécies neotropicais de Sylvilagus devem ser reconhecidas. Na definição mais restrita, o tapiti ocorreria apenas na Mata Atlântica do nordeste do Brasil, e a avaliação de 2019 de Ruedas e Smith para a Lista Vermelha da IUCN o classifica como Em Perigo, segundo o Mammal Diversity Database, da Sociedade Americana de Mamalogistas. Por isso, dados de reprodução ou de hábitos obtidos no México, na Colômbia ou nos Andes podem se referir a animais que hoje pertencem a outra espécie.
Solitário e mais ativo ao entardecer
De acordo com o Animal Diversity Web, o tapiti vive em geral sozinho ou aos pares, desloca-se saltando e caminhando e, quando necessário, é capaz de nadar. Emmons e Feer o descrevem como solitário e, mais exatamente, crepuscular, isto é, com maior atividade ao amanhecer e ao entardecer. Um estudo etológico com dois animais mantidos em cativeiro no Tolima, na Colômbia, também registrou hábitos noturnos, com descanso durante o dia.
Quanto ao ambiente, a ficha da IUCN reunida por Ruedas e Smith (2019) cita florestas tropicais, florestas decíduas e secundárias e pastos vizinhos à mata. O Animal Diversity Web acrescenta áreas florestais úmidas e zonas de transição entre mata e campo no Chaco.
Dieta de folhas, capins e arbustos
O tapiti é herbívoro. Segundo o Animal Diversity Web, alimenta-se principalmente de folhas e de vegetação verde de capins e arbustos.
Imobilidade e fuga em zigue-zague
Quando percebe uma ameaça, o tapiti costuma ficar totalmente imóvel, comportamento que, segundo o Animal Diversity Web, possivelmente reduz a chance de detecção por predadores. Se é perseguido, foge em um padrão irregular, em zigue-zague.
O mesmo banco de dados cita como predador a irara (Eira barbara), observada perseguindo um tapiti no Acre, e supõe que canídeos e felinos também o capturem. No registro do Acre, o mustelídeo desistiu quando percebeu a presença de uma pessoa.
Ninho e filhotes
Segundo o Animal Diversity Web, as fêmeas cavam buracos ou depressões para o ninho e o forram com capim e pelos. A fêmea não permanece no ninho com os filhotes: ela se posiciona sobre ele apenas para amamentar. Em outra descrição, atribuída a Chapman e Flux (publicação de 1990 da IUCN sobre coelhos, lebres e pikas), o ninho é construído acima do solo com capim seco, com uma câmara central e três ou quatro câmaras menores no fim de um corredor. As duas descrições mostram que o tipo de abrigo varia e que ainda faltam estudos detalhados com o tapiti em sentido estrito.
O desenvolvimento dos filhotes recém-nascidos do tapiti também é pouco documentado. O Animal Diversity Web afirma, de forma geral para o gênero, que os filhotes nascem de olhos abertos, mas a mesma base de dados, em sua ficha do coelho-de-rabo-de-algodão (Sylvilagus floridanus), descreve filhotes altriciais, cegos e sem pelos, que abrem os olhos por volta do quarto ou quinto dia, deixam o ninho com cerca de duas semanas e são amamentados uma ou duas vezes por dia. Esse é o padrão conhecido para o gênero, mas não foi confirmado para o tapiti.
Poucos filhotes por ninhada
As ninhadas do tapiti são pequenas. O Animal Diversity Web indica de 1 a 6 filhotes, com média de 1,9, e a ninhada de dois é comum. A mesma fonte apresenta dois valores diferentes para a gestação: de 42 a 45 dias em um trecho e de 26 a 30 dias em outro.
Os números variam ainda mais entre populações. Em Chiapas, no México, Chapman e Flux registraram gestação de cerca de 28 dias e de três a oito filhotes. Nos páramos andinos, a gestação foi de 44 dias, com média de 1,2 filhote por ninhada. Ambas as populações se reproduzem o ano todo e, como a taxonomia do grupo foi revista, algumas delas hoje são tratadas como outra espécie.
Reservatório natural do vírus da mixomatose
O tapiti é um hospedeiro natural do vírus da mixomatose. Segundo a revisão de Peter Kerr publicada em 2012 na revista Antiviral Research, a infecção causa nele apenas um fibroma benigno, ao passo que no coelho-europeu a mesma doença é letal.
O tapiti reúne, assim, um quadro biológico em parte bem conhecido, como a vida solitária, a atividade ao entardecer, a dieta vegetal e a fuga em zigue-zague, e outro ainda por esclarecer, que inclui o tipo exato de ninho, o desenvolvimento dos filhotes e a própria delimitação da espécie.
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