Brasil lidera biocombustíveis, mas enfrenta risco de inflação nos alimentos


O dilema dos biocombustíveis: entre a transição energética e a segurança do prato

O Brasil consolidou-se como o celeiro energético do planeta, uma potência capaz de transformar colheitas recordes em combustível para aviões e veículos. No entanto, por trás dos números superlativos da safra 2024/2025, que projeta volumes colossais de soja e milho, esconde-se uma tensão silenciosa. A corrida global pela descarbonização, materializada na demanda por biodiesel e pelo promissor Combustível Sustentável de Aviação, o SAF, está redesenhando o mapa da produção nacional e impondo escolhas difíceis. O desafio agora é evitar que a energia do futuro se torne o encarecimento do alimento no presente.

Foto: Mario Roberto Durán Ortiz

A gangorra entre o tanque e o prato

A lógica econômica do campo é pragmática e, muitas vezes, implacável. Com a soja e o milho atingindo patamares de produção de 171,5 milhões e 141 milhões de toneladas, respectivamente, o setor produtivo vive uma especialização sem precedentes. O problema surge quando a rentabilidade e a liquidez dessas commodities energéticas começam a expulsar culturas fundamentais para a dieta brasileira, como o feijão e a mandioca.

Essa dinâmica cria um efeito gangorra perverso. Quando o mercado mundial de energia pressiona por mais biocombustíveis, áreas que antes produziam comida de subsistência são convertidas em monoculturas de exportação. Não se trata apenas de ocupar espaço, mas de viabilidade econômica. O produtor, pressionado por custos de insumos que subiram até 14% e margens de lucro cada vez mais estreitas, busca abrigo na segurança financeira das grandes cadeias globais. O resultado é uma volatilidade de preços na cesta básica que atinge diretamente o consumidor local, tornando a segurança nutricional uma vítima colateral do sucesso energético.

Um exemplo claro dessa distorção já é observado no setor sucroenergético. A ascensão do etanol de milho alterou a balança da cana-de-açúcar. Com o milho ocupando uma fatia maior do mercado de combustíveis, as usinas desviaram sua matéria-prima para a produção de açúcar, buscando melhores preços internacionais. Embora isso tenha elevado a oferta mundial de açúcar, o movimento sinaliza como a demanda energética tem o poder de bagunçar a disponibilidade de alimentos básicos de forma rápida e imprevisível.

O abismo tecnológico e o futuro do pequeno produtor

A chamada Biorrevolução e o Agrodigital prometem uma eficiência cirúrgica, mas trazem consigo o risco da concentração de terras e renda. O modelo exigido para suprir as cadeias de SAF e biodiesel favorece o ganho de escala e a capitalização pesada. Para o pequeno agricultor, que opera com menos recursos e maior vulnerabilidade climática, a entrada nesse mercado é uma barreira quase intransponível.

O hiato tecnológico é a nova cerca do campo. Sem acesso a sensores de precisão, inteligência artificial e conectividade rural — ainda precária em vastas regiões do país — o pequeno produtor perde competitividade. As fontes indicam que, enquanto os grandes grupos absorvem as flutuações de Chicago, o faturamento bruto do milho chega a ser 27% menor que o da soja, colocando o agricultor familiar em uma corda bamba financeira. Sem uma intervenção estrutural, a tendência é o esvaziamento do campo e a homogeneização da paisagem agrícola, sacrificando a biodiversidade em nome da produtividade padronizada.

Reprodução
Reprodução

SAIBA MAIS: Brasil estabelece meta de 40% para reciclagem de vidro até 2032

Blindagem financeira e a nova governança do campo

Diante desse cenário, o governo brasileiro e entidades como o Ministério da Agricultura e Pecuária e a Embrapa buscam desenhar políticas que equilibrem essa balança. A palavra de ordem para 2026 é corresponsabilidade. A gestão de riscos precisa deixar de ser um fardo individual do produtor para se tornar um modelo compartilhado entre o setor público e os agentes econômicos.

Uma das apostas mais fortes é a Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais. A ideia é transformar a preservação em receita direta. Se o pequeno produtor protege as águas e mantém o estoque de carbono em sua terra, ele deve ser remunerado por isso. Essa estratégia permite que o produto final incorpore um valor social e ambiental que o diferencia no mercado externo, criando uma barreira de proteção contra as margens esmagadas das commodities puras. Além disso, o incentivo ao uso de bioinsumos nacionais surge como uma rota de fuga da dependência de fertilizantes importados e da variação cambial, baixando o custo de produção por hectare.

Rastreabilidade: o passaporte para o mercado global

Para que o agronegócio brasileiro não seja apenas um fornecedor de volume, mas um líder em sustentabilidade, a governança precisa ser rigorosa. O mercado internacional de aviação, por meio de normas ESG (Ambiental, Social e Governança), exigirá rastreabilidade total de cada litro de SAF produzido. O desafio do Governo Federal é garantir que essas exigências não se tornem uma ferramenta de exclusão.

Parcerias Público-Privadas (PPPs) estão sendo articuladas para baratear o acesso do pequeno agricultor a sistemas de monitoramento e certificação. A meta é integrar esses produtores em cadeias curtas e nichos de mercado, onde a origem e a sustentabilidade agregam mais valor do que o volume bruto. Somente com uma inclusão digital efetiva e o fortalecimento do associativismo será possível garantir que a revolução dos biocombustíveis não deixe para trás as comunidades tradicionais. O futuro da bioenergia brasileira depende, fundamentalmente, da capacidade do país em alimentar seus próprios cidadãos enquanto abastece as aeronaves do mundo.