Brasil pagou dois milhões de libras, cedeu terras e prometeu ferrovia para incorporar 190 mil quilômetros quadrados do Acre em 1903

Brasil pagou dois milhões de libras, cedeu terras e prometeu ferrovia para incorporar 190 mil quilômetros quadrados do Acre em 1903
Ilustração: Revista Amazônia

O Tratado de Petrópolis encerrou a disputa entre Brasil e Bolívia com dinheiro, concessões territoriais e uma obra ferroviária de grande porte.

O território entrou no mapa brasileiro por meio de um acordo

Em 17 de novembro de 1903, Brasil e Bolívia assinaram um tratado que alterou o controle político sobre uma extensa área da Amazônia. Pelo acordo, o Brasil incorporou cerca de 190 mil quilômetros quadrados correspondentes à região do Acre. A transferência não ocorreu apenas por uma decisão administrativa ou por uma operação militar. Ela envolveu pagamento em dinheiro, cessões territoriais e o compromisso de construir uma ferrovia em uma área estratégica dos rios Madeira e Mamoré.

O documento ficou conhecido como Tratado de Petrópolis e foi conduzido pelo Barão do Rio Branco, então ministro das Relações Exteriores do governo de Rodrigues Alves. Seu formato procurou resolver a disputa entre os dois países por meio de uma negociação formal. A solução evitou um conflito armado e estabeleceu obrigações para os envolvidos. Para o Brasil, o resultado foi a incorporação do Acre. Para a Bolívia, o acordo trouxe compensações financeiras, territoriais e a promessa de uma ligação ferroviária entre pontos importantes da região amazônica.

O Brasil pagou e também entregou áreas em troca do Acre

Uma das principais condições do tratado foi o pagamento de dois milhões de libras esterlinas à Bolívia. A quantia fazia parte da compensação pela incorporação do território acreano ao Brasil. O acordo também previa cessões territoriais brasileiras. Foram cedidos 3.164 quilômetros quadrados em Mato Grosso, além do Triângulo do Abunã, com 2.296 quilômetros quadrados, e de Bahia Negra, com 723 quilômetros quadrados.

As concessões mostram que a negociação não se limitou à definição de uma fronteira no mapa. O Brasil assumiu custos financeiros e territoriais para formalizar a posse de uma área amazônica de grande extensão. O Acre, que correspondia a cerca de 190 mil quilômetros quadrados, passou a integrar o território brasileiro por meio das condições estabelecidas no tratado. O processo também incluiu uma obrigação dirigida a outro trecho da região, o que ampliou o alcance do acordo para além da linha divisória entre Brasil e Bolívia.

A ferrovia prometida ligaria os rios Madeira e Mamoré

Entre as obrigações assumidas pelo Brasil estava a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O compromisso previa uma linha entre o porto de Santo Antônio, no rio Madeira, e Guajará-Mirim, no rio Mamoré. A ferrovia foi construída entre 1907 e 1912, alguns anos depois da assinatura do tratado. Sua função estava ligada à conexão entre os cursos dos dois rios e à circulação regional em uma área onde o transporte dependia fortemente das vias fluviais.

A obra teve custo estimado em 25 milhões de dólares. Esse valor ajuda a dimensionar o peso econômico da promessa feita em 1903, mas não deve ser confundido com o pagamento de dois milhões de libras esterlinas realizado no acordo com a Bolívia. Eram compromissos diferentes, com moedas e finalidades distintas. O primeiro correspondia à compensação territorial prevista no tratado. O segundo estava relacionado à construção da ligação ferroviária entre Santo Antônio e Guajará-Mirim.

O acordo também encerrou a participação de um consórcio privado

A negociação não envolveu somente os governos brasileiro e boliviano. Desde 1901, a Bolívia mantinha um contrato de arrendamento do Acre com o Bolivian Syndicate, um consórcio americano. Como a definição territorial alterava o cenário criado por esse contrato, o Brasil também indenizou o grupo. O acordo diplomático, portanto, precisou acomodar interesses estatais e privados relacionados à mesma área amazônica.

O Tratado de Petrópolis reuniu, em uma única solução, a incorporação de cerca de 190 mil quilômetros quadrados, o pagamento de dois milhões de libras esterlinas, a cessão de áreas e a construção posterior de uma ferrovia de 1907 a 1912. A assinatura ocorreu em 17 de novembro de 1903, durante o governo Rodrigues Alves, sob condução do Barão do Rio Branco. A história do Acre permanece como um exemplo de como fronteiras podem ser definidas por uma sequência de negociações, custos e compromissos que continuam visíveis na geografia brasileira.

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