
O tucano-de-bico-preto (Ramphastos ariel) desapareceu da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, em 1968. Entre 1970 e 1971, 47 aves foram soltas no parque. Mais de meio século depois, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mediram o resultado: a população reintroduzida cumpre 76% das interações com frutos que se esperava dela, e quase 90% quando se trata das sementes médias e grandes, as que mais dependem de animais para se espalhar.
O estudo foi publicado em fevereiro de 2026 na revista científica Oikos e é um dos raros trabalhos que avaliam uma reintrodução feita há tanto tempo. A maior parte das pesquisas sobre o tema acompanha solturas recentes e mede só se os animais sobreviveram.
Por que o tucano sumiu
Segundo os pesquisadores, a ave foi considerada desaparecida da Tijuca em 1968 por causa do desmatamento, da fragmentação da mata e da caça. As penas de tucano eram usadas em artesanato e em peças como o manto imperial exposto no museu de Petrópolis, citado pela equipe como exemplo.
A própria Floresta da Tijuca tem uma história de recuperação. Grande parte dela foi replantada a partir de 1861, por ordem do imperador D. Pedro II, depois que as fazendas de café derrubaram a mata original e ameaçaram o abastecimento de água da cidade. As árvores voltaram, mas muitos animais não.
A soltura de 1970
A reintrodução foi coordenada pelo primatólogo Adelmar Coimbra Filho, um dos pioneiros da conservação no Brasil, e é considerada a primeira documentada para o parque. As 47 aves foram soltas em diferentes pontos da Estrada da Vista Chinesa. Com o tempo, ver tucanos-de-bico-preto na Tijuca e nos bairros vizinhos virou algo comum.
O que ninguém sabia era se as aves estavam de fato fazendo o que se esperava delas na floresta. “Até o presente momento não havia nenhuma informação referente a essa população proveniente da reintrodução”, afirmou a bióloga Flávia Zagury, autora principal do estudo, em texto divulgado pela UFRJ.
Como a pesquisa mediu o sucesso
A equipe fez duas coisas. Primeiro, revisou a literatura científica para listar todas as plantas da Tijuca cujos frutos o tucano-de-bico-preto poderia comer. Chegou a 101 interações possíveis. Depois, passou um ano em campo, com observações semanais, anotando quais frutos as aves de fato comiam.
Resultado: 76% das interações esperadas apareceram nas observações. A equipe também separou as plantas pelo tamanho da semente:
- sementes pequenas, com menos de 6 milímetros: 63% de recuperação;
- sementes médias, entre 6 e 12 milímetros: 88%;
- sementes grandes, com mais de 12 milímetros: 89%.
O número que mais importa é o das sementes grandes. Em florestas que perderam os animais de grande porte, como antas, muitas árvores de sementes grandes ficam sem quem as carregue para longe da planta-mãe. O tucano, com bico largo e voos longos, é um dos poucos que conseguem fazer esse serviço.
“O tucano é uma ave de grande porte e, uma vez que voa longas distâncias, consegue dispersar sementes para novas áreas”, explicou Flávia. “A espécie se alimenta sem auxílio humano, sabemos que também se reproduz bem sem ajuda do ser humano e nossos resultados evidenciam a recuperação de suas interações, portanto, a reintrodução após 53 anos foi um sucesso.”
Defaunação: a floresta em pé, mas vazia
Os biólogos chamam de defaunação o sumiço dos animais de uma floresta que continua de pé. Os primeiros a desaparecer costumam ser os maiores. Sem eles, a mata perde quem espalha sementes, e a composição de árvores muda aos poucos.
A Tijuca virou um laboratório para reverter isso. Depois do tucano, outras espécies foram levadas de volta ao parque por projetos de refaunação, como cutias e bugios. O estudo da UFRJ dá a esses projetos uma régua: além de contar quantos animais sobrevivem, é possível medir quanto da função ecológica perdida voltou.
Na Amazônia, onde a caça e a fragmentação também esvaziam trechos de floresta, tucanos e araçaris são dispersores importantes de sementes. O caso da Tijuca mostra que devolver uma única espécie pode reativar uma parte grande dessas conexões.
Perguntas frequentes
Quando o tucano foi reintroduzido na Tijuca?
Entre 1970 e 1971, com a soltura de 47 aves na Estrada da Vista Chinesa.
O que o estudo descobriu?
Que as aves recuperaram 76% das interações esperadas com frutos, e 88% e 89% no caso das sementes médias e grandes.
Quem fez a pesquisa?
Pesquisadores da UFRJ, com colegas da Universidade Stanford, da USP e da PUC-Rio. O artigo saiu na revista Oikos em fevereiro de 2026.
Por que as sementes grandes importam?
Porque poucos animais conseguem engoli-las e levá-las longe, e as florestas que perdem grandes animais ficam sem quem faça esse transporte.
Para os autores, o resultado reforça que reintroduções bem planejadas são uma ferramenta de restauração ecológica e que vale acompanhar os animais por décadas, não só nos primeiros anos.
Com informações da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do estudo “Successful frugivory interactions recovery 53 years after the reintroduction of the ariel toucan Ramphastos ariel in the Atlantic forest”, publicado na revista Oikos.
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