Vila Bela é fundada no Guaporé em 1752, vira primeira capital de Mato Grosso, é abandonada em 1835, e quilombolas formam comunidade com 2.589 pessoas

Vila Bela é fundada no Guaporé em 1752, vira primeira capital de Mato Grosso, é abandonada em 1835, e quilombolas formam comunidade com 2.589 pessoas
Ilustração: Revista Amazônia

Criada durante a disputa entre Portugal e Espanha pelo Alto Guaporé, Vila Bela deixou ruínas coloniais e uma comunidade quilombola formada após o êxodo.

À margem do rio Guaporé, as ruínas da Igreja Matriz lembram uma cidade que nasceu para marcar a presença portuguesa numa região de fronteira, tornou-se a primeira capital de Mato Grosso e perdeu sua condição administrativa menos de um século depois. Vila Bela da Santíssima Trindade foi fundada em 19 de março de 1752, no Alto Guaporé, depois da descoberta de ouro na região. Em 1835, a capital foi transferida para Cuiabá, e a população deixou Vila Bela em um movimento de êxodo. Parte das pessoas escravizadas permaneceu no local e se reorganizou em uma comunidade quilombola, que em 2022 reunia 2.589 pessoas.

A trajetória de Vila Bela combina ocupação colonial, exploração mineral, abandono urbano e continuidade comunitária. A cidade não desapareceu completamente quando perdeu a condição de capital. Ao lado dos vestígios de sua antiga estrutura, permaneceu uma população formada por descendentes de pessoas escravizadas, com conhecimentos medicinais africanos e indígenas. Essa permanência muda o sentido das ruínas: elas não representam apenas uma administração colonial encerrada, mas também o cenário de uma reorganização social que atravessou a mudança da capital e continuou no Alto Guaporé.

Uma capital criada na fronteira do Guaporé

Vila Bela foi fundada por Portugal em 19 de março de 1752, quando a descoberta de ouro passou a dar valor estratégico ao Alto Guaporé. A criação da vila fazia parte do esforço português para povoar a região e impedir o avanço espanhol. A posição junto ao rio ajudava a estabelecer uma presença permanente em uma área de disputa territorial, enquanto a mineração oferecia o motivo econômico para concentrar moradores, autoridades e atividades de produção.

O nascimento da vila, portanto, não foi um episódio isolado da história de Mato Grosso. Ele ocorreu em uma fronteira colonial onde território, mineração e controle político estavam ligados. Vila Bela passou a funcionar como referência administrativa portuguesa no oeste da capitania e, entre 1752 e 1835, exerceu a função de primeira capital de Mato Grosso. Nesse período, o núcleo urbano reuniu construções relacionadas ao governo, à defesa e à circulação do ouro, marcas que depois seriam registradas nas ruínas e nas imagens históricas da cidade.

O ouro deixou igrejas, quartel e casa de fundição

A Igreja Matriz tornou-se o principal símbolo material de Vila Bela. Suas ruínas continuam associadas à imagem da antiga capital porque expressam, em pedra e paredes remanescentes, a dimensão do projeto colonial implantado no Alto Guaporé. A construção religiosa fazia parte de uma vila que também precisava de estruturas administrativas e econômicas para sustentar a ocupação portuguesa e organizar a exploração do ouro encontrado na região.

Fotos produzidas em 1930 mostram que a paisagem de Vila Bela ainda guardava outros vestígios além da Igreja Matriz. As imagens registraram ruínas do quartel e da casa de fundição do ouro, ampliando a compreensão sobre as funções que existiam na cidade. O quartel se relacionava à presença militar em uma fronteira disputada, enquanto a casa de fundição estava ligada ao processamento e ao controle do metal extraído. Juntas, essas estruturas revelam uma cidade planejada para exercer poder, proteger a ocupação e administrar a riqueza mineral.

Em 1835, a capital muda para Cuiabá

A transferência da capital ocorreu em 1835, quando Vila Bela deixou de ser o centro administrativo de Mato Grosso e Cuiabá assumiu essa posição. A distância foi um dos fatores associados à mudança. Também pesaram as doenças e os ataques indígenas, condições que dificultavam a permanência da população e a operação cotidiana do governo na área do Alto Guaporé. A mudança alterou o destino urbano de Vila Bela e contribuiu para o êxodo de seus moradores.

O abandono não aconteceu como uma simples troca de endereço administrativo. A saída da população reduziu a ocupação da antiga capital e deixou edifícios sujeitos à passagem do tempo. As ruínas da igreja, do quartel e da casa de fundição permaneceram como sinais de uma estrutura que havia perdido sua função central. Ao mesmo tempo, pessoas escravizadas ficaram para trás. A presença delas foi decisiva para que a história de Vila Bela não terminasse com a transferência da capital, mas assumisse outra forma social no território.

Quem ficou para trás formou uma comunidade quilombola

Depois do êxodo provocado pela mudança da capital, as pessoas escravizadas que permaneceram em Vila Bela se reorganizaram em uma comunidade quilombola. Essa formação reuniu saberes medicinais africanos e indígenas, criando uma base de conhecimento ligada à experiência das populações que continuaram vivendo no Alto Guaporé. A comunidade não aparece apenas como consequência demográfica do abandono. Ela representa uma reorganização da vida coletiva diante da saída das autoridades e de parte dos moradores.

O caráter igualitário atribuído a essa comunidade também diferencia sua trajetória da estrutura colonial que existia antes. Em vez de depender da função administrativa que Vila Bela havia exercido, o grupo construiu continuidade a partir das relações entre seus integrantes e dos conhecimentos compartilhados. A formação quilombola mostra que a permanência no território produziu uma nova configuração social, com raízes africanas e indígenas. A cidade perdeu a capital, mas as pessoas que ficaram estabeleceram uma forma própria de presença no mesmo espaço.

Uma cidade de ruínas e população viva

Em 2022, a população quilombola de Vila Bela somava 2.589 pessoas. O número ajuda a dimensionar a continuidade de uma comunidade que se formou após a transferência da capital e o êxodo populacional de 1835. Ele também desloca o olhar sobre a cidade: a história local não pode ser contada somente pelas construções coloniais, pela descoberta de ouro ou pela disputa entre Portugal e Espanha. As ruínas são parte do patrimônio, mas a comunidade é a expressão viva da permanência no território.

Vila Bela da Santíssima Trindade reúne, assim, tempos diferentes no mesmo lugar. A Igreja Matriz recorda a fundação de 1752, as imagens de 1930 registram os vestígios do quartel e da casa de fundição, e a população quilombola de 2022 evidencia uma continuidade que atravessou a perda da capital. A transformação mais profunda não está apenas no que restou das paredes, mas na capacidade de quem ficou para reorganizar a vida, preservar saberes e manter o Alto Guaporé como lugar de memória e pertencimento.

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