Petrobras testa resposta ambiental na Margem Equatorial

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A etapa final antes que a exploração de petróleo avance na Margem Equatorial do Brasil acontece longe dos poços e das perfurações. O que está em jogo, por ora, é um grande exercício simulado chamado Avaliação Pré-Operacional (APO), conduzido pelo Ibama e realizado pela Petrobras. O objetivo é simples, mas decisivo: testar se a companhia tem condições reais de reagir a uma eventual emergência ambiental em águas profundas do Amapá.

Foz do Amazonas -agencia brasil

O exercício não se restringe a reuniões de gabinete. Durante três a quatro dias, embarcações, aeronaves, veículos e equipes técnicas são mobilizadas para enfrentar um cenário fictício definido pelo Ibama. Esse roteiro inclui o acionamento de sistemas de contenção de óleo, o atendimento à fauna impactada e a articulação entre diferentes frentes operacionais.

A APO como última barreira antes da perfuração

O bloco em questão, chamado FZA-M-59, fica a 175 quilômetros da costa do Amapá e a mais de 500 quilômetros da foz do rio Amazonas. É uma área sensível, estratégica e que vem sendo estudada há anos. Mas, por determinação legal, a perfuração só poderá ocorrer se o Ibama considerar que a APO foi satisfatória. Trata-se, portanto, da última barreira antes da concessão da licença de operação.

Essa exigência se tornou ainda mais rigorosa após o avanço da exploração na Margem Equatorial, que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte. Em 2023, um exercício semelhante foi realizado na Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte. Na ocasião, a Petrobras conseguiu demonstrar sua capacidade de resposta e recebeu a licença para atuar no bloco BM-POT-17. O mesmo raciocínio agora se aplica ao Amapá: antes da broca, o teste.

Uma logística de guerra ambiental

A dimensão do simulado revela a complexidade envolvida. Ao todo, cerca de 400 pessoas participam diretamente da operação. Seis embarcações equipadas com barreiras e sistemas de recolhimento de óleo serão deslocadas para a área, acompanhadas por mais seis embarcações especializadas no resgate de animais atingidos. Um navio-sonda também fará parte do exercício, assim como três aeronaves destinadas a monitoramento aéreo, transporte de equipes e resgate aeromédico.

Mas o ponto mais sensível é, sem dúvida, o atendimento à fauna marinha. Para isso, dois Centros de Atendimento e Reabilitação de Fauna (CAF) foram preparados: um em Oiapoque (AP) e outro em Belém (PA). Estruturados como verdadeiros hospitais veterinários, contam com ambulatórios, salas de estabilização, centro cirúrgico e áreas de reabilitação específicas para aves, tartarugas, golfinhos, peixes-boi e mamíferos marinhos. A ideia é que, diante de uma ocorrência real, os animais possam receber cuidados imediatos e especializados.

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Infográfico Estrutura da Petrobras

Simulação sem risco de óleo na costa

Uma dúvida recorrente entre moradores e ambientalistas é se haverá risco de o exercício simulado reproduzir um derramamento capaz de atingir praias ou manguezais. A resposta é não. Os estudos de correntes marinhas já realizados descartam a possibilidade de chegada do óleo à costa em caso de acidente, justamente pela distância em que o bloco está localizado. Na prática, não haverá qualquer liberação real de óleo durante a APO. Tudo se dá no campo do treinamento e da resposta técnica.

Apesar da expectativa criada, a APO não garante automaticamente que a Petrobras receba a licença de perfuração. Essa decisão permanece nas mãos do Ibama, que avaliará a qualidade das respostas dadas, a integração das equipes, a eficiência dos equipamentos e a coerência das medidas propostas. Só depois dessa análise é que os próximos passos serão definidos. Em outras palavras, a APO é tanto um teste logístico para a Petrobras quanto um instrumento de avaliação institucional para o órgão ambiental.

A Avaliação Pré-Operacional não é apenas um rito burocrático. É um exercício que condensa, em alguns dias, as tensões de um debate maior: como explorar petróleo em uma área de altíssima sensibilidade ecológica sem repetir erros históricos de acidentes anteriores, como os que marcaram a exploração offshore em outras partes do mundo. O que está em curso na Margem Equatorial é, de fato, um ensaio de futuro, onde energia, meio ambiente e geopolítica se cruzam em mar aberto.

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