Abelhas somem no hemisfério Norte e resistem nos trópicos

Mamangava pousada em flor lilás

Revisão científica reuniu o que se sabe sobre o desaparecimento das abelhas do gênero Bombus em três continentes e mostrou que a América do Sul, pouco estudada, aparece como zona fria no mapa das espécies ameaçadas.

Fotos: USFWS Midwest Region (CC BY 2.0), Ivar Leidus (CC BY-SA 4.0) e Leonardo Ré-Jorge (CC BY-SA 4.0)

Em 1983, duas das mamangavas mais comuns do sul de Ontário, no Canadá, eram Bombus terricola e Bombus affinis. Entre 2002 e 2008, uma ampla amostragem no leste da América do Norte, Ontário incluída, encontrou apenas dois indivíduos de B. terricola e nenhum B. affinis.

O episódio está em uma revisão assinada por Paul H. Williams, do Departamento de Entomologia do Museu de História Natural de Londres, e por Juliet L. Osborne, do Rothamsted Research, publicada em 2009 na revista Apidologie. Os dois reuniram as evidências disponíveis sobre o declínio das mamangavas, as abelhas do gênero Bombus, cerca de 250 espécies no mundo, cujos serviços de polinização para a agricultura valem bilhões de dólares por ano.

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Na Grã-Bretanha, onde a série histórica é mais longa, restam 16 espécies não parasitas, e mais da metade delas já foi apontada como rara ou em declínio. Bombus pomorum teve seu último registro em 1864. Bombus subterraneus, outrora descrita como comum, passou a ser considerada extinta no país. Na Ásia, o quadro é desigual. Em Sichuan, na China, a fauna das montanhas entre 2.000 e 4.500 metros parece intacta, enquanto a bacia baixa, entre 500 e 1.999 metros, acumula registros antigos e quase nenhum na última década. No Japão, as quedas rápidas atingem o mesmo subgênero em colapso na América do Norte.

Rainha de Bombus terrestris em flor de tília, na Estônia. É a espécie criada comercialmente e levada a outros continentes para polinizar cultivos, prática que a revisão recomenda evitar.
Rainha de Bombus terrestris em flor de tília, na Estônia. É a espécie criada comercialmente e levada a outros continentes para polinizar cultivos, prática que a revisão recomenda evitar. Foto: Ivar Leidus (CC BY-SA 4.0)

O que está por trás disso, segundo os autores, raramente é um fator só. A mudança no uso da terra é a explicação mais aceita na Europa, com campos maiores para dar passagem às máquinas, remoção de cercas vivas e pomares, drenagem de pastagens úmidas, troca do trevo e do feno pela silagem, cereais contínuos no lugar da rotação com leguminosas, agrotóxicos e cortes mais frequentes da vegetação. O resultado é a perda das plantas que alimentam as colônias, sobretudo o trevo-vermelho. Em 2008, um erro no tratamento de sementes de milho com clotianidina matou pelo menos 12 mil colônias de abelhas melíferas na Alemanha, e as abelhas silvestres da mesma área nunca foram monitoradas.

Há ainda a suspeita que mais divide os pesquisadores. Perto de estufas comerciais que importam mamangavas para polinizar cultivos, já foi documentada a passagem de patógenos para as populações silvestres. Introduções feitas entre 1992 e 1994, com abelhas criadas na Europa, foram apontadas como possível gatilho do colapso norte-americano a partir de 1995, embora isso siga sem comprovação. No Japão, a chegada de Bombus terrestris aparece correlacionada ao declínio da espécie nativa Bombus hypocrita desde o mesmo ano.

O aquecimento do clima foi descartado pelos autores como causa geral do caso britânico por um motivo simples. Enquanto algumas espécies recuaram para o norte, outras recuaram para o sul, e uma mudança em um único sentido não explica movimentos opostos. Resta a hipótese de que o aumento da variação climática prejudique ao mesmo tempo espécies adaptadas ao quente e ao frio.

Para saber quais espécies correm mais risco, o trabalho recorre a uma análise que comparou três faunas independentes, na Grã-Bretanha, no Canadá e na China. O declínio apareceu associado a três características: distribuição climática estreita, ocorrência perto da borda dessa distribuição e início tardio do ciclo anual da colônia. Língua longa e especialização em poucas plantas, apontadas por muitos autores, não se sustentaram como fator comum aos três continentes.

A revisão traz também uma avaliação preliminar do estado de conservação de todas as mamangavas do mundo, nos moldes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Duas espécies são dadas como extintas. Uma delas, Bombus rubriventris, é conhecida por um único exemplar coletado nas Américas em local incerto, provavelmente no Brasil ou no Caribe, antes de ser descrita em 1835. A outra, Bombus melanopoda, veio de Sumatra. Em estado crítico aparecem B. franklini, do sul do Oregon e norte da Califórnia, e B. affinis. Os focos de espécies ameaçadas se concentram na zona temperada do hemisfério Norte. As montanhas tropicais do sul da Ásia e da América do Sul aparecem como pontos frios no mapa.

Mamangava Bombus morio em flor de quaresmeira, no Brasil. A América do Sul aparece no estudo como zona de baixa concentração de espécies ameaçadas, ainda que pouco estudada.
Mamangava Bombus morio em flor de quaresmeira, no Brasil. A América do Sul aparece no estudo como zona de baixa concentração de espécies ameaçadas, ainda que pouco estudada. Foto: Leonardo Ré-Jorge (CC BY-SA 4.0)

Na América do Sul, registram os autores, a maioria das espécies tem distribuição ampla e continua sendo encontrada quando se procura nos lugares certos, inclusive nos Andes. O exemplo citado é brasileiro. Bombus brevivillus tem poucos registros publicados recentemente, o que não significa que esteja ameaçada. A ressalva é que a informação sobre populações e ameaças segue imprecisa e precisa ser melhorada com urgência.

Entre as medidas testadas, as caixas-ninho tiveram sucesso irregular no Canadá e na Grã-Bretanha. Faixas de flores nas bordas das lavouras atraem muitas operárias, mas ainda não há prova de que aumentem as populações na escala da paisagem. O que deu certo de forma clara foi a mobilização pública. Em 2006 nasceu o Bumblebee Conservation Trust, e pelo menos sete levantamentos voluntários passaram a funcionar no país.

A lista de pendências deixada pelos autores continua atual. É preciso conhecer melhor a situação das populações no mundo, com prioridade para o Leste Europeu e a Rússia, medir o efeito do ambiente sobre o tamanho das colônias e o sucesso reprodutivo, e não apenas sobre o número de abelhas vistas nas flores, e investigar inseticidas, patógenos e parasitas. Até que se prove seguro, recomendam, mamangavas vivas não devem ser transportadas entre continentes ou oceanos para polinização comercial.

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