
Encontro em Manaus reuniu lideranças para discutir saúde, territórios e transição energética na região.
O que acontece quando comunidades de diferentes pontos da Amazônia se reúnem para discutir petróleo, gás, saúde e território? A resposta começou a ser construída em Manaus, onde lideranças indígenas, ribeirinhas e comunitárias, além de pesquisadores e organizações socioambientais, participaram do evento Amazônia em Movimento, realizado de 3 a 8 de agosto pela Rede de Trabalho Amazônico GTA. O encontro debateu os impactos da exploração de combustíveis fósseis, lançou um novo movimento de atingidos e construiu estratégias para uma transição energética com participação popular.
A programação ocorreu na sede da Fundação Amazônia Sustentável, instituição parceira que recebeu as atividades na capital amazonense. Representantes do Amazonas, Pará, Amapá, Mato Grosso, Maranhão e Rio de Janeiro compartilharam relatos sobre empreendimentos de energia, transporte e logística que afetam comunidades e áreas de floresta.
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Gestão da água no Brasil se aproxima do ponto de não retornoSegundo a Rede GTA, o evento buscou fortalecer a articulação entre povos tradicionais, pesquisadores e organizações que atuam na defesa dos territórios amazônicos e na cobrança por políticas públicas de redução das emissões.
Debate começou com cenário energético e ciência
A abertura reuniu Sila Apurinã, coordenadora nacional da Rede GTA, Henrique Pereira, diretor-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o INPA, e Alexandre Anderson, da Associação Homens do Mar, AHOMAR, do Rio de Janeiro.
Henrique Pereira afirmou que o crescimento das fontes eólica e solar ainda ocorre de forma adicional, sem substituir de maneira significativa a matriz baseada em petróleo, gás e derivados. O pesquisador também chamou atenção para os cortes recorrentes no orçamento da ciência, que dificultam a produção de conhecimento sobre clima, biodiversidade e impactos ambientais na região.
Durante o encontro, um painel sobre saúde relacionou a queima de combustíveis fósseis, a poluição atmosférica, as queimadas e o desmatamento ao agravamento de doenças e eventos climáticos extremos. Participaram da discussão Polari Batista Corrêa, da Fiocruz, o pneumologista André Nunes, presidente da Sociedade Paraense de Pneumologia, e o oftalmologista Paulo Sampaio, especialista em clima.
Poluição e crise climática afetam comunidades
Os especialistas explicaram que poluentes como óxidos de nitrogênio, dióxido de enxofre e material particulado podem ser emitidos por veículos, indústrias e termelétricas. Na Amazônia, esses efeitos se somam à fumaça das queimadas e às mudanças no regime de chuvas, com consequências para a saúde e para a mobilidade de populações que dependem dos rios.
Dados apresentados no painel indicaram que 44,1% da matriz energética brasileira em 2025 permanecia associada a petróleo, gás natural e derivados. Eólica e solar representariam, respectivamente, 3,1% e 2,7%. Como a fonte detalhada desses percentuais não foi informada no material original, os números precisam ser checados antes de uma publicação definitiva [CHECAR].
Também foram citadas estimativas de mais de 30 mil mortes anuais no Brasil relacionadas à poluição e de um custo econômico superior a 50 bilhões de dólares. O material ainda menciona aumento de 108% no risco de transmissão da dengue em cenários de crise climática. As estatísticas foram apresentadas pelos participantes, mas necessitam de referência documental específica [CHECAR].
Entenda o caso
O evento foi organizado pela Rede GTA para aproximar comunidades afetadas por grandes empreendimentos e organizações de defesa socioambiental. A agenda combinou escuta de moradores, formação em comunicação, cartografia de conflitos e planejamento de ações contra a expansão da indústria fóssil.
Entre os relatos, Sebastião Souza, da comunidade Vila Lira, em Coari, no Amazonas, falou sobre os impactos associados ao gasoduto da Transportadora Associada de Gás, a TAG, e às operações da Petrobras. O cacique Jonas Mura, da associação APIRA, relatou conflitos envolvendo a empresa Eneva no território Gavião Real I, em Silves.

Comunicação e monitoramento entram na agenda
A comunicação foi tratada como ferramenta de proteção. Lívia Lee, coordenadora da 350.org, a jornalista Rosiene Carvalho e Nelson Bastos, coordenador da Rede GTA Marajó, discutiram as dificuldades enfrentadas pela imprensa em áreas isoladas, onde denúncias ambientais nem sempre alcançam o público ou as autoridades.
A proposta defendida foi ampliar o protagonismo dos próprios moradores na produção e circulação de informações sobre seus territórios. Alexandre Anderson apresentou o aplicativo De Olho na Guanabara, tecnologia social criada para que pescadores registrem denúncias ambientais com fotos e geolocalização. Segundo a apresentação, a ferramenta permite o envio anônimo de informações que podem auxiliar órgãos como Ibama, ICMBio e Marinha do Brasil.
Em dinâmicas conduzidas pelo sociólogo Adilson Vieira, coordenador de articulação e parcerias da Rede GTA, os participantes mapearam problemas como contaminação da água, poluição do ar, adoecimento físico e mental e falta de consulta às comunidades. Entre as respostas discutidas estavam protocolos comunitários de consulta, monitoramento territorial, agroecologia e uso de tecnologias sociais.
Movimento cobra consulta e reparação
O principal resultado político do encontro foi o lançamento formal do Movimento dos Atingidos por Combustíveis Fósseis, o MAF, coordenado por Sila Apurinã. A declaração aprovada pelo grupo defende o cumprimento da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, com consulta prévia, livre e informada antes da implantação de empreendimentos.
O documento também reivindica a demarcação de terras indígenas e tradicionais, a reparação integral de danos ambientais, a redução progressiva de subsídios públicos à indústria fóssil e uma transição energética popular. A intenção é evitar a criação de novas zonas de sacrifício na floresta, expressão usada para territórios que concentram impactos ambientais e sociais em benefício de grandes projetos.
Outra frente de trabalho foi a formação em advocacy, termo que descreve ações organizadas de incidência sobre empresas e governos. Jayni Rasmussen, da Auto Accountability Campaign, apresentou estratégias de pressão sobre o setor de transportes e afirmou que esse segmento responde por cerca de um quarto das emissões globais de carbono.
Segundo a especialista, veículos movidos a combustão permanecem em circulação por aproximadamente 15 anos. Ela defendeu metas progressivas de eletrificação até 2040 e alertou que a expansão dos biocombustíveis para o transporte rodoviário também pode aumentar a pressão por áreas de cultivo e desmatamento.
Na etapa final, Caetano Scannavino, do Projeto Saúde e Alegria, trabalhou com Jayni Rasmussen, Sila Apurinã e Brenda Kauane em uma capacitação sobre imprensa, redes digitais e pressão institucional. O grupo elaborou um Plano e Protocolo de Responsabilidade Corporativa da Rede GTA para acompanhar grandes empreendimentos e fortalecer a defesa dos direitos territoriais.
As organizações devem agora organizar as ações do MAF, ampliar o monitoramento comunitário e levar as reivindicações a empresas, órgãos públicos e espaços de decisão sobre energia e clima.
Perguntas frequentes
O que foi o evento Amazônia em Movimento?
Foi um encontro realizado em Manaus, de 3 a 8 de agosto, pela Rede GTA, com participação de lideranças comunitárias, indígenas, ribeirinhas, pesquisadores e organizações socioambientais.
O que é o Movimento dos Atingidos por Combustíveis Fósseis?
É uma articulação lançada durante o encontro para representar comunidades afetadas por projetos ligados a petróleo, gás, transporte e outras infraestruturas fósseis.
Quais são as principais reivindicações do movimento?
O MAF defende consulta prévia às comunidades, demarcação de territórios, reparação de danos ambientais, redução de subsídios aos combustíveis fósseis e uma transição energética popular.
Com informações de Rede de Trabalho Amazônico GTA.
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