
Nas últimas décadas, a região amazônica tem sido exposta a mudanças em larga escala no uso da terra e ao aquecimento global. Como essas mudanças afetam o ciclo hidrológico da Amazônia permanece incerto, visto que os dados meteorológicos são escassos. No estudo foram usados registros de isótopos de oxigênio em anéis de árvores para confirmar que o ciclo hidrológico da Amazônia se intensificou desde 1980. Tendências isotópicas divergentes de árvores de terra firme e de várzea de locais distintos (aproximadamente 1.000 km de distância) na Amazônia Ocidental indicam que as quantidades de chuva aumentaram durante a estação chuvosa e diminuíram durante a estação seca em larga escala. Usando o modelo de destilação de Rayleigh, estimamos que a precipitação na estação chuvosa aumentou de 15 a 22% e a precipitação na estação seca diminuiu de 8 a 13%. Essas tendências divergentes fornecem evidências, independentemente dos registros climáticos existentes, de que a sazonalidade do ciclo hidrológico na Amazônia está aumentando. A continuação das tendências observadas terá um impacto generalizado nas florestas amazônicas e nos ecossistemas de várzea, e afetará fortemente os meios de subsistência das comunidades ribeirinhas regionais.


Pesquisadores identificaram mudanças marcantes no regime de chuvas da Amazônia nas últimas quatro décadas, com estações chuvosas mais úmidas e estações secas ainda mais secas. Este é um padrão que vem agravando eventos extremos de enchentes e secas (intensificação do ciclo hidrológico), com impactos sobre populações e ecossistemas na região.
O estudo foi feito por uma equipe internacional de cientistas das Universidades de Leeds e Leicester (Reino Unido) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), a partir de análises de isótopos de oxigênio contidos nos anéis de crescimento de árvores amazônicas. Os resultados foram publicados na Communications Earth and Environment.
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Ao analisar amostras de duas espécies, Cedrela odorata, também conhecida como cedro-vermelho, típica das florestas de terra firme, e Macrolobium acaciifolium, conhecida como arapari, comum em áreas alagáveis, os pesquisadores conseguiram reconstruir variações sazonais de precipitação desde 1980. A partir das análises, os dados indicaram um aumento de 15% a 22% nas chuvas da estação chuvosa e uma redução de 5,8% a 13,5% nas chuvas da estação seca. As árvores de terra firme e de várzea ficam em áreas da Amazônia Ocidental de aproximadamente 1.000 km de distância.

“Nossa análise mostra que o ciclo hidrológico da Amazônia está se tornando mais extremo, com implicações sérias para os ecossistemas da região e para as populações que dela dependem”, afirma o pesquisador da Universidade de Birmingham e coautor do estudo, Bruno Cintra, doutor em Ecologia e Mudanças Globais (Leeds/ Inglaterra) e egresso do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ecologia do Inpa, orientado pelo pesquisador Jochen Schöngart.
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A intensificação dos extremos sazonais representa uma ameaça crescente à estabilidade ambiental e social da região. De um lado, mais chuvas na estação úmida têm elevado a frequência de enchentes severas; de outro, a escassez na estação seca agrava os períodos de estiagem. Como consequência, explica Cintra, a amplitude anual da enchente, que é diferença entre o nível máximo e o nível mínimo do ano anterior, aumentou na região central da Amazônia em quase 18% no século atual (média de 11,79 metros) em comparação com o anterior (média de 10,02 metros).

O resultado é o maior valor já observado com mais de 16,7 metros, com base nos dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH) da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
“Os registros isotópicos revelam o aumento da intensidade de enchentes e secas, e com isso um aumento da amplitude entre os extremos na maior bacia hidrográfica do mundo,” explica o pesquisador do Inpa, Jochen Schöngart. “Isso é preocupante, pois afeta diretamente a segurança hídrica, alimentar e os modos de vida de milhões de pessoas, incluindo populações tradicionais e indígenas”, completa Schöngart, que é líder do projeto de Pesquisa Ecológica de Longa Duração Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (Peld/Maua).

Além dos impactos locais, o estudo tem implicações globais. A Floresta Amazônica atua como um dos principais reguladores climáticos do planeta, influenciando padrões atmosféricos e funcionando como importante sumidouro de carbono, absorvendo grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera. Pesquisas já mostram, entretanto, que o desmatamento e as queimadas estão reduzindo essa capacidade da floresta.

Segundo os autores, a metodologia baseada em isótopos permitiu captar as mudanças sazonais com mais precisão do que registros climáticos convencionais. “Esses registros de anéis de crescimento fornecem evidências independentes cruciais de que o ciclo hidrológico da Amazônia está mudando diante dos nossos olhos”, destaca a pesquisadora da Universidade de Leeds Jessica Baker. “O contraste crescente entre as estações chuvosa e seca ameaça a saúde de todo o ecossistema amazônico e das suas comunidades”.

O estudo também utilizou modelos isotópicos e análises de sensibilidade para estimar a magnitude das mudanças nas chuvas ao longo do tempo, considerando diferentes variáveis atmosféricas.
“Essas alterações afetam diretamente a agricultura, a geração de energia, a saúde pública e aumentam a mortalidade de árvores e a ocorrência de incêndios florestais,” comentam os coautores Roel Brienen e Emanuel Gloor, ambos da Universidade de Leeds.
Com a COP30 se aproximando, os autores destacam a importância de ações decisivas. Para eles, compreender como o ciclo hidrológico da Amazônia está mudando é essencial para prever cenários futuros e orientar políticas eficazes de conservação e adaptação. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas será realizada de 10 a 21 de novembro, em Belém (PA).
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