Aperema vive em igarapés e áreas alagadas, come sobretudo plantas e põe um ou dois ovos por vez

Aperema vive longe da água e usa casco achatado para atravessar o folhiço da mata úmida
Ilustração: Revista Amazônia

Tartaruga semiaquática de igarapés, lagos e matas alagadas do norte da América do Sul, o aperema come sobretudo sementes e flores e põe de um a dois ovos por postura.

O aperema (Rhinoclemmys punctularia) é um quelônio da família Geoemydidae. O Reptile Database lista, em português, os nomes aperema, jabuti-aperema, cágado e perema. Apesar do nome jabuti-aperema, não é um jabuti, família Testudinidae, de hábitos exclusivamente terrestres. Em estudo publicado em 2022 na revista Acta Amazonica, Elizângela Brito e colegas definem a espécie como semiaquática, discreta e rara na Amazônia.

Casco escuro, patas manchadas

De acordo com o Turtles of the World, base de dados do Naturalis Biodiversity Center, o aperema atinge cerca de 25 centímetros e tem carapaça elevada, marrom escura a preta. O plastrão é marrom-avermelhado a preto com borda amarela, côncavo nos machos e plano nas fêmeas. As patas dianteiras têm grandes escamas amarelas ou vermelhas com manchas pretas, e a cabeça é preta, com padrão variável no alto.

As fêmeas são maiores que os machos. Nos igarapés das bacias do Tocantins e do Tapajós, no Pará, Brito e colegas mediram carapaças de cerca de 204 milímetros nas fêmeas e 172 milímetros nos machos, em média, e massa média de 1.343 gramas nas fêmeas e 690 gramas nos machos na bacia do Tocantins. Segundo a mesma base de dados, os machos têm cauda mais longa e grossa, e a cloaca se projeta além da margem da carapaça.

Vive em águas rasas, de igarapés a lagos

O Turtles of the World indica que a espécie ocorre em quase todos os corpos de água doce da sua área de ocorrência, de lagoas e brejos a pântanos costeiros, grandes rios de savana e matas fechadas. No estudo de Brito e colegas, que acompanhou 45 aperemas durante um ano em cabeceiras do Tocantins e do Tapajós, a maioria foi capturada em igarapés de primeira ordem, e apenas 4,5% foram vistos se deslocando em terra. Alguns cursos de água atravessavam palmeirais de buriti e açaí.

Na Ilha de Algodoal-Maiandeua, no litoral do Pará, Manoela Wariss, Victoria Isaac e Juarez Pezzuti capturaram 169 aperemas em quatro tipos de ambiente, em estudo de 2012 na Revista de Biología Tropical. Os animais apareceram principalmente na mata alagada de igapó e em lagos da planície costeira, além de poças temporárias. A salinidade foi a única variável físico-química com efeito negativo significativo sobre as capturas, e os autores associam a preferência por determinados locais à disponibilidade de frutos, à correnteza baixa e à salinidade.

Na amostra de Brito e colegas, 64% das capturas ocorreram na estação seca, mas as taxas de captura não diferiram de modo significativo entre as épocas. Os autores atribuem isso em parte ao período prolongado de desova e ao nível estável da água nas cabeceiras. As capturas foram baixas, o que reforça a visão de que a espécie é discreta e rara.

Dieta com predomínio de plantas

O aperema é onívoro e, segundo o Turtles of the World, se alimenta na água e em terra. No estudo de Brito, as amostras de dieta vieram de dez fezes e um regurgito, todos da bacia do Tocantins. Predominou material vegetal: sementes de Myrtaceae apareceram em cerca de 91% das amostras, sementes de ingá (Inga) em cerca de 82% e flores em cerca de 36%. Escamas de peixe surgiram apenas no regurgito. Os autores sugerem uma espécie onívora com tendência à herbivoria, ressalvando que a amostra é pequena.

Poucos ovos por postura

De acordo com o Turtles of the World, a espécie pode se reproduzir durante o ano todo e faz várias posturas, cada uma com um a dois ovos brancos, alongados e de casca frágil, de 52 a 75 milímetros de comprimento por 30 a 37 de largura. Os ovos são depositados sob raízes de árvores ou sob vegetação, e o acasalamento pode ocorrer na água ou fora dela.

Para o Pará, Brito e colegas citam, com base em Vogt (2008) e Cunha e colegas (2019), um período de desova intermitente, aproximadamente em março e abril e de setembro a dezembro. Os pesquisadores observam que o número relativamente pequeno de jovens em suas amostras exige novos estudos para saber se o recrutamento é baixo.

Onde ocorre

Segundo o Reptile Database, a subespécie nominal R. p. punctularia ocorre no leste da Colômbia, na Venezuela, em Trinidad e Tobago, nas Guianas e no nordeste do Brasil, com registros no Tocantins, Pará, Amazonas, Roraima, Bahia, Maranhão e Rio de Janeiro. A localidade-tipo é Caiena, na Guiana Francesa. A segunda subespécie, R. p. flammigera, vive no sul da Venezuela, perto da confluência dos rios Ventuari e Orinoco.

Pesquisas como as de Algodoal e das cabeceiras do Tocantins e do Tapajós associam a presença do aperema a água de baixa correnteza e baixa salinidade e à disponibilidade de frutos, e deixam claro que ainda se conhece pouco sobre densidade populacional, reprodução e dieta na Amazônia. Esse conjunto de lacunas é o principal ponto em aberto sobre a espécie.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA