Arara que sumiu do litoral brasileiro há quase 200 anos volta a nascer na Mata Atlântica da Bahia e surpreende pela rapidez

Arara que sumiu do litoral brasileiro há quase 200 anos volta a nascer na Mata Atlântica da Bahia e surpreende pela rapidez
Araras-vermelhas-grandes (Ara chloropterus). Foto: Charles J. Sharp, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Quando Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei de Portugal sobre a terra recém-avistada, em 1500, descreveu papagaios vermelhos, muito grandes e formosos. Eram, muito provavelmente, araras-vermelhas-grandes. Séculos de desmatamento e captura levaram a espécie a desaparecer de todo o litoral brasileiro. Em 2026, ela voltou a nascer na Mata Atlântica: dois filhotes foram confirmados no sul da Bahia, quase 200 anos depois da extinção da ave no bioma.

O nascimento foi registrado pelo Projeto de Reintrodução da Arara-vermelha-grande na Mata Atlântica, iniciado em 2022 pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama em Porto Seguro.

De onde vieram as araras

As aves usadas no projeto não vieram da natureza. São animais de cativeiro, parte doados por particulares e parte apreendidos em ações contra o tráfico de animais silvestres. Ao chegar ao centro, cada arara recebe microchip e anilha de metal, passa por quarentena, exames clínicos, avaliação de comportamento e testes sanitários.

Depois disso, as aves vão para viveiros de voo, onde treinam musculatura, reconhecimento de alimentos naturais e comportamentos de fuga antes de encarar a floresta de verdade. Só então são soltas.

Uma floresta para recomeçar

O local escolhido para as primeiras solturas foi um fragmento de Mata Atlântica com cerca de 7 mil hectares em estágio avançado de regeneração, que inclui a Estação Veracel, a maior Reserva Particular do Patrimônio Natural do bioma no Nordeste, em Porto Seguro. Caixas-ninho foram instaladas para compensar a falta de árvores velhas com ocos grandes, que as araras usam para criar os filhotes.

Mais rápido do que o esperado

O primeiro grupo foi solto em 2024. Estudos indicam que aves reintroduzidas podem levar até cinco anos para começar a se reproduzir, mas no primeiro ano algumas caixas-ninho já estavam ocupadas. Em 2026, casais passaram a defender os ninhos, um sinal claro de comportamento reprodutivo.

A equipe preferiu acompanhar de longe, para não assustar os pais. Depois, confirmou o nascimento de dois filhotes, que já foram vistos voando, sendo alimentados pelos adultos e começando a buscar comida por conta própria.

A coordenadora do projeto, a analista ambiental do Ibama Ligia Ilg, lembra que aves criadas em cativeiro conseguem recuperar o comportamento natural. Antes das araras, o mesmo trabalho já tinha registrado reprodução na natureza de papagaios-do-mangue e periquitos-rei vindos de cativeiro.

Por que a volta importa

A arara-vermelha-grande ainda existe em boa parte do país, com populações concentradas no Centro-Oeste e no Norte, em áreas como o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia. O que se perdeu foi a presença dela no litoral, onde a Mata Atlântica foi reduzida a uma fração do tamanho original.

Grandes araras são dispersoras de sementes. Elas quebram frutos duros, carregam sementes para longe e ajudam a renovar a floresta. Trazer a espécie de volta ao litoral recupera uma função ecológica que estava faltando há gerações. A experiência também mostra um destino possível para animais resgatados do tráfico, que muitas vezes passam a vida em cativeiro por falta de alternativa.

Um bioma que perdeu seus grandes bichos

A arara-vermelha-grande não é a única espécie que sumiu do litoral. A Mata Atlântica perdeu ou viu quase desaparecer animais grandes como a anta, a onça-pintada, o queixada e o mutum em muitas regiões. Projetos de reintrodução, como os de mutuns em Alagoas e Minas Gerais e de antas no Rio de Janeiro, tentam devolver essas peças à floresta. Cada espécie que volta ajuda a recuperar processos como a dispersão de sementes grandes, que poucas aves e mamíferos conseguem fazer.

O que ainda falta

Dois filhotes são um começo. Para formar uma população capaz de se manter sozinha, o projeto precisa de novas solturas, mais reprodução nos próximos anos e proteção contra a principal ameaça que eliminou a ave do litoral: a captura ilegal para o comércio de animais. O monitoramento continua, e cada nova temporada de ninhos vai mostrar se a volta da arara-vermelha-grande à Mata Atlântica veio para ficar.

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