
Algumas árvores tropicais fazem um acordo antigo com formigas. Elas produzem caules ocos onde as formigas podem morar e ainda oferecem alimento, em pequenos corpos nutritivos. Em troca, as formigas atacam lagartas e outros insetos que tentam comer as folhas. Na Macaranga, um gênero de árvores de Bornéu, essa parceria existe há pelo menos 10 milhões de anos.
Agora, pesquisadores encontraram sinais de que ela está sendo rompida. Em vez de formigas, vespas predadoras estão ocupando as câmaras da planta e transformando os ocos em berçários abastecidos com moscas paralisadas.
Ocos cheios de moscas comidas vivas
A descoberta foi publicada na revista científica PeerJ por uma equipe internacional da Universidade Queen Mary de Londres, do Jardim Botânico Real de Kew, do Centro de Biologia da Academia de Ciências da República Tcheca e de outras instituições.
Os cientistas examinaram árvores jovens de Macaranga pearsonii em florestas que já passaram por exploração de madeira e em plantações de dendê, na parte malaia de Bornéu. Durante o levantamento, um dos pesquisadores notou caules escavados de um jeito diferente. Quando os abriram, estavam cheios de moscas sendo devoradas vivas por larvas de vespa.
As vespas adultas caçam e paralisam as moscas, depois as guardam dentro das cavidades da planta como alimento para os filhotes. A casa que a árvore construiu para as formigas virou despensa de outro inquilino.
Mais vespas onde o homem mexeu mais
A ocupação pelas vespas estava fortemente ligada a ambientes alterados. Plantas que cresciam em plantações de dendê tinham muito mais chance de abrigar vespas do que as de floresta explorada. E as árvores com vespas tinham colônias de formigas bem menores.
O padrão sugere que as vespas podem estar expulsando as formigas, mas os pesquisadores dizem que só experimentos vão confirmar se isso está acontecendo. Também não se sabe se a vespa é nativa da região ou introduzida. O que está claro é que a expansão dela acompanha a paisagem perturbada.
Por que isso importa
Espécies de Macaranga estão entre as primeiras plantas a crescer em áreas abertas, como clareiras e bordas de floresta. Têm papel importante na recuperação da mata depois de cortes e queimadas. Se perderem as formigas guarda-costas, podem ficar mais expostas aos insetos que comem folhas, e a regeneração da floresta pode ser afetada.
Para os pesquisadores, é exatamente o tipo de mudança que se espera quando o ser humano transforma habitats: relações antigas entre espécies se desfazem de formas que ninguém previa.
A versão brasileira: embaúba e formigas
O Brasil tem um exemplo famoso do mesmo tipo de aliança. A embaúba, árvore do gênero Cecropia comum em beiras de estrada e clareiras da Amazônia e da Mata Atlântica, tem tronco oco e segmentado onde vivem formigas do gênero Azteca. A planta produz pequenos corpos nutritivos na base das folhas, e as formigas defendem a árvore contra herbívoros e até contra cipós que tentam se enrolar nela.
Quem já encostou numa embaúba pode ter sentido o ataque. Como a Macaranga, a embaúba é uma pioneira, das primeiras a ocupar áreas desmatadas.
Perguntas frequentes
O que é uma planta-formiga?
É uma planta que oferece abrigo e alimento a formigas, que em troca a defendem de insetos e outros herbívoros.
A embaúba tem formigas?
Sim. Muitas embaúbas abrigam formigas do gênero Azteca dentro do tronco oco.
Com informações da Universidade Queen Mary de Londres, do Jardim Botânico Real de Kew e do estudo publicado na PeerJ.
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