Armadilhas fotográficas registram por seis minutos o acasalamento de macho pintado e fêmea onça-preta na Amazônia, e lactação sugere pseudoestro

Armadilhas fotográficas registram por seis minutos o acasalamento de macho pintado e fêmea onça-preta na Amazônia, e lactação sugere pseudoestro
Ilustração: Revista Amazônia

Registro inédito mostra cortejo e cópula entre duas formas de uma mesma espécie e pode ampliar o conhecimento sobre a proteção de filhotes

Seis minutos diante das câmeras

O registro começa como uma cena rara da vida selvagem amazônica: um macho de onça-pintada se aproxima de uma fêmea de pelagem quase totalmente escura, realiza o cortejo e acasala com ela diante de armadilhas fotográficas. A gravação dura seis minutos e mostra, em sequência, o encontro entre os dois animais. O macho tem a coloração amarelada com manchas, conhecida popularmente como onça-pintada. A fêmea é uma onça-preta, nome usado para identificar indivíduos melanísticos, que apresentam uma condição genética capaz de escurecer intensamente a pelagem.

As imagens foram divulgadas em 8 de setembro de 2025 e chamaram a atenção porque documentam um comportamento pouco observado em condições naturais. O biólogo Carlos Peres, professor da Universidade East Anglia, no Reino Unido, relatou que os animais poderiam ter se deslocado apenas alguns metros e desaparecido do campo de visão das câmeras. A distância curta entre o registro completo e a perda da cena mostra como encontros desse tipo dependem de uma combinação entre a presença do equipamento e a movimentação dos felinos. O episódio não apresenta duas espécies diferentes, mas duas formas de aparência da onça-pintada, o maior felino das Américas.

Uma fêmea escura no centro do encontro

A característica que mais se destaca no vídeo é o contraste entre os animais. O macho aparece com a pelagem pintada, enquanto a fêmea tem o corpo escurecido pelo melanismo. Mesmo nas onças-pretas, as manchas não deixam necessariamente de existir. Elas podem permanecer sob o fundo escuro da pelagem e ser percebidas conforme a incidência da luz. O melanismo, portanto, altera a aparência do animal, mas não transforma a fêmea em outra espécie. Os dois indivíduos pertencem à espécie Panthera onca, a onça-pintada, que ocorre em diferentes ambientes das Américas.

O cortejo e a cópula foram captados por armadilhas fotográficas instaladas na Amazônia, tecnologia usada para acompanhar animais sem a presença contínua de observadores. Em vez de depender de uma pessoa no local, o equipamento registra a passagem ou a permanência dos indivíduos diante da câmera. Neste caso, essa estratégia permitiu acompanhar uma sequência de seis minutos, e não apenas uma imagem isolada. A gravação mostra o comportamento reprodutivo entre um macho pintado e uma fêmea melanística, mas o fato mais intrigante surgiu na condição corporal observada pelos pesquisadores: havia sinais de lactação na fêmea durante o encontro.

A lactação e a hipótese do pseudoestro

A presença de sinais de lactação levantou uma interpretação sobre o comportamento da fêmea. Segundo os pesquisadores, ela poderia estar em um pseudoestro, situação em que uma fêmea copula mesmo quando há filhotes sob seus cuidados. A hipótese é que esse comportamento ajude a confundir a paternidade e, dessa forma, reduza o risco de ataques dos machos aos filhotes. A lactação, sozinha, não transforma essa explicação em uma certeza sobre o que aconteceu naquele momento. Ela é um indício que torna o episódio relevante para o estudo da reprodução e das estratégias de proteção usadas pelas onças.

O possível pseudoestro acrescenta uma camada de comportamento ao vídeo. A gravação não serve apenas para mostrar o acasalamento entre um macho de coloração comum e uma fêmea melanística. Ela também oferece uma oportunidade de observar uma condição reprodutiva associada à lactação e de discutir como as fêmeas podem lidar com a presença de machos. A interpretação precisa permanecer como hipótese, porque o registro visual não revela sozinho a situação dos filhotes, a paternidade ou o resultado posterior do encontro. Ainda assim, o caso ajuda a ampliar o conhecimento sobre decisões comportamentais que acontecem longe da observação humana direta.

Um registro ligado à conservação da espécie

O Brasil abriga a maior população de onças-pintadas do mundo, estimada em cerca de dez mil indivíduos, e mais da metade dessa população está na Amazônia. Esse número não significa que a espécie esteja protegida em todos os lugares onde ocorre. A onça-pintada já desapareceu de muitos habitats e continua ameaçada em outros. Na Mata Atlântica, por exemplo, restam entre 250 e 300 animais. A diferença entre a situação amazônica e a de outros biomas reforça a importância de informações sobre comportamento, reprodução e uso do ambiente para orientar medidas de conservação.

Flagrantes como o vídeo ajudam a preencher uma parte desse conhecimento. Um encontro de seis minutos pode revelar a aparência dos indivíduos, a sequência do cortejo, a cópula e sinais corporais que abrem hipóteses sobre a proteção de filhotes. O depoimento de Thomas Luypaert, da Universidade Norueguesa de Ciências da Vida e autor do artigo publicado na revista Ecology and Evolution, destaca que cada informação sobre o comportamento das onças pode contribuir para protegê-las melhor. A origem da história é o registro feito por armadilhas fotográficas, divulgado em 8 de setembro de 2025 pela publicação Brasil Amazônia Agora. Na floresta, uma cena quase perdida entre poucos metros e alguns minutos pode ampliar a compreensão necessária para manter esse predador nos ambientes onde ainda vive.

Com informações de Brasil Amazônia Agora.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA