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Desmatamento na Amazônia não gera desenvolvimento, aponta IPS 2026

Fumaça de queimadas custa R$ 17,6 milhões anuais ao SUS na Amazônia

Fumaça de queimadas custa R$ 17,6 milhões anuais ao SUS na Amazônia
Foto: acervo

Estudo inédito revela o impacto financeiro da poluição na saúde e acende alerta para a região amazônica com novo El Niño.

Imagine só: a cada ano, milhões de reais do nosso Sistema Único de Saúde (SUS) são gastos para tratar pessoas que respiraram ar contaminado pela fumaça das queimadas. Um estudo recente da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) trouxe à luz essa dura realidade, revelando que a poluição gerada por incêndios na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional causa um custo médio anual de R$ 17,6 milhões ao SUS.

Essa quantia astronômica cobre internações por doenças cardiorrespiratórias diretamente associadas à fumaça das queimadas, entre os anos de 2010 e 2021. O trabalho, liderado por Maria Gabrielle Cerqueira Correa no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) da Unemat, sob orientação da professora Eliane Ignotti, mostra como o fogo na floresta afeta diretamente a saúde pública e o bolso do contribuinte.

Metodologia que conecta fumaça e saúde

Para chegar a esses números, os pesquisadores realizaram um cruzamento minucioso de dados. Eles uniram informações sobre internações do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/DataSUS) com dados de exposição ao material particulado fino, conhecido como PM2,5, obtidos pelo Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS). O PM2,5 é composto por partículas tão pequenas que conseguem penetrar profundamente nos nossos pulmões e alcançar a corrente sanguínea, causando estragos.

A metodologia utilizada seguiu rigorosas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), permitindo estimar com precisão a parcela de hospitalizações que pode ser atribuída especificamente à fumaça da queima de vegetação. Além da Unemat, o estudo contou com a colaboração de pesquisadores da Fiocruz, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Arco do Desmatamento paga a conta mais alta

O estudo aponta que as maiores despesas e, consequentemente, os maiores impactos na saúde, estão concentrados nos municípios que compõem o Arco do Desmatamento. Essa região, infelizmente, é conhecida pelo avanço da fronteira agropecuária, pela forte pressão sobre a floresta e pela alta incidência de queimadas de origem humana.

Segundo a pesquisa, entre os anos analisados, 2010 foi o período mais crítico. Naquele ano, 18,5% dos 1.134 municípios avaliados registraram frações atribuíveis superiores a 10%, o que significa que mais de um décimo das internações cardiorrespiratórias nesses locais foi diretamente relacionado à exposição à fumaça. Municípios como Vila Rica (35%), Confresa (33,5%), Porto Alegre do Norte (32,9%) e Canabrava do Norte (32%), todos em Mato Grosso, sofreram drasticamente. No Pará, Santana do Araguaia também se destacou, com 34,9% das internações ligadas às queimadas.

Segundo o estudo da Unemat, a poluição gerada por queimadas e incêndios florestais na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional provoca um custo médio anual de cerca de R$ 17,6 milhões ao SUS, referente a internações entre 2010 e 2021.

O custo silencioso do desmatamento

Os pesquisadores classificam os gastos hospitalares como uma “externalidade negativa” do desmatamento e das queimadas. Em termos simples, isso significa que os custos sociais e de saúde gerados pela degradação ambiental acabam sendo arcados pelo poder público e pela população que vive sob a fumaça, enquanto os benefícios econômicos dessas atividades degradadoras ficam apenas com quem as promove. É uma conta que não fecha, e quem paga é a saúde de todos.

A exposição ao PM2,5, presente abundantemente na fumaça das queimadas, está associada ao agravamento de diversas doenças, como asma, bronquite, pneumonia e problemas cardiovasculares. Em períodos de seca e fogo intenso, a rede pública de saúde fica sobrecarregada, atendendo a um número crescente de pacientes com essas condições.

El Niño e o alerta para 2026

Os resultados do estudo ganham ainda mais urgência diante de uma perspectiva preocupante para o segundo semestre de 2026. Uma nota técnica conjunta do Inpe, Inmet, Censipam e Funceme indica uma probabilidade superior a 80% do estabelecimento da fase positiva do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) no período. O El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, costuma mudar o regime de chuvas no Brasil, reduzindo a umidade nas regiões Norte e Centro-Oeste e criando um cenário propício para estiagens prolongadas e, consequentemente, para incêndios florestais.

Mato Grosso, um dos estados mais afetados historicamente pelas queimadas, já tem cicatrizes recentes. Em 2020, o Pantanal, que abrange parte do estado, teve cerca de 30% de sua área consumida pelo fogo. Em 2024, o estado enfrentou a maior seca de sua história recente e liderou o ranking nacional de focos de incêndio em agosto, com mais de 13,6 mil registros em apenas 30 dias. Embora 2025 tenha apresentado uma redução significativa nos focos, impulsionada por chuvas e fiscalização ambiental mais robusta, a possível chegada do El Niño reacende o alerta para a combinação perigosa entre crise climática, desmatamento, fogo e as consequências diretas na saúde pública.

Para os autores da pesquisa, quantificar o custo da fumaça das queimadas em valores monetários é um passo fundamental. Isso não só dimensiona o peso dos incêndios florestais sobre o SUS, mas também pode e deve orientar políticas públicas de prevenção mais eficazes. A mensagem é clara: combater o desmatamento e reduzir as queimadas não é apenas uma estratégia ambiental, mas também uma medida crucial de proteção à saúde e de economia nos gastos hospitalares para os municípios da Amazônia e do Cerrado.

O artigo completo, intitulado “Custos das hospitalizações como impacto da poluição atmosférica por queimadas e incêndios florestais na Amazônia Legal e Cerrado setentrional no Brasil (2010-2021)”, está disponível na revista International Journal of Environmental Research and Public Health, e os próximos desdobramentos da pesquisa prometem detalhar ainda mais os caminhos para um futuro mais sustentável e saudável.

Perguntas Frequentes

Qual o custo anual da fumaça das queimadas para o SUS?

O estudo da Unemat estima um custo médio anual de R$ 17,6 milhões ao Sistema Único de Saúde (SUS) devido às internações por doenças cardiorrespiratórias associadas à fumaça das queimadas entre 2010 e 2021.

Quais regiões são as mais afetadas?

Os custos mais elevados e os maiores impactos na saúde estão concentrados nos municípios do Arco do Desmatamento, como Vila Rica e Confresa em Mato Grosso, e Santana do Araguaia no Pará.

Como o fenômeno El Niño pode influenciar este cenário?

O El Niño pode agravar a situação ao reduzir a umidade no Norte e Centro-Oeste do Brasil, criando condições mais favoráveis para estiagens prolongadas e, consequentemente, para um aumento nos incêndios florestais.

Com informações de Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).

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