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Cinco aves entraram em uma floresta após 22 anos, mas havia um perigo que elas não sabiam reconhecer

Quando cinco aves negras deixaram um viveiro e entraram na floresta de Maui, no Havaí, o momento representou mais do que uma simples soltura.

Nenhum ʻalalā, nome havaiano do corvo-do-havaí, vivia livre na natureza desde 2002. Os cinco animais nasceram sob cuidados humanos, receberam alimento de tratadores e cresceram sem enfrentar diretamente os perigos que levaram sua espécie ao desaparecimento.

Antes de abrir as portas do viveiro, portanto, os pesquisadores precisaram trabalhar em um problema incomum: como preparar uma ave inteligente para sobreviver em um mundo que ela nunca conheceu?

A resposta envolveu convivência em grupo, busca autônoma por alimentos, reconhecimento de predadores e meses de observação. Mesmo depois da soltura, o retorno definitivo da espécie ainda depende de algo mais difícil: os pássaros precisam formar uma população capaz de viver e se reproduzir sem ajuda humana.

A espécie desapareceu, mas aproximadamente 100 aves sobreviveram

O ʻalalā, de nome científico Corvus hawaiiensis, existia originalmente nas florestas da Ilha Grande do Havaí.

Perda de habitat, doenças e animais introduzidos por seres humanos reduziram progressivamente sua população. No final da década de 1990, restavam menos de 20 indivíduos. Em 2002, a espécie passou a ser considerada extinta na natureza.

Ela não desapareceu completamente porque alguns exemplares haviam sido levados para centros especializados em reprodução.

Desde 1996, o programa de conservação acompanha os ninhos, utiliza incubação artificial quando necessário e cria filhotes que não seriam alimentados adequadamente pelos próprios pais. Esse trabalho permitiu formar uma população mantida sob cuidados humanos.

A existência dessas aves evitou a extinção total, mas criou uma nova dificuldade. Animais criados em ambientes controlados não acumulam necessariamente as mesmas experiências de um pássaro que aprende a sobreviver ao lado dos pais.

Os cinco precisaram aprender a funcionar como um grupo

Os indivíduos escolhidos para a soltura foram duas fêmeas e três machos, todos com aproximadamente um ano e meio.

Eles permaneceram juntos antes da liberação para desenvolver laços sociais. Os especialistas também avaliaram a capacidade de procurar alimentos, reagir a ameaças e manter uma condição física adequada. Exames veterinários foram realizados antes da transferência para a floresta.

Essa preparação é especialmente importante porque os corvos estão entre as aves reconhecidas pela capacidade de aprendizagem, resolução de problemas e comunicação.

Na natureza, a sobrevivência não depende apenas de voar ou encontrar frutos. Uma ave precisa interpretar chamados de alerta, acompanhar outros indivíduos, reconhecer áreas seguras e decidir rapidamente quando permanecer no local ou fugir.

Para animais que nunca viveram livres, parte desse conhecimento precisa ser estimulada antes da soltura e desenvolvida depois dela.

Uma tentativa anterior revelou um inimigo decisivo

A liberação realizada em Maui não foi o primeiro esforço para devolver o ʻalalā à natureza.

Entre 2016 e 2020, cerca de 30 aves foram introduzidas na Reserva Florestal Natural de Puʻu Makaʻala, na Ilha Grande do Havaí. O projeto registrou avanços, incluindo formação de grupos e comportamentos de nidificação.

Entretanto, a população começou a diminuir. As aves restantes foram recolhidas novamente para ambientes protegidos.

Um dos principais problemas foi a predação pelo ʻio, o gavião-do-havaí. Para uma ave criada sob cuidados humanos, identificar um predador aéreo e reagir no momento certo pode definir a diferença entre sobreviver e desaparecer.

Essa experiência ajudou a explicar a escolha de Maui para a nova tentativa.

Por que levar uma ave da Ilha Grande para Maui?

Os cinco ʻalalā foram soltos na Reserva Florestal de Kīpahulu, nas encostas do vulcão Haleakalā, em novembro de 2024.

Embora a população conhecida mais recentemente fosse originária da Ilha Grande, evidências encontradas em registros antigos indicam que corvos havaianos relacionados também habitaram Maui. A ilha possui vegetação semelhante à encontrada no território original do ʻalalā e apresenta uma vantagem decisiva: o ʻio não ocorre ali.

A escolha não eliminou todos os riscos. Maui possui outros animais introduzidos, doenças aviárias e ambientes transformados pela ocupação humana.

O local, porém, ofereceu aos pesquisadores a oportunidade de testar se os corvos conseguiriam desenvolver comportamentos naturais sem enfrentar imediatamente o predador responsável por parte das perdas anteriores.

Meses depois, eles começaram a agir como aves selvagens

Em junho de 2025, o Departamento de Terras e Recursos Naturais do Havaí informou que os cinco animais estavam ampliando sua área de exploração e apresentando comportamentos considerados promissores.

Eles buscavam alimentos naturais, movimentavam-se pela floresta e chegaram a demonstrar interesse pela construção de ninhos. A equipe continuava acompanhando o grupo diariamente, sem impedir que as aves tomassem suas próprias decisões.

O resultado era importante porque permanecer vivo durante os primeiros meses não representa, sozinho, uma reintrodução bem-sucedida.

Para que a espécie deixe de depender dos centros de reprodução, os animais precisam escolher parceiros, construir ninhos, produzir filhotes e transmitir a eles os comportamentos necessários para viver na floresta.

Em novembro de 2025, um novo macho e uma nova fêmea foram transferidos para o viveiro de campo usado na preparação do primeiro grupo. O movimento indicava a intenção de ampliar gradualmente o número de aves, sem realizar uma soltura numerosa de uma só vez.

A ave também pode ajudar a floresta a retornar

O ʻalalā não é importante apenas por representar uma espécie encontrada em nenhum outro lugar do planeta.

Ao comer frutos e deslocar sementes, ele participa da regeneração da vegetação nativa. Quando uma ave com esse comportamento desaparece, determinadas plantas podem perder um dos animais responsáveis por transportar suas sementes para novos locais.

Seu retorno, portanto, não significa apenas colocar pássaros novamente entre as árvores. Ele pode restaurar relações ecológicas que permaneceram interrompidas durante décadas.

Existe ainda uma dimensão cultural. Para integrantes da cultura havaiana, o ʻalalā está ligado aos ancestrais e é reconhecido como um guardião espiritual. Antes da soltura, as aves receberam uma bênção e foram acompanhadas por pessoas que haviam participado de sua criação.

A porta aberta foi apenas o começo

A imagem de cinco aves deixando um viveiro produz a impressão de que a espécie já foi salva.

Na conservação, porém, a soltura é apenas uma das etapas.

O verdadeiro sucesso acontecerá quando houver várias gerações nascidas na floresta, capazes de encontrar alimentos, evitar perigos e criar seus próprios filhotes sem depender dos tratadores.

Os cinco ʻalalā que entraram em Kīpahulu carregavam algo que nenhuma ave de sua espécie possuía havia 22 anos: a oportunidade de reaprender a viver em liberdade.

Agora, cada voo, alimento encontrado e galho reunido para um possível ninho ajuda a responder se uma espécie pode recuperar, em poucas gerações, os conhecimentos que quase desapareceram com ela.

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