Aruá é caramujo que respira com pulmão e brânquias, usa sifão até a superfície e sobrevive à seca

Aruá respira com pulmão e brânquias, usa sifão até a superfície e sobrevive à seca
Ilustração: Revista Amazônia

Caramujo de água doce do gênero Pomacea, o aruá combina brânquias e pulmão para respirar na água e no ar, resiste à seca e põe os ovos acima da linha d’água.

O aruá é um caramujo de água doce do gênero Pomacea, da família Ampullariidae, e combina brânquias e uma cavidade pulmonar para retirar oxigênio da água e do ar. Enquanto permanece submerso, as brânquias participam das trocas gasosas; quando a água perde oxigênio ou recua, o caramujo estende um sifão até a superfície e renova o ar do pulmão.

Esse mecanismo permite que o animal continue ativo em ambientes sujeitos à seca sazonal. A mesma dependência de águas rasas e temporárias influencia sua reprodução: a maioria das espécies de Pomacea sobe acima da linha d’água para depositar os ovos, longe do alcance dos predadores aquáticos. Assim, respiração e reprodução funcionam em conjunto durante a transformação do lago.

Como o aruá combina brânquias e pulmão

As brânquias do aruá funcionam como superfícies de troca gasosa dentro da água. O oxigênio dissolvido passa para o sangue, enquanto o gás carbônico segue no sentido oposto. Esse sistema é suficiente quando a água contém oxigênio em quantidade adequada. Segundo o portal Planeta Invertebrados, com tradução do malacologista Fábio André Faraco, os ampularídeos possuem pulmão e brânquias, e o site applesnail.net explica que essa combinação é uma adaptação a águas pobres em oxigênio, comuns em pântanos e áreas rasas.

O pulmão acrescenta outra possibilidade. Ao alcançar a superfície, o caramujo capta ar atmosférico e realiza trocas gasosas no interior dessa estrutura. A combinação não elimina o papel das brânquias, mas permite alternar ou associar as duas formas de respiração conforme as condições do ambiente. Em águas quentes, rasas ou paradas, essa capacidade reduz a dependência exclusiva do oxigênio dissolvido.

O sifão mantém o acesso ao ar atmosférico

O sifão é uma dobra do manto, na região esquerda do pescoço, que se transforma em um tubo flexível quando o caramujo precisa renovar o ar. De acordo com o Planeta Invertebrados, ele se desfaz quando o animal está submerso e respirando pelas brânquias. Com o tubo estendido, o aruá consegue chegar ao ar sem sair do fundo ou das plantas aquáticas onde está.

Esse comportamento é especialmente importante em lagoas e áreas alagadas que diminuem durante períodos secos. A água pode ficar mais quente e concentrar matéria orgânica em decomposição, processos que reduzem o oxigênio disponível. Ao usar o sifão para captar ar, o aruá continua respirando mesmo quando as brânquias deixam de atender plenamente às necessidades do organismo.

O pulmão ajuda o caramujo durante a redução do lago

Quando o nível da água cai, a distância entre o fundo e a atmosfera diminui, mas as condições para a respiração aquática podem piorar. O aruá responde a essa mudança levando ar à cavidade pulmonar. A ventilação aérea passa a ter papel central, enquanto as brânquias continuam úteis sempre que ainda existe água ao redor do corpo.

Se a água some de vez, o caramujo pode se enterrar. Segundo o Planeta Invertebrados, durante a estiagem os ampularídeos penetram no sedimento e entram em dormência, com a concha fechada pelo opérculo, uma espécie de porta que veda a abertura. Essa estivação reduz o metabolismo e permite esperar o retorno das chuvas sem depender de um lago profundo durante toda a estação seca.

Ovos acima da água, coloridos e bem defendidos

A reprodução do aruá também está associada a ambientes sujeitos à seca. O site applesnail.net, dedicado à biologia dos ampularídeos, informa que a maioria das espécies de Pomacea sobe acima da linha d’água para depositar os ovos em vegetação, rochas ou no chão, a cerca de 5 a 80 centímetros da superfície, em massas com 100 a 1.000 ovos que eclodem em poucas semanas. A posição afasta os ovos do espaço ocupado por peixes e outros predadores aquáticos.

Os ovos têm defesa química. Em estudo publicado em 2013 na revista PLoS ONE, Dreon e colegas, que trabalharam com Pomacea canaliculata, conhecida como aruá-do-banhado, descrevem massas de ovos cimentadas fora da água e de cor viva, com apenas um predador registrado no mundo, a formiga Solenopsis geminata. A proteína ovorrubina dá a cor avermelhada e reduz a digestibilidade dos ovos, enquanto uma segunda proteína, a PcPV2, age como neurotoxina em quem os come. A cor funciona como aviso aos predadores de visão.

A estratégia não significa que a reprodução deixe de depender da água. Ela apenas desloca a desova para um ponto em que o risco de predação aquática é menor e o desenvolvimento pode prosseguir com mais proteção.

Respiração e reprodução respondem ao mesmo ambiente

No aruá, a respiração aérea e a escolha do local de desova podem ser entendidas como respostas ao mesmo tipo de pressão ambiental. Lagoas temporárias oferecem alimento e abrigo, mas também apresentam oscilações rápidas de profundidade, temperatura e oxigênio. O caramujo usa o pulmão quando a água se torna pobre em oxigênio e deposita os ovos fora da água para reduzir o risco sobre a ninhada.

Essa combinação aumenta a possibilidade de permanecer no ambiente durante a transição entre cheia e seca. As brânquias sustentam a vida aquática, o sifão garante contato com a atmosfera, o opérculo e o barro protegem o adulto na estiagem e a desova acima da água protege a nova geração. Cada mecanismo atua em uma etapa, mas todos dependem da mesma capacidade de acompanhar a mudança física do lago.

O aruá conecta a água do lago ao ar da superfície

O comportamento do aruá altera a forma como ele usa o espaço do lago. O caramujo pode permanecer no fundo ou entre plantas aquáticas e, ao mesmo tempo, manter acesso periódico à superfície por meio do sifão. Essa movimentação cria uma ligação funcional entre a água, o sedimento e o ar, três partes do ambiente que mudam de maneira diferente durante a seca.

O aruá também faz parte da cadeia alimentar desses locais. O applesnail.net lista, entre os predadores dos ampularídeos, aves caramujeiras, peixes, tartarugas e o ser humano. Para se defender, os caramujos retraem-se na concha e, ao detectar o odor de predadores, podem se soltar e se enterrar.

O aruá torna visível uma regra dos ambientes sazonais: sobreviver não significa resistir a uma única dificuldade, mas combinar respostas para problemas que aparecem ao mesmo tempo. O caramujo respira na água e no ar, alcança a superfície por um sifão, se enterra na seca e leva a desova para fora da água. Quando o lago encolhe, essas soluções preservam mais do que um indivíduo: mantêm uma linhagem ligada ao ritmo de cheias e secas.

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