Besouros que não voam revelam uma viagem de 180 milhões de anos entre América do Sul e África

Besouros que não voam revelam uma viagem de 180 milhões de anos entre América do Sul e África
Foto: Divulgação

DNA indica que a separação dos continentes, e não uma travessia pelo oceano, explica a distribuição desses insetos.

Besouros-tigre gigantes encontrados na América do Norte parecem ter parentes próximos na América do Sul e no sul da África, embora não possam voar nem nadar. A solução para esse aparente paradoxo está em um passado anterior ao oceano Atlântico: uma análise de DNA indica que o grupo surgiu quando América do Sul e África ainda faziam parte de Gondwana, o supercontinente que depois se fragmentou.

O estudo foi conduzido por Grey Gustafson, professor associado do Departamento de Ciências Biológicas da Northern Arizona University, nos Estados Unidos, com colaboradores. Os resultados foram publicados em 2026 na revista científica Proceedings of the Royal Society B e ajudam a reconstruir uma linhagem de insetos cuja distribuição atual foi moldada pela separação dos continentes.

O parentesco que não combinava com o mapa

A investigação começou com dois grupos do oeste dos Estados Unidos. Um deles pertence ao gênero Amblycheila, conhecido como besouros-tigre gigantes. O outro é do gênero Omus, formado por besouros-tigre de hábitos noturnos, que perseguem suas presas no escuro.

A hipótese anterior colocava os dois grupos na tribo Manticorini, que também reúne besouros grandes e incapazes de voar encontrados no Hemisfério Sul. O problema era geográfico. A maior parte dos representantes vive na África subsaariana, enquanto um parente próximo está na América do Sul. Como animais sem asas teriam atravessado o Atlântico?

Em vez de procurar uma rota improvável pelo oceano, a equipe investigou uma possibilidade mais antiga: talvez os besouros tenham sido separados pela própria movimentação das massas continentais.

DNA montou a árvore da família

Para testar essa hipótese, Gustafson passou três anos produzindo dados dentro de um projeto de quatro anos financiado pela National Science Foundation. O grupo comparou sequências de DNA de genomas inteiros, uma estratégia que permite observar muitas características hereditárias ao mesmo tempo.

O material veio de fontes diferentes. Foram analisados exemplares recém-coletados no oeste dos Estados Unidos, amostras congeladas e preservadas em etanol cedidas por pesquisadores e indivíduos guardados em coleções de história natural nos Estados Unidos e na Europa.

Com essas sequências, os cientistas construíram uma árvore evolutiva. Esse tipo de representação não mostra apenas quem se parece com quem. Ela estima quais grupos compartilham ancestrais mais recentes e em que momento suas linhagens começaram a se separar.

“A coisa empolgante que descobrimos foi que o grupo é, na verdade, mais antigo do que a separação dos continentes, então eles não atravessaram os oceanos”, afirmou Gustafson.

O oceano apareceu depois dos besouros

Segundo a Proceedings of the Royal Society B, os besouros-tigre manticorinos se diversificaram quando América do Sul e África ainda estavam unidas em Gondwana. À medida que a massa continental se rompeu, populações que antes pertenciam ao mesmo espaço ficaram isoladas em porções de terra diferentes.

Esse processo é chamado de vicariância. Ele acontece quando uma barreira geográfica, como um oceano recém-formado, divide uma população ancestral. Com o passar de milhões de anos, os grupos isolados acumulam diferenças próprias, mas mantêm sinais do parentesco original em seus genes.

Segundo a Northern Arizona University, a linhagem dos besouros-tigre manticorinos surgiu antes da separação entre América do Sul e África, em Gondwana. Por isso, a presença de parentes em lados opostos do Atlântico não exige que os insetos tenham feito uma travessia: foram os continentes que se afastaram enquanto eles já existiam.

O parentesco chega à América do Norte

A árvore construída no estudo também trouxe uma relação importante para entender os besouros da América do Norte. Os grandes Amblycheila norte-americanos aparecem como parentes mais próximos dos besouros-tigre gigantes da América do Sul. Juntos, esses grupos têm relação mais próxima com os representantes encontrados no sul da África.

O resultado dá suporte genético à ideia de que essa distribuição é um vestígio da antiga configuração do planeta. Não se trata de uma prova de que os insetos tenham cruzado o Atlântico em algum momento recente, nem de uma evidência de que todos os besouros atuais sejam iguais aos ancestrais de Gondwana. O que o DNA sustenta é uma história de descendência comum seguida por isolamento geográfico.

O caso é comparável, em escala evolutiva, ao parentesco entre emas da América do Sul e avestruzes da África, dois grupos de aves que também são grandes e incapazes de voar. A diferença é que a pesquisa dos besouros oferece uma reconstrução especialmente bem apoiada por dados genômicos para um grupo de insetos separado por um oceano.

Por que essa história importa para a Amazônia

A descoberta não descreve uma espécie amazônica nem registra uma nova ocorrência de besouro na floresta. A conexão com a região está em outro ponto: a Amazônia ocupa uma área da América do Sul cuja fauna também carrega marcas de mudanças geológicas, isolamento de populações e formação de barreiras naturais.

Para quem vive nos estados amazônicos, o estudo ajuda a traduzir uma ideia central da biogeografia. A distribuição atual de um animal nem sempre pode ser explicada pelo lugar onde ele consegue chegar hoje. Em alguns casos, ela é herança de uma paisagem muito mais antiga, anterior aos rios, montanhas e oceanos que conhecemos.

Essa perspectiva é útil para pesquisas sobre biodiversidade no Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Ao comparar DNA de populações atuais, cientistas podem identificar quando uma linhagem se separou, quais ambientes funcionaram como barreiras e como a história geológica influenciou a diversidade regional.

O que ainda precisa ser esclarecido

O estudo resolve a origem geográfica do grupo em escala continental, mas não encerra todas as perguntas sobre os besouros. Ainda é necessário entender com mais detalhe como cada linhagem se diversificou depois da fragmentação de Gondwana e quais mudanças ambientais influenciaram sua sobrevivência em cada região.

A pesquisa também mostra por que coleções de história natural continuam importantes. Espécimes guardados em museus, combinados com material recém-coletado e técnicas modernas de sequenciamento, permitem investigar acontecimentos que ocorreram milhões de anos antes da existência dos seres humanos.

Os próximos passos devem envolver novas amostras e comparações genéticas para refinar a árvore evolutiva dos manticorinos e esclarecer a história das espécies norte-americanas, sul-americanas e africanas.

Com informações da Northern Arizona University.

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