
A branquinha é um peixe detritívoro da Amazônia: come matéria orgânica em decomposição, tem estômago muscular e intestino muito longo e faz migrações de média distância.
Um peixe que vive do que sobra no fundo
As branquinhas pertencem à família Curimatidae, que reúne cerca de 70 espécies. Os gêneros Potamorhina e Psectrogaster são os mais abundantes e de distribuição mais ampla, segundo Farago e colegas, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e da Universidade do Estado do Amazonas. Em artigo publicado em 2020 na revista Web Ecology, eles lembram que os curimatídeos respondem por cerca de metade da biomassa de peixes dos rios sul-americanos, citando trabalhos de Bowen, de Lowe-McConnell e de Vari e Röpke.
Diferentemente do que às vezes se supõe, a branquinha não é uma filtradora de partículas em suspensão. Os estudos de conteúdo estomacal a classificam como detritívora: ela se alimenta de detrito, definido como matéria orgânica de origem vegetal e animal parcialmente decomposta, somada a microrganismos e minerais. Também aparecem perifíton e algas, mas em proporção menor.
O que apareceu nos estômagos
O grupo do INPA analisou o conteúdo estomacal de 488 exemplares de Potamorhina latior, 37 de Potamorhina altamazonica, 794 de Psectrogaster rutiloides e 33 de Psectrogaster amazonica, capturados no Catalão, área alagável do outro lado do rio Negro, em frente a Manaus, entre junho de 2010 e julho de 2011. O detrito apareceu em mais de 99% das amostras. Também foram encontrados fragmentos de plantas, algas clorofíceas e cianofíceas, amebas com carapaça, ostrácodes, caramujos, cladóceros e copépodes.
As quatro espécies se alimentam principalmente de dia, entre 6 e 18 horas, com algumas diferenças. Potamorhina latior e Psectrogaster rutiloides tiveram o maior índice de repleção do trato digestivo entre 12 e 18 horas, enquanto Potamorhina altamazonica teve pico às 18 horas, o que os autores interpretam como uma estratégia para evitar a competição por áreas de alimentação. Nenhum dos peixes analisados tinha o estômago ou o intestino vazio.
Em outro trabalho, feito no rio Madeira, Silva (2013), em monografia da Universidade Federal de Rondônia, comparou a dieta de curimatídeos em áreas de corredeira e de planície de inundação. O detrito foi o item principal e as algas vieram em seguida nos dois ambientes, mas as proporções variaram conforme a espécie e o hábitat. Perifíton e algas tiveram peso maior na dieta de Potamorhina latior e Potamorhina altamazonica em sub-bacias com mais planície de inundação, o que a autora relaciona à qualidade do detrito que essas áreas fornecem.
Estômago de parede grossa e intestino muito comprido
O detrito rende pouca energia e pouca proteína, e por isso peixes que se alimentam dele têm adaptações para extrair o máximo de nutrientes. Farago e colegas descrevem nas quatro espécies um estômago pequeno, do tipo fúndico, com uma camada muscular espessa, e um intestino extremamente alongado e dobrado sob o estômago, que ocupa a maior parte da cavidade do corpo. Nas espécies de Psectrogaster o estômago é menor e mais arredondado; nas de Potamorhina, maior e mais alongado.
Segundo os autores, a parede muscular do estômago e o atrito com os minerais do detrito reduzem o tamanho das partículas e facilitam a ação das enzimas, enquanto o intestino longo mantém o alimento em contato com essas enzimas por mais tempo. Em peixes detritívoros em geral, o intestino pode medir de 3 a 10 vezes o tamanho do corpo. Nas branquinhas estudadas, o intestino de Potamorhina altamazonica, com comprimento padrão médio de 165 milímetros, media em média 1.843 milímetros, e o de Potamorhina latior, de 140 milímetros, media 968 milímetros.
Essa diferença no intestino de Potamorhina latior, o mais curto entre as quatro espécies, sugere, segundo os autores, que ela gasta menos tempo absorvendo nutrientes ou consome itens mais fáceis de digerir. É um exemplo de como espécies da mesma família, que dividem o mesmo alimento, podem usá-lo de maneiras distintas e conviver no mesmo ambiente.
Migração de média distância e peso na pesca
O portal Águas Amazônicas, com base em Barthem e Goulding (2007), classifica as branquinhas como migradoras de média distância, com deslocamentos de cerca de 100 a 1.000 quilômetros e desova no período de enchente. As espécies mais exploradas são Curimata vittata, Potamorhina latior, Potamorhina altamazonica e Potamorhina pristigaster. O potencial de produção pesqueira é estimado em cerca de 6.200 toneladas, com a Amazônia peruana respondendo por aproximadamente 77% da captura, a Amazônia Central por 13% e o Tocantins por 5%.
O mercado é regional e o produto é classificado como de terceira categoria, mas muitos pescadores acreditam que as branquinhas formam a maior biomassa entre os grupos de peixes comerciais da Amazônia. Ao transformar detrito em carne de peixe, elas ligam a matéria orgânica dos lagos e planícies de inundação à pesca e à alimentação de comunidades ribeirinhas. Preservar a planície alagável, onde esse detrito é produzido, é parte de manter essas populações.
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