
O Brasil está dando passos decisivos rumo à independência tecnológica em um dos campos mais promissores da transição energética: as células a combustível de óxido sólido, conhecidas como SOFCs. Pesquisadores do Centro de Inovação em Novas Energias (CINE), um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) criado pela FAPESP em parceria com a Shell e sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), já produziu protótipos de células 100% nacionais.
A iniciativa é pioneira porque busca reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros em uma tecnologia considerada estratégica para a produção de energia limpa.
Energia limpa em alta temperatura
As SOFCs são dispositivos capazes de gerar eletricidade com alta eficiência e baixas emissões. Diferentemente de outras células a combustível, elas aceitam diversos insumos, hidrogênio, bioetanol, metano, o que amplia as possibilidades de uso, desde veículos elétricos até comunidades isoladas da rede elétrica.
🌿 Receba nossas notícias no Google
⭐ Adicionar Revista AmazôniaLeia também
ANP Integra Pacto Nacional para Harmonizar Mercado de Gás no Brasil
BNDES aprova R$ 96,2 milhões para ampliar usina de biodiesel no PR
Brasil pode cortar até 40 GW de energia renovável por excesso de ofertaO desafio, porém, está em suas condições de operação. Para funcionar, as SOFCs atingem temperaturas que podem chegar a mil graus Celsius. Esse calor extremo compromete a durabilidade dos materiais e a estabilidade do sistema, fatores que ainda limitam sua adoção em larga escala.
Foi para enfrentar essa barreira que surgiu, no início dos anos 2000, a tecnologia das SOFCs de suporte metálico, conhecidas pela sigla MS-SOFCs. Nessa versão, o “esqueleto” do dispositivo é um metal poroso que oferece resistência mecânica, conduz eletricidade e permite a passagem dos gases de forma mais eficiente.
“Podemos imaginar a célula como um sanduíche de camadas. O suporte metálico é a base firme que impede a quebra da estrutura, conduz corrente elétrica e facilita o fluxo de combustível”, explica o engenheiro químico Gustavo Doubek, pesquisador da Unicamp e um dos autores principais de um artigo publicado na revista Ceramics International.

SAIBA MAIS: Pesquisadores brasileiros propõem estratégia inédita para a estabilidade de células solares de perovskita
Ciência com assinatura brasileira
No CINE, Doubek lidera pesquisas para aprimorar as MS-SOFCs. O trabalho inclui a produção de protótipos feitos integralmente no Brasil, testes com diferentes ligas metálicas para avaliar resistência em condições extremas e estudos de desempenho voltados a ampliar a potência e a vida útil das células.
Os resultados obtidos até agora reforçam a avaliação do pesquisador: “o Brasil tem capacidade de desenvolver tecnologia própria nessa área, reduzindo a dependência de fornecedores externos e abrindo caminho para aplicações em mobilidade sustentável e geração descentralizada de energia limpa”.
O estudo destacou o potencial das ligas de aço inoxidável como suporte. Elas aliam robustez à resistência à corrosão, atributos essenciais para enfrentar as exigências de operação em temperaturas elevadas. Além disso, os avanços relatados no artigo oferecem aos pesquisadores de todo o mundo orientações sobre fabricação, escolha de materiais e tratamentos de superfície capazes de tornar a produção mais escalável e econômica.
Cooperação científica e financiamento
A pesquisa contou com colaboração internacional de um cientista da King Abdullah University of Science and Technology (KAUST) e foi apoiada por diferentes fontes de financiamento. Além da FAPESP, que mantém três projetos vinculados ao tema, o trabalho recebeu recursos da Fundação de Apoio da Universidade Federal de Minas Gerais (Fundep) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Esses aportes são estratégicos, pois permitem transformar pesquisas de base em soluções aplicadas, capazes de gerar impacto econômico e ambiental.
O que está em jogo
A transição energética mundial não depende apenas de grandes parques solares ou eólicos. Tecnologias de armazenamento e conversão de energia, como as células a combustível, são fundamentais para garantir segurança energética em diferentes contextos.
Nesse cenário, a capacidade do Brasil de dominar o ciclo completo de produção de SOFCs, da pesquisa em materiais ao protótipo funcional, tem peso estratégico. Mais do que um avanço científico, trata-se de uma afirmação de soberania tecnológica e de inserção em cadeias globais de inovação.
O trabalho do CINE mostra que, com investimentos consistentes e cooperação entre universidades, agências de fomento e setor privado, o país pode não apenas acompanhar, mas também propor soluções próprias em tecnologias de fronteira.
Nunca perca uma notícia da AmazôniaControle o que você vê no Google
O Google lançou as Fontes Preferenciais: escolha os veículos que aparecem com prioridade. Adicione a Revista Amazônia e garanta cobertura exclusiva sempre em destaque.
Adicionar Revista Amazônia como Fonte Preferencial1. Pesquise qualquer assunto no Google
2. Toque no ⭐ ao lado de "Principais Notícias"
3. Busque Revista Amazônia e marque a caixa — pronto!
















Você precisa fazer login para comentar.