Brasil reduz queimadas em meio a ano extremo de calor e consolida nova estratégia ambiental
O Brasil encerrou 2025 com sinais concretos de inflexão em um dos seus maiores desafios ambientais: o controle das queimadas. Em um ano marcado por recordes de temperatura global e eventos climáticos extremos, dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam quedas expressivas nos focos de calor em diferentes escalas do território nacional. O movimento revela não apenas uma mudança estatística, mas o resultado de um redesenho institucional que combina prevenção, fiscalização, presença em campo e novos marcos legais.

Entre os exemplos mais emblemáticos está o Pará, estado historicamente pressionado pelo avanço do fogo em áreas florestais e rurais. Em 2025, o território paraense reduziu em 67% os focos de queimadas em comparação com 2024, caindo de 55.298 para 18.011 registros, segundo o Inpe. Foram mais de 37 mil focos a menos em apenas um ano, um dado que reposiciona o estado no debate ambiental nacional e reforça o papel das políticas subnacionais no enfrentamento da crise climática.
Esse desempenho não ocorreu de forma isolada. Ele dialoga com um cenário nacional igualmente significativo: agosto de 2025 registrou o menor número de queimadas desde o início da série histórica, em 1998. No mês mais crítico do calendário do fogo, foram contabilizados 18.451 focos em todo o país, uma queda de 61% em relação à média histórica, consolidando um marco simbólico na gestão ambiental brasileira.
Pará como laboratório de políticas ambientais integradas
No Pará, os números ganham ainda mais relevância quando se observa a redução das chamadas cicatrizes de fogo — áreas efetivamente atingidas por incêndios. Em 2024, o estado contabilizou 24.278 km² de áreas queimadas. Em 2025, esse número despencou para 2.079 km², uma redução de 91%, indicando não apenas menos ocorrências, mas incêndios de menor extensão e impacto.
Para o governador Helder Barbalho, os dados refletem um modelo de gestão baseado em articulação institucional e planejamento permanente. O avanço, segundo ele, decorre da atuação coordenada entre órgãos estaduais, municípios e forças de fiscalização, aliada a políticas preventivas e presença contínua em áreas críticas.
A estratégia ganhou estrutura formal com o lançamento do Programa Estadual de Prevenção e Combate às Queimadas e Incêndios Florestais (PEPIF), coordenado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas). O programa integrou diferentes frentes de atuação e regulamentou o serviço ambiental voluntário de brigadistas florestais, ampliando a capacidade de resposta local e antecipação de riscos.
Segundo o secretário Raul Protázio Romão, a experiência paraense demonstra que o combate ao fogo exige continuidade, inteligência territorial e diálogo com comunidades locais, especialmente em regiões onde o uso do fogo historicamente esteve associado à produção rural.

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Queda histórica no Brasil reforça mudança de paradigma
No plano nacional, os dados consolidados pelo Inpe mostram que, em 2025, o Brasil registrou 47.531 focos de queimadas ao longo do ano. Diferentemente de períodos anteriores, o Cerrado foi o bioma mais impactado, concentrando 47,9% dos registros, enquanto a Amazônia respondeu por 28,3%. O Pantanal, após anos críticos, apresentou apenas 173 focos, equivalente a 0,4% do total.
Esse cenário está diretamente ligado a uma série de ações estruturantes conduzidas pelo Governo Federal, com destaque para o fortalecimento do Ibama e do ICMBio, que passaram a contar com o maior contingente de brigadistas da história: 4.385 profissionais em campo. A frota aérea também foi ampliada, com novos helicópteros capazes de aumentar significativamente o transporte de equipes e o lançamento de água em áreas remotas.
Outro eixo central foi o fortalecimento do Fundo Amazônia, que aprovou mais de R$ 400 milhões para apoiar os Corpos de Bombeiros dos estados da Amazônia Legal, além de estender, pela primeira vez, recursos para ações no Cerrado e no Pantanal.
Novo marco legal redefine o uso do fogo no país
A mudança estrutural no combate às queimadas também passa pelo campo legislativo. Em 2024, entrou em vigor a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei nº 14.944, que redefine regras para o uso do fogo em áreas rurais. A norma altera o Código Florestal e a Lei de Crimes Ambientais, estabelecendo critérios mais rigorosos para queimadas controladas e prescritas, ao mesmo tempo em que reconhece práticas tradicionais de povos indígenas, comunidades quilombolas e agricultores familiares.
A coordenação da política ficou a cargo do Ibama, em parceria com a Funai, a Fundação Cultural Palmares e governos estaduais. A lei também criou instâncias intergovernamentais de resposta rápida e determinou o cadastro nacional de brigadas florestais, sob articulação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Em um contexto global em que 2025 figura entre os anos mais quentes já registrados, segundo a Organização Meteorológica Mundial e o serviço europeu Copernicus, a experiência brasileira sugere que planejamento, cooperação federativa e base científica são capazes de conter o avanço do fogo mesmo sob condições climáticas adversas.
Mais do que números, a redução das queimadas em 2025 sinaliza uma mudança de rota: o fogo deixa de ser tratado apenas como emergência e passa a ser enfrentado como política pública permanente, conectada à agenda climática, à proteção da biodiversidade e à saúde da população.











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