Piscina inglesa passa a ser aquecida com o calor de um crematório, e a ideia já chega a escolas escocesas e a casas finlandesas

Piscina inglesa passa a ser aquecida com o calor de um crematório, e a ideia já chega a escolas escocesas e a casas finlandesas
Foto: acervo

Calor que sairia pela chaminé está virando aquecimento em países europeus, e o assunto levanta dilemas éticos e econômicos.

Parece enredo de filme esquisito, mas é engenharia de energia: em Redditch, cidade inglesa ao sul de Birmingham, parte do calor gerado na cremação de pessoas aquece a água de uma piscina pública. A solução, adotada pelo conselho local, aproveita o que antes saía pela chaminé e já inspira projetos na Escócia e na Finlândia, segundo reportagem da revista WIRED.

Um radiador gigante e um tubo de 200 metros

Guy Revans, dos conselhos de Redditch e Bromsgrove, resume a ideia sem rodeios: “All you’re doing is basically heating a radiator and sending the heat down a tube”. Em tradução livre, é como esquentar um radiador e mandar o calor por um cano.

O crematório da cidade realiza cerca de 1.200 cremações por ano e tem dois fornos a gás. Os gases de exaustão passam por um trocador de calor, etapa comum em muitos crematórios para retirar o mercúrio vaporizado das obturações dentárias antes de liberar o restante na atmosfera.

Ou seja, o calor muitas vezes já é captado por padrão. A pergunta que sobra é se vale desperdiçá-lo ou usá-lo.

Por que uma piscina funciona tão bem

Em Redditch, a água aquecida percorre um circuito subterrâneo de 200 metros até outro trocador de calor, que abastece a piscina do centro de lazer. Segundo Revans, um volume tão grande de água “acts as a heat sink”, isto é, funciona como reservatório de calor. “You put heat into it during the day, it retains that heat for a considerable length of time”, diz ele.

Caldeiras a gás complementam o sistema quando é preciso mais calor. Ainda assim, o conselho economiza dezenas de milhares de libras por ano em combustível.

Escócia e Finlândia seguem a trilha

Em Aberdeen, na Escócia, um projeto já tem licença de planejamento completa. Segundo Ian Davidson, diretor-executivo da Aberdeen Heat & Power, o crematório fornecerá pouco menos de 1 gigawatt-hora de calor por ano, cerca de metade da necessidade total de uma escola. Uma bomba de calor cobrirá o resto, e a operação plena está prevista para fevereiro de 2027. Davidson afirma que antes só uma pequena fração do calor disponível era aproveitada.

Na Finlândia, o crematório que abrirá em Kangasala em 2028 será totalmente elétrico, em parte movido por painéis solares no telhado, e ligado à rede de aquecimento urbano da cidade, que leva água quente a mais de 6.500 residências. No inverno local, as temperaturas podem ficar abaixo de zero por semanas.

O consultor Timo Heikkilä, da Thenco Oy, conta que o país tenta reduzir o uso de gás natural, antes barato e vindo da vizinha Rússia. Ele já decidiu o que quer para si: “I would like to be cremated, and I would like my waste heat to be recycled”. E completa: “It’s the sensible thing. The last favor you can do for the world.”

Por que a ideia não decola nos EUA

Nos Estados Unidos, o cenário é menos favorável. Paul Seyler, da Matthews Environmental Solutions, explica que redes de aquecimento urbano são raras e que os crematórios costumam ser privados, o que encarece trocadores de calor e tubulações. Ele diz não conhecer sistemas plenamente operacionais no país, além de pequenos experimentos.

O exemplo mais próximo está no Canadá, em um complexo funerário de 3.255 metros quadrados em Sainte-Thérèse, Quebec. Trocadores instalados há pouco mais de uma década distribuem o calor pelo prédio e pelas calçadas, para derreter neve. A estimativa é de economia de 29 toneladas métricas de gases de efeito estufa por ano. O proprietário hesitou no início, por temer um dilema ético.

Poupa pouco, mas importa

O ganho total é modesto. Um estudo publicado em 2024 estimou que, se todos os crematórios do Reino Unido fossem aproveitados, atenderiam só 1% da demanda de aquecimento do país. Ainda assim, descarbonizar o aquecimento é uma tarefa gigantesca, e cada fonte conta.

Há também a questão emocional. Revans reconhece: “But death is always an emotive subject, isn’t it?”. A maioria dos crematórios consultados pela WIRED não destaca a tecnologia para as famílias, embora o conselho de Aberdeen prometa uma campanha de informação antes da entrada em operação.

Hannah Rumble, da Universidade de Bath, vê no calor reaproveitado uma resposta ao “devastating impact” humano no ambiente e acredita que isso pode influenciar a escolha do local de cremação. A celebrante Gaynor Doherty considera a prática sensata, mas sugere que o sepultamento natural, em mortalha ou caixão biodegradável, talvez seja ainda preferível.

E na Amazônia?

O modelo europeu depende de redes de aquecimento e invernos rigorosos, condições que não existem na região amazônica. A lição possível para o Norte do Brasil está em outra camada: tratar como recurso o calor que hoje se perde em atividades de alta temperatura. Os projetos de Aberdeen, em 2027, e de Kangasala, em 2028, vão mostrar se a ideia se consolida fora das pequenas experiências.

Com informações de WIRED.

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