Calor extremo chega a 98% dos atendimentos, eleva risco de parto prematuro e expõe falhas na proteção

Calor extremo chega a 98% dos atendimentos, eleva risco de parto prematuro e expõe falhas na proteção
Foto: ClimaInfo,

Pesquisa com profissionais de cinco países mostra como as altas temperaturas já afetam gestantes, fetos e recém-nascidos.

O calor extremo deixou de ser apenas um desconforto para entrar na rotina dos serviços de saúde materna. Em uma pesquisa realizada com 1.000 profissionais de cinco países, 98% disseram já ter atendido uma gestante cuja saúde acreditavam ter sido prejudicada por altas temperaturas. Entre os recém-nascidos, a exposição também apareceu em praticamente todos os relatos: 99% dos entrevistados afirmaram ter cuidado de um bebê afetado pelo calor.

O levantamento foi encomendado pela Fundação Wellcome e reuniu profissionais da Índia, Austrália, Brasil, Reino Unido e Zimbábue. Os resultados foram divulgados em 5 de outubro de 2026, em meio ao avanço dos alertas internacionais sobre os efeitos da crise climática na gestação, no parto e nos primeiros dias de vida.

O que os profissionais estão vendo nos atendimentos

Mais de sete em cada dez participantes perceberam crescimento de casos ou complicações ligados ao calor entre gestantes. O índice foi de 73%. Quando a pergunta envolveu a saúde fetal ou neonatal, a proporção subiu para 76%.

Os profissionais também demonstraram preocupação com a continuidade dessa tendência. Ao todo, 81% disseram estar preocupados ou muito preocupados com o aumento dos riscos para mães, fetos e recém-nascidos se não forem adotadas medidas de adaptação e de redução das emissões que agravam o aquecimento do planeta.

Segundo a Fundação Wellcome, os dados divulgados em 5 de outubro de 2026 reúnem a percepção de 1.000 profissionais de saúde materna em cinco países, incluindo o Brasil. O resultado descreve uma experiência observada nos serviços, mas não substitui o acompanhamento clínico individual nem permite concluir que todo caso de parto prematuro tenha sido provocado pelo calor.

Por que a temperatura interfere na gravidez

O organismo da gestante precisa regular a própria temperatura enquanto sustenta as mudanças metabólicas da gravidez. Em dias muito quentes, esse esforço pode ser agravado pela desidratação, pelo trabalho físico, pela falta de ventilação e pela dificuldade de repousar em um ambiente fresco.

O estudo da Wellcome aponta associações entre a elevação da temperatura e problemas como parto prematuro, morte fetal, baixo peso ao nascer e complicações maternas. A estimativa apresentada pelos autores indica que cada aumento de 1°C está associado a uma alta de 5% na incidência de partos prematuros e de 7% nos casos de diabetes gestacional.

Esses percentuais representam uma relação estatística observada em pesquisas, não uma previsão automática para cada gravidez. O risco pode variar conforme a duração da exposição, a umidade, a condição de saúde da gestante, a idade gestacional, o acesso a água e a qualidade do atendimento.

O risco não termina na porta da maternidade

Para mulheres que trabalham ao ar livre, vivem em casas sem refrigeração adequada ou precisam viajar por longas distâncias até uma unidade de saúde, escapar do calor pode ser difícil. O problema também alcança os próprios serviços, que dependem de eletricidade, abastecimento de água e sistemas de refrigeração para funcionar com segurança.

Em regiões onde esses recursos são instáveis, uma onda de calor pode transformar o deslocamento até a consulta em uma etapa de risco. O trajeto prolongado, a espera em locais abafados e a interrupção de equipamentos essenciais afetam a proteção oferecida à mãe e ao bebê.

“Por trás desses números, existem histórias humanas: a ida de uma gestante à clínica, atrasada pelo calor perigoso; uma parteira trabalhando em temperaturas inseguras; um recém-nascido precisando de cuidados especializados. Manter a calma simplesmente não é uma opção quando não há um lugar fresco para ir”, disse Simon Stiell, chefe da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

O que o alerta significa para a Amazônia

O Brasil está entre os países incluídos na pesquisa, mas os resultados divulgados não apresentam uma divisão específica por estado ou por região. Ainda assim, o tema alcança diretamente a Amazônia, onde gestantes podem enfrentar longos deslocamentos fluviais ou rodoviários, calor intenso e desigualdade no acesso a unidades com energia, água e refrigeração confiáveis.

Para os serviços de saúde do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão, a adaptação climática precisa ser pensada junto com a assistência obstétrica. Isso inclui proteger equipes que trabalham em ambientes quentes, organizar áreas de espera mais ventiladas, garantir hidratação e preparar planos para falhas de energia ou interrupções no transporte.

A conexão regional não significa que todos os partos prematuros na Amazônia sejam causados pelo calor. Ela mostra, porém, por que a infraestrutura de saúde e as condições de deslocamento são parte da resposta climática. Sem essas medidas, a orientação para evitar a exposição pode ser inviável para quem não tem um local fresco ou atendimento próximo.

Adaptação e redução do aquecimento caminham juntas

O alerta internacional combina duas frentes. A primeira é a adaptação, com ações capazes de reduzir a exposição imediata, melhorar o atendimento e proteger gestantes e recém-nascidos durante ondas de calor. A segunda é a mitigação, que busca diminuir as emissões responsáveis pelo aquecimento global e, consequentemente, limitar a frequência e a intensidade dos extremos térmicos.

Simon Stiell classificou a gravidez e o parto como um “novo ponto crítico na crise climática global”. A expressão não indica que o calor seja o único fator envolvido nos desfechos da gestação, mas chama atenção para uma população que pode ser afetada ao mesmo tempo por mudanças fisiológicas, condições sociais e falhas de infraestrutura.

Os próximos passos dependem de transformar essa evidência em protocolos de atendimento, sistemas de alerta e investimentos que mantenham clínicas funcionando durante os extremos de temperatura. A pesquisa da Wellcome reforça que essa preparação precisa começar antes que o calor chegue ao nível de emergência.

Com informações de Fundação Wellcome e Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

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