
Milhões de montículos formam uma rede subterrânea construída por gerações de cupins em uma paisagem do interior do Brasil
Do alto, o terreno parece coberto por milhares de pontos organizados em intervalos regulares. No solo, cada ponto é um montículo de terra construído por cupins. Entre eles existe uma rede de túneis subterrâneos que conecta partes do campo e continua em funcionamento milhares de anos depois do início da formação da paisagem. A dimensão transforma o conjunto em uma das maiores obras de engenharia animal conhecidas.
A cena ocorre no interior do Brasil, em uma área de vegetação aberta associada ao Cerrado e a ambientes sazonais. O campo pode ser reconhecido em imagens de satélite porque os cupinzeiros se repetem por grandes extensões, com formas e distâncias que não correspondem a uma construção isolada. A história ganhou destaque científico em 2018, quando a idade do sistema foi estimada em aproximadamente quatro mil anos. O fato mais importante não é a sobrevivência de um cupim individual, mas a continuidade de uma arquitetura mantida por muitas gerações.
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O cupinzeiro visível na superfície é apenas a parte externa de um sistema maior. Cupins retiram partículas do solo, transportam material vegetal e reorganizam o terreno para abrir câmaras, passagens e áreas de circulação. Os trabalhadores têm corpo claro e mandíbulas adaptadas ao corte e ao transporte de materiais. Soldados, por sua vez, defendem a colônia, enquanto indivíduos reprodutores asseguram a formação de novas gerações. A divisão de tarefas permite que o trabalho continue mesmo quando uma parte da colônia morre.
Essa organização distingue o campo de uma coleção casual de montes de terra. Os montículos funcionam como entradas e pontos de ventilação ligados a galerias abaixo do solo. A construção distribuída também permite que as colônias explorem recursos espalhados, especialmente folhas secas, raízes e outros restos vegetais disponíveis na estação. Em vez de concentrar toda a atividade em uma única estrutura, os cupins ocupam uma superfície ampla e conectada. O resultado é uma obra produzida por comportamento coletivo, sem um projeto centralizado por um indivíduo.
Quatro mil anos não significam um único cupinzeiro intacto
A estimativa de quatro mil anos descreve a antiguidade do campo e de seus processos de formação, não a idade de uma colônia individual. Cupins têm ciclos de vida muito menores, e as colônias passam por renovação, expansão, abandono parcial e reocupação. Ao longo do tempo, novas gerações podem manter caminhos, reconstruir montículos e alterar trechos da rede subterrânea. Assim, a paisagem preserva uma continuidade de construção, não a permanência dos mesmos animais.
A datação milenar também exige cuidado na interpretação. O material analisado indica quando componentes orgânicos associados à estrutura foram incorporados ou ficaram preservados no solo. Esse método permite estimar a idade do sistema, mas não transforma cada montículo em uma peça congelada no tempo. Algumas partes podem ser mais antigas, enquanto outras foram reparadas ou reconstruídas depois. A evidência central permanece: a distribuição atual é resultado de uma longa história de ocupação e manutenção, e a atividade observada hoje pertence a gerações recentes de cupins.
O que as imagens de satélite conseguem revelar
Satélites não mostram os túneis diretamente. O que aparece nas imagens é o padrão superficial formado pela repetição dos montículos em uma área extensa. A regularidade, a concentração e o contraste entre a terra dos cupinzeiros e a vegetação permitem reconhecer o campo em uma escala impossível para uma observação feita apenas a pé. A fotografia orbital transforma uma construção subterrânea em um desenho legível na paisagem brasileira.
O sistema ocupa uma área tão ampla que sua dimensão só se torna evidente quando os montículos são observados em conjunto. Estimativas associadas ao campo apontam dezenas de milhões de estruturas distribuídas por milhares de quilômetros quadrados, embora a contagem exata varie conforme o método e os limites considerados. Cada monte é relativamente pequeno diante da extensão total, mas a soma produz uma das maiores obras de engenharia animal conhecidas. A comparação não depende de atribuir inteligência humana aos cupins, e sim de medir a área, a persistência e a repetição do trabalho.
Uma rede ativa que também reorganiza o ecossistema
Os túneis modificam a forma como água, ar e matéria orgânica circulam no solo. Ao escavar, os cupins levam partículas de camadas mais profundas para a superfície e criam espaços que podem facilitar a infiltração. O material acumulado nos montículos também altera as condições locais de umidade e nutrientes. Essas mudanças produzem microambientes diferentes do terreno ao redor, com efeitos sobre raízes, plantas rasteiras e outros organismos que usam o solo.
A consequência prometida pela imagem é, portanto, uma transformação ambiental de longa duração. O campo não é somente um conjunto de moradias, mas uma infraestrutura que reorganiza o espaço onde as colônias vivem e se alimentam. Ainda assim, os dados não permitem afirmar que todos os montículos estejam ocupados ao mesmo tempo ou que cada túnel original permaneça intacto. A atividade atual confirma a continuidade do processo, enquanto a idade revela sua profundidade histórica. Vista do espaço, a paisagem lembra que uma obra pode atravessar milênios sem depender de um construtor individual, apenas da repetição de tarefas simples por sucessivas gerações.
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