
Um estudo de 2018 estimou 200 milhões de montículos no Nordeste do Brasil, resultado da escavação de uma vasta rede de túneis por uma única espécie de cupim.
Em imagens de satélite, uma parte da Caatinga, no Nordeste do Brasil, aparece coberta por pontos regularmente espaçados. No chão, cada ponto é um montículo de terra em forma de cone, com cerca de 2,5 metros de altura e 9 metros de diâmetro. Eles foram construídos por cupins da espécie Syntermes dirus, de acordo com um estudo publicado em novembro de 2018 na revista Current Biology pelo pesquisador Stephen Martin, da Universidade de Salford, no Reino Unido, e colegas, entre eles Roy Funch, da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia.
O estudo estima cerca de 200 milhões de montículos em uma área de aproximadamente 230 mil quilômetros quadrados, comparável à da Grã-Bretanha, em região de floresta tropical sazonalmente seca. A escavação envolveu cerca de 10 quilômetros cúbicos de solo, volume que os autores compararam ao de 4 mil grandes pirâmides de Gizé. Para Funch, trata-se, aparentemente, do maior trabalho de bioengenharia de uma única espécie de inseto.
Os montículos não são ninhos
Apesar do nome popular de cupinzeiros, essas estruturas não são ninhos. Os autores as descrevem como grandes pilhas de solo, sem arquitetura interna definida, subprodutos da escavação de túneis subterrâneos interligados. Segundo Martin, os cupins usam essa rede para chegar com segurança às folhas mortas do chão da floresta: formam tubos temporários a partir de baixo para alcançar o alimento e depois os selam. Os montículos são, portanto, o que ficou na superfície de uma obra feita sobretudo debaixo da terra.
O que significam os quatro mil anos
Para estimar a idade, a equipe coletou amostras de solo no centro de 11 montículos. As idades variaram de 690 a 3.820 anos, e o mais antigo tem cerca de 4 mil anos, o que Funch comparou à idade das pirâmides. Os autores também compararam esses valores aos dos montículos de cupins mais antigos conhecidos na África.
Dois cuidados são necessários na leitura. O primeiro é que só 11 montículos foram datados entre cerca de 200 milhões, e o valor de 3.820 anos é o do mais antigo entre os amostrados. O segundo é que a idade descreve o montículo, e não um cupim individual: cupins vivem muito menos que isso, de modo que a permanência da estrutura por milênios não pode ser atribuída a um único indivíduo. A estrutura das colônias dessa espécie segue pouco conhecida, e nenhuma câmara de rainha foi encontrada, segundo a divulgação do estudo.
Uma rede ainda em uso
Os pesquisadores relatam que os montículos amostrados continuam ocupados pela espécie que os construiu e que a rede de túneis ainda dá aos cupins acesso seguro ao alimento. As informações divulgadas não permitem afirmar que todos os 200 milhões de montículos estejam ocupados ao mesmo tempo, nem que cada túnel original permaneça intacto.
Testes de comportamento indicaram que cupins de montículos próximos não se atacavam, enquanto indivíduos de pontos separados por mais de cerca de 48 quilômetros reagiram com rapidez e agressividade. A divulgação da Universidade de Nebraska-Lincoln, que participou da datação, interpreta o resultado como indício de uma relação entre território e acesso a recursos.
O que o satélite consegue mostrar
Imagens de satélite não mostram os túneis. O que aparece é o padrão da superfície, com montículos repetidos de forma regular por grandes extensões. Na Caatinga, formada por vegetação espinhosa que perde as folhas na estação seca, os montículos ficam em boa parte ocultos a quem caminha pela área, o que ajuda a explicar por que a dimensão do conjunto só se tornou clara em escala regional. Os autores destacam que a região é relativamente pouco perturbada e climaticamente estável, condições que podem ter favorecido a preservação do padrão.
Para Martin, é notável que ainda seja possível encontrar uma estrutura biológica desse tamanho e dessa idade que era praticamente desconhecida da ciência. O campo de montículos da Caatinga mostra como a soma de tarefas simples, repetida por gerações de insetos, pode reorganizar uma paisagem inteira, e como a escala dessa obra só se revela quando se combinam dados de solo, observações de campo e imagens de satélite.
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